Lei não está a ser cumprida. Faltam profissionais para registar crianças com cancro

Pais, médicos e investigadores denunciam que o registo oncológico pediátrico, que é obrigatório, não está a ser efetuado e que o Ministério da Saúde sabe da situação.

A coordenadora do Registo Oncológico Pediátrico lamenta que apenas 40% dos casos de cancro em crianças sejam registados devido à falta de profissionais, apesar de a lei prever que o registo seja feito a nível nacional.

Esta sexta-feira, médicos, investigadores e pais de crianças com cancro vão estar reunidos na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, para reivindicar mais condições na área oncológica infantil.

Ouvida pela TSF, Gabriela Caldas, coordenadora do Registo Oncológico Pediátrico, confessa sentir-se desmoralizada pelo facto de o registo obrigatório dos casos não estar a ser cumprido, por falta de funcionários.

"Não está a ser cumprida a lei", declarou Gabriela Caldas, que adiantou que há um pedido de contratação de um registador para o Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa que aguarda autorização superior.

Gabriela Caldas, que é também pediatra no IPO, assegura ainda que "a ministra da Saúde tem conhecimento" destas situações. "Não é uma novidade", atira.

A coordenadora do Registo Oncológico Pediátrico garante, no entanto, que o tratamento das crianças não está a ser afetado por esta lacuna. "O registo existe para se ter conhecimento da realidade nacional e poderá ter importância nalgumas estratégias em termos oncológicos, mas não tem impacto no tratamento das crianças", esclareceu.

O que pode prejudicar o tratamento das crianças, receiam os pais, é a falta de investigação na área do cancro pediátrico. Margarida Cruz, diretora-geral da Acreditar - Associação de Pais e Amigos das Crianças com Cancro, defende que investigar "porque é que existem cancros nas crianças e porque é que os cancros nas crianças são tão diferentes dos cancros nos adultos seria algo absolutamente fundamental para depois podermos falar em tratamentos mais específicos".

Em declarações à TSF, Margarida Cruz lembra também que há, felizmente, cada vez mais casos de crianças que sobrevivem a uma doença oncológica e que é importante que "a questão da sobrevivência seja alvo de mais investigação", no sentido de "melhorar a qualidade de vida dos sobreviventes".

Mas para que isso seja possível, é preciso mais dinheiro, mais estratégia e mais técnicos a tempo inteiro, alerta o presidente da Associação Portuguesa de Investigação em Cancro​​​​​, Luís Costa.

"A investigação em cancro tem deixado um bocadinho esquecido o tema da pediatria. Tem que ser feito muito investimento. É uma área que não tem tido tanta atenção da indústria farmacêutica", disse Luís Costa à TSF. "Ainda há crianças a morrer por cancro. Para estas crianças para as quais não temos boas alternativas, é preciso investigar novas abordagens, novos medicamentos e novos protocolos", frisou.

Um inquérito sobre a investigação feita em Portugal revela que as leucemias agudas e os tumores cerebrais são os cancros mais estudados e que a investigação acontece principalmente nos grandes centros urbanos, como Lisboa, Porto, Braga e Coimbra. Nos resultados fica claro que a falta de técnicos a tempo inteiro é um dos principais obstáculos à investigação.

*com Maria Miguel Cabo, Nuno Domingues e Paula Dias

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