"Mandar medicamentos em português pode causar um risco de saúde acrescido"

Entrevista com Ana Jorge, presidente da Cruz Vermelha Portuguesa.

Planear e organizar a ajuda são verbos que a presidente da Cruz Vermelha Portuguesa repete com insistência, porque a solidariedade só é eficaz se for adequada às necessidades no terreno. O apoio psicossocial a crianças e mulheres que vão chegar é uma das prioridades, mas Ana Jorge alerta que haverá uma exigência de ajuda demorada no tempo. E que irá afetar também famílias portuguesas mais fragilizadas.

Numa semana, mais de um milhão de pessoas já saíram da Ucrânia. Esta será uma inevitável tragédia humanitária ou temos capacidade de resposta?

Felizmente, neste momento temos a União Europeia com uma unidade grande para poder organizar as respostas que são necessárias aos povos que estão em conflito. Esperamos que haja capacidade de dar aquilo que é mais essencial a todos os que estão a ficar desalojados. O problema não é só o imediato, esta fase aguda do conflito. Muitas famílias vão ficar desmembradas e já estão a sofrer esse processo, vão levar o seu tempo para refazer as suas vidas, vão precisar da ajuda de todos nós.

Tem referido esse aspeto, a necessidade de planear soluções que se vão prolongar no tempo. Não acredita num abrandamento da situação na Ucrânia?

Estamos todos à espera que os conflitos armados e os bombardeamentos terminem o mais rapidamente possível. Continuo a acreditar que haja uma solução e que a guerra acabe. Mas não podemos esquecer que ficou um país destruído e que as pessoas ficam desalojadas e têm de refazer as suas vidas. Isso leva tempo. Houve uma movimentação que é toda muito gratificante da população portuguesa, de donativos e de se mobilizarem, mas esta mobilização não pode terminar agora. Vamos precisar de algo contínuo. Estas pessoas, mesmo vindo e podendo ser integradas na sociedade portuguesa, vão durante algum tempo precisar de apoio. Por isso tento falar no planeamento. Não importa ajudar só agora, é preciso fazer reservas de capacidade de ajudar durante mais tempo.

A resposta solidária de tantas entidades, desde associações a autarquias, pode trazer dificuldades de articulação e até algum amadorismo face a um problema complexo?

Há um pouco... A Cruz Vermelha nacional, que faz parte de uma grande organização internacional, é a mais antiga organização humanitária, com grande experiência na intervenção em zonas de conflito. Têm-nos pedido e dado orientações muito claras daquilo que é preciso fazer agora. Estamos a fazer recolhas de fundos e não recolha de bens para enviar, quer para a Ucrânia quer para os países limítrofes.

Há alguma articulação a nível nacional entre entidades ou alguma liderança mais centralizada?

Penso que não há uma liderança centralizada. Ainda há dois ou três dias falava com a Isabel Jonet, do Banco Alimentar, sobre a necessidade de haver um entendimento entre as diferentes organizações para podermos conciliar esforços e não duplicar. É necessário complementar e não duplicar. Nem sempre é fácil. Apesar de sermos um país pequeno, é disperso. Temos sido muito claros sobre as orientações que temos tido do Comité Internacional e da Federação, porque a chegada massiva de bens coloca uma pressão muito grande a quem está em terreno de conflito. Precisa de uma logística muito grande, de organização, de receção e de distribuição de bens e isso nem sempre está a ser fácil.

É um erro, portanto, essa iniciativa muito espontânea de quem está a recolher e a enviar bens?

Não podemos dizer que é um erro porque as pessoas, muitas delas, estão a responder a pedidos muito concretos. Não podemos esquecer que temos uma comunidade de emigrantes ucranianos, que estão em Portugal e dispersos por todo o país, moldavos também. São eles, muitas vezes, que têm feito essa mobilização. Recebem pedidos muito concretos de determinadas organizações ucranianas, e que têm ligações a outros movimentos, como a Igreja, e ligações diretas nos países para onde vão. A Cruz Vermelha, enquanto movimento, não intervém a não ser no próprio país, a menos que haja um pedido quer no Comité quer na Federação. O nosso trabalho é fundamentalmente em território nacional. Por outro lado, a nossa colaboração é apoiar com parte financeira e eventualmente também com alguns bens, desde que nos peçam expressamente aquilo que é necessário. As nossas delegações, nas comunidades onde vivem, tentam esclarecer que se querem enviar bens para junto da fronteira ou mesmo para a Ucrânia, têm de o fazer organizadamente. Não podem mandar os bens sem ter garantido que há uma entidade lá que os recebe.

