Maioria das águias caçadeiras pode acabar em dez anos em Portugal

A previsão é de João Paulo Silva, investigador da Universidade do Porto, no dia em que foi assinado um protocolo para travar o fim da águia caçadeira. A destruição de ninhos e as searas a serem cada vez menos, são algumas das causas apontadas para uma possível extinção.

É considerada amiga do agricultor e pode ter o seu fim para muito breve. A águia caçadeira é uma das aves migratórias que está em maior perigo de extinção em Portugal e, para evitar o seu fim, foi, esta terça-feira, assinado, em Elvas, um protocolo entre investigadores, produtores e interessados na conservação da natureza.

Ouvido pela TSF, João Paulo Silva, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, uma das instituições signatárias do protocolo, antecipa que 80% das águias caçadeiras possam acabar em Portugal. "Atualmente há 120 casais de águias caçadeiras", é o balanço atual feito pelo investigador.

A "caçadeira" é uma espécie que "depende quase exclusivamente das searas para se reproduzir". A ave "faz o seu ninho no chão, no meio das searas" e usa-as "para se alimentar". João Paulo Silva recorda que as "searas estão a desaparecer e a produção de trigo e outros cereais estão num mínimo histórico". Por este motivo, as "caçadeiras" são cada vez mais uma raridade.

O investigador afirma que, desta forma, há "uma perda direta de habitat", também por causa do cultivo de outros produtos, que não o cereal ou o trigo. "Há uma conversão das áreas cerealíferas, em pastagens permanentes, essencialmente para a produção de gado bovino", constata João Paulo Silva, lembrando que os campos estão também cada vez mais desertos, sem serem cultivados.

Alentejo e Trás-os-Montes são as regiões mais afetadas, com os agricultores a poderem ficar, a breve prazo, sem uma importante ajuda. "É um espécie que está sempre a caçar nas searas, é considerada uma amiga dos agricultores, na medida em que caça presas, que são consideradas pelos agricultores como pragas para a agricultura, como os ratos e os gafanhotos", afirma o investigador.

Mas para além de campos abandonados e sem o cultivo de cereais, os ovos da águia caçadeira acabam destruídos, já que a águia "faz o seu ninho" numa época em que os campos estão a ser cultivados, é o que lembra o presidente da Associação Nacional de Produtores de Cereais (ANPOC). José Palha afirma que "muitas vezes involuntariamente, porque os ninhos são feitos no chão", os agricultores destroem-nos, porque "a máquina que promove a colheita não consegue identificá-los no chão".

Para evitar este desfecho é que foi celebrado o protocolo, vinca José Palha. "O protocolo pretende identificar regiões preferenciais de nidificação [quando um animal constrói um ninho] desta águia caçadeira, identificar as parcelas onde elas tinham os ninhos, falar com os agricultores, proteger esses ninhos, para que, na altura da colheita, os mesmos não sejam destruídos", afirma o presidente da ANPOC, sublinhando o que muda com a assinatura do protocolo.

É nesta etapa do processo que entra a ciência, numa missão de resgate e salvamento. João Paulo Silva explica que, quando os ninhos estiverem identificados, os ovos "vão ser retirados, para que possam ser criados em cativeiro". Assim que passarem por um "processo específico de reintegração da natureza", o investigador da Universidade do Porto afirma que as aves "que foram criadas de forma mais artificial" são libertadas.

O especialista em biodiversidade acrescenta que o protocolo prevê que haja "ações de proteção de ninhos, quando estes já têm crias" e que o resgate acontece "quando os ninhos ainda têm os ovos".

Para além de Portugal, a águia caçadeira está presente em Espanha. Por ser migratória, costuma regressar habitualmente de África, região onde costuma estar, em setembro. Segundo João Paulo Silva, a águia costuma reproduzir-se até julho, época que coincide como cultivo do trigo e cereal.

O protocolo assinado esta terça-feira, entre o Clube Produtores Continente, a Associação Nacional de Cereais, o Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto e a associação Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural, pretende "apoiar e promover a conservação desta espécie migratória em Portugal e, em paralelo, identificar medidas de gestão para salvaguardá-la".

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