Linhas vermelhas estão desatualizadas. "Os ingleses conseguiram antecipar antes de nós a nossa evolução"

As linhas vermelhas do Instituto Ricardo Jorge são contabilizadas com dados que, na opinião do epidemiologista Filipe Froes, já não correspondem à realidade. Filipe Froes dá o exemplo do Reino Unido, que conseguiu antecipar duas semanas o que se ia passar em Portugal.

As linhas vermelhas apresentadas na sexta-feira pela DGS e pelo Instituto Dr. Ricardo Jorge estão desatualizadas, garante o epidemiologista Filipe Froes. Em declarações à TSF, o coordenador do gabinete de crise da Covid-19 da Ordem dos Médicos revela que o rácio para camas de cuidados intensivos não permite linhas vermelhas como as estabelecidas pelas autoridades de saúde.

O especialista refere-se ao número diário de doentes de Covid-19 internados em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) no continente, que na quarta-feira era de 72, e que tem revelado uma tendência crescente, correspondendo a 29% do valor crítico definido de 245 camas ocupadas. Esse valor crítico não recebe a aprovação de Filipe Froes. "Não temos mil e tal camas nos cuidados intensivos, nem temos os recursos humanos alocados aos cuidados intensivos que tínhamos na altura, porque muitas pessoas doutras especialidades foram desviadas para os cuidados intensivos", sustenta o médico.

Além disso, realça, "muitos internos suspenderam os internatos, foram desviados para os cuidados intensivos", pelo que os recursos humanos e o número de camas permitiam estabelecer "uma linha de 245". Mas muito mudou nas últimas semanas. "Neste momento não sabemos qual é a lotação nacional em termos de cuidados intensivos. Manter os 245 se calhar é estar a trabalhar com um terço das camas do total existente, com recursos que já não temos." O epidemiologista considera tratar-se de um "número péssimo".

"Não podemos atingi-lo, de maneira nenhuma", aclara Filipe Froes, que sugere fixar esse valor crítico em 10% da lotação nacional. Também por isso a matriz de risco deve ser atualizada, tendo por base outros indicadores, explica o epidemiologista. "A matriz de risco deve ser atualizada e incorporar critérios de gravidade que foram perdidos" devido à vacinação.

Devido ao atraso entre estes indicadores e o resultado em termos de enfermarias, Filipe Froes defende que a matriz deve ser "robustecida, para efeitos de segurança e melhor fundamentação da decisão, com a composição de um indicador de incidência que inclua, além dos novos casos, o Rt, a evolução do Rt, a taxa de positividade, a evolução da taxa de positividade e necessariamente o número de testes - porque, se fizermos menos testes, podemos estar a deturpar as conclusões -, e um indicador composto de gravidade que tem de incluir necessariamente a pressão no Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente o número de internamentos em enfermaria e em cuidados intensivos, mas numa perspetiva diferente".

"Estamos sempre a trabalhar em números absolutos", critica o médico, que dá o exemplo do Reino Unido, que conseguiu antecipar duas semanas a evolução da pandemia em Portugal. "Os ingleses, com base na informação que eles recolhem dos exames e das pessoas que viajam de Portugal para o Reino Unido, conseguiram antecipar antes de nós a nossa evolução. Tiveram essa capacidade de monitorizar a taxa de positividade, a taxa de doentes infetados, o número de casos e o impacto das variantes nas pessoas que chegaram ao Reino Unido de forma a fundamentarem com mais antecedência a nossa retirada do corredor verde."

Por outro lado, para o médico epidemiologista, é fundamental perceber se quem está a ser vacinado está a ficar infetado, porque a variante Delta diminui a eficácia da inoculação. Assim, passados 15 meses de pandemia, deveria ter sido feito mais para acautelar o modelo de decisão, defende Filipe Froes.

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