Entre os estados há algum tipo de organização para que não haja uma avalancha de ajuda que não é distribuída?

O facto de terem aberto os corredores humanitários pode ser uma ajuda para fazer chegar alguns dos bens a zonas em que o conflito é muito mais agudo. A informação que temos é que há muitos bens que já lá estão e os países limítrofes têm capacidade de fornecer esses mesmos meios. Estamos na Europa, não estamos em países em que não há recursos. Há recursos materiais, a necessidade dos bens financeiros será para fazer a aquisição no local, que acaba por ser mais rentável, com menos custos, menos transportes. As pessoas podem ajudar do ponto de vista financeiro e reservarem-se para, penso que a curto prazo, ter alguns refugiados que está previsto chegarem esta semana e na próxima.

Tem números específicos?

A Cruz Vermelha não tem dados oficiais. Sabemos através de outras organizações, até porque fomos contactados para a necessidade de transporte de refugiados que viriam a chegar. Sabíamos que chegariam estes dias à volta de 100 e que o problema já estava resolvido, com habitações para onde iam. Nesse caso, é importante saber onde chegam e para onde vão, para nós, enquanto Cruz Vermelha, se nos for pedido o transporte, podermos organizar com as nossas delegações. Também está presente uma equipa no centro de acolhimento em Lisboa, com equipamento que foi montado e que pertence à Cruz Vermelha, em colaboração com a Proteção Civil e a Câmara de Lisboa. Temos uma equipa em permanência a perceber as necessidades dos refugiados quando chegarem.

Como está a decorrer a campanha de angariação de donativos?

Nas doações de pessoas anónimas, recebemos em três dias perto de 200 mil euros. Temos alguma aproximação de empresas, que já manifestaram intenção de fazer donativos de montante significativo. Fui contactada também porque vai haver um concerto solidário no Centro Cultural de Belém. Haverá outro, eventualmente no auditório da Reitoria de Lisboa, portanto há aqui um envolvimento muito grande da sociedade alargada, não só das pessoas individuais, mas de outras organizações que se estão a movimentar para poder apoiar. Alguns têm definido que querem que parte, ou quase todo o valor, seja colocado a nível central, portanto Cruz Vermelha Internacional, para ser aplicado junto da zona do conflito, com apoio direto às pessoas que estão no terreno.

E em Portugal, quais as maiores necessidades?

Este apoio poderá ter duas maneiras. Uma, em bens, como é óbvio. Depois, criar emprego, e o Governo já deu sinais de que isso poderia ser facilitado nalgumas bolsas de emprego. Também temos necessidade de apoio psicossocial para estas famílias e crianças, principalmente mães e filhos, que vêm muito sozinhos e fugiram de um conflito grave, e ajudá-los a ultrapassar as dificuldades. Poderá ser necessário mobilizar voluntários ou haver alguma contratualização. Os fundos também servem para apoiar isso.

Vão chegar sobretudo mulheres e crianças, portanto não haverá alguma desarticulação entre as ofertas de emprego e as reais necessidades, nomeadamente da população infantil?

Neste momento, as ofertas de emprego foram mobilizadas pelo Governo. Não são da responsabilidade da Cruz Vermelha. Uma das preocupações, sim, com as crianças é muito na área do apoio psicossocial e da sua integração em escola. Neste momento, era importante que Portugal pensasse um pouco na integração destas crianças que vêm, mas também nas que estão cá. E que o acolhimento de refugiados, ou migrantes, deveria ser algo trabalhado no sentido dos direitos humanos, dos direitos das crianças.

E preocupa-a essa capacidade? Não teremos já experiência na receção de imigrantes?

Nós temos. Mas há algo que me alertaram e que me preocupou muito: nós temos imigrantes ucranianos, temos imigrantes russos e temos crianças russas nas escolas. E neste momento sofrem.

Está a sentir xenofobia?

Em algumas escolas alertaram para isso. Algum bullying sobre crianças russas. E estas crianças vivem em Portugal, são migrantes como os outros, e temos obrigação de cuidar de todos e de ter atenção para ajudar à integração global.

As escolas estão sensibilizadas para isso?

Não sei. Aproveitei esta oportunidade também para alertar. Que isto tem de ser pensado e as escolas poderão fazer um trabalho e têm capacidade para isso. Fazer um trabalho de mobilização e de pensar não só nas que já cá estão, como naquelas que vêm fugidas de uma guerra e que vêm traumatizadas. Não falam a língua portuguesa, é preciso o ensino de português.

Quando se refere a bullying, é por parte das crianças portuguesas?

Foi nesse sentido que me foi dado o alerta por uma delegação da Cruz Vermelha, que tem um trabalho feito nestas áreas de apoio psicossocial às escolas. E isto não é entre os ucranianos com os russos. No fundo, há sempre os "bons" e os "maus" e o que se transmite é isso. As crianças com oito ou dez anos se virem as reportagens conseguem perceber o que está a ser transmitido e isso terá de ser trabalhado.

Olhando para as diferentes crises humanitárias e de refugiados, que diferenças vê neste movimento?

É evidente que estes nossos migrantes, agora, têm uma diferença: são europeus. A Cruz Vermelha em Portugal tem, desde há muito tempo, trabalho com migrantes e com refugiados. Muitas vezes o que é difícil é integrar as famílias que chegam a Portugal no mercado de trabalho. Não tem havido uma onda de tanta movimentação e de adesão a um problema com migrantes de outros países, como agora com a Ucrânia. No entanto, acho que também temos de perceber o porquê. Estamos numa guerra na Europa. De qualquer maneira, era importante que tratássemos todos os migrantes em função das suas necessidades e não das suas origens.

A Cruz Vermelha está neste momento a participar em missões internacionais em países que fazem fronteira com a Ucrânia?

Pessoas lá? Não. Perguntamos e disponibilizamos, porque a Cruz Vermelha tem um setor de emergência grande com médicos, enfermeiros, socorristas e técnicos que se disponibilizam para poder ir se for caso disso. Ninguém sai do país, nestes casos, a não ser com um pedido bem definido para quê, articulado quer com o Comité, quer com a federação das sociedades nacionais. A Cruz Vermelha tem uma organização na qual temos de cumprir as regras para ser mais eficaz. Manifestamos a nossa disponibilidade, mas foi dito que não é o tempo ainda. Para sermos eficazes, tem de ser tudo planeado e organizado.

E há dificuldade em fazer chegar material de saúde?

Os corredores poderão ser uma forma de fazer chegar. Por outro lado, é preciso que os medicamentos estejam em ucraniano, não podem estar em português. Mandar medicamentos que não estejam traduzidos, que não tenham equivalência lá, não são reconhecidos nem pelos profissionais que não falem português, nem pelos utentes, pode causar um risco de saúde acrescido. As empresas farmacêuticas disponibilizaram apoio nas zonas onde está a decorrer o conflito, com todas as garantias de segurança.

Em caso de prolongamento do conflito e da degradação da situação económica, afetando inevitavelmente Portugal, a Cruz Vermelha está preparada para também da parte dos portugueses haver maiores necessidades?

As necessidades que existem neste momento, da nossa população fragilizada, mantêm-se e não diminuíram. O que tem acontecido é que temos menos capacidade de ajudar estas famílias porque os bens têm vindo a diminuir. Temos uma reserva para as nossas famílias e essa reserva está a preocupar-nos. Se houver uma situação em Portugal em que haja algum desequilíbrio do ponto de vista social, financeiro, com o aumento do custo de vida......

Terão dificuldade em acudir?

A Cruz Vermelha vai fazer tudo o possível e mobilizar. A Cruz Vermelha vive fundamentalmente de donativos e de parcerias com empresas. Não podemos diminuir o nosso trabalho e a nossa pressão e geri-los bem e de uma forma transparente. Mas estamos também preocupados com quem cá está.

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