Marcações digitais de secretárias e estacionamento marcam regresso tímido e rígido ao trabalho

Nem só de máscara e gel desinfetante vivem os locais de trabalho durante a pandemia. Algumas empresas resolveram inovar e, além do trabalho em espelho e da limitação de acesso a espaços, também implementaram regras de marcação online. Mas o regresso tem sido lento.

A cada dois passos, um alerta. As sinalizações nas paredes, a letras vermelhas, gritantes, expressam-se mais alto do que os parcos trabalhadores silenciosos. Lembranças sobre o novo coronavírus decoram a entrada, ornamentada também a garrafas de gel desinfetante. Lugares de destaque como a impressora, onde antes se juntava um reboliço de gente, são agora sinais de que a Ricoh, empresa de soluções informáticas, se blindou como pôde contra um possível intruso invisível.

As operações digitais transitam cada vez mais para as opções touchless: todos com os respetivos telemóveis podem comandar computadores e a impressão de documentos, bem como opções mais rigorosas - e constantemente recomendadas - de marcar a secretária a utilizar, o lugar de estacionamento e o horário de utilização do refeitório. "A Ricoh Desk Booking é uma aplicação que nós desenvolvemos, que comercializamos também, que permite que os colaboradores reservem o local de trabalho antes de chegar ao escritório, um espaço para a refeição e para o estacionamento. A empresa consegue gerir as entradas no edifício e as pessoas por andares e a monitorização de contactos no caso de possíveis contágios." Luís Lemos, que liderou a reforma no ambiente de trabalho, fez centrar a prevenção numa lógica de tecnologia, sem esquecer as tradicionais higienizações.

"Reforçámos os protocolos de limpeza da empresa, temos recipientes de desinfetante e de gel para limpar a secretária. Sinto-me seguro no ambiente de trabalho." De mais de 30 trabalhadores, apenas "dez... talvez mais, 13 ou 14 pessoas" voltam ao local de trabalho diariamente. "As instalações são enormes e temos imenso espaço", prossegue Luís Lemos, enquanto conversa com a TSF numa sala pronta para acomodar duas dezenas de pessoas, mas que agora recebe no máximo oito. A gestão do espaço é feita online, cada passo conta na monitorização de contactos entre colaboradores: "Não mudámos a planta do escritório, só reservamos as mesas para nos sentarmos. Se eu reservar uma mesa, um colega já não pode reservar a mesa da frente."

O business development manager Miguel Matias acredita que este será um sistema para durar e que assim se desenharão os moldes do trabalho no futuro. "Voltámos no início de setembro, e temos usado esta ferramenta para gerir o espaço e para garantirmos que, não só há um distanciamento, uma coordenação... É fácil dizer que uns vêm às terças e quintas e outros às segundas e quartas, mas os negócios não podem esperar por quarta."

A realidade imposta pela pandemia é "esquisita" para as empresas, comenta o business development manager. E mesmo que a Ricoh - que se dedica a acelerar a digitalização de outras empresas - tenha tido facilidade na implementação do trabalho remoto, a verdade é que nem uma empresa tecnológica dispensa o contacto entre as pessoas. "Para nós, o confinamento não teve impacto em termos de trabalho. Não houve nenhuma interrupção quando decidimos ir trabalhar para casa. Estava tudo pronto para que isso acontecesse há anos, porque já fazíamos regularmente, mas faz falta a relação pessoal, que é muito importante numa área comercial."

No espaço branco, amplo e aberto, há mais secretárias e cadeiras vazias do que preenchidas. O regresso presencial não é uma regra, mas uma janela de oportunidade a que se acena com muito cuidado."Temos os nossos horários tradicionais: das 08h30 às 12h30 e das 14h00 às 18h00, mas as pessoas gerem o seu horário de trabalho com uma política de responsabilidade e de flexibilidade", explica Luís Lemos.

Marisa Pinto, técnica de marketing e comunicação, corrobora: o retorno ao local de trabalho não é uma exigência, e muitos colegas têm demorado a voltar: "Muitos foram regressando gradualmente, devido às circunstâncias familiares, por terem filhos, por serem pertencentes a grupos de risco... Temos adotado um modelo misto, em que vimos ao escritório uns dias e noutros ficamos em casa."

"A dinâmica faz falta"

Na iad Portugal, rede de consultores imobiliários independentes, Carolina Sousa disse "presente" mal lhe foi colocada a hipótese de voltar aos escritórios da Maia. "Sou das primeiras voluntárias a voltar ao trabalho, até porque sinto falta do convívio com os colegas, ainda que sejamos poucos. A dinâmica num departamento criativo faz falta."

O trabalho remoto deixou marcas na responsável de marketing e comunicação, cujo regresso trouxe uma nova injeção de ânimo. "A experiência do confinamento foi muito complicada para mim. Eu e o meu marido estávamos em teletrabalho, com as duas crianças em casa, e foi traumatizante gerir tudo."

Conversar em equipa e ver nascer uma ideia em torno de uma caneca de café são memórias que motivam a saudade. "A equipa já começa a acusar saturação do teletrabalho. Sendo um departamento de marketing e comunicação, onde impera a criatividade e a dinâmica, já começa a haver um cansaço do teletrabalho. O regime alternado acaba por nos dar um bocadinho mais de energia."

Alfredo Valente, diretor da sucursal, diz ter sido "relativamente pacífico o regresso ao escritório, ainda que não estejam todos a trabalhar ao mesmo tempo ou todos fisicamente no escritório". Dos 20 colaboradores da sede - sem contar com os 500 consultores que trabalham no terreno - apenas sete "ou oito" têm marcado presença ao mesmo tempo."Como a ocupação do escritório é menor, circulamos muito menos, e, se nos juntávamos na máquina do café, agora só podem estar duas pessoas ao mesmo tempo na copa. Há uma barreira física à entrada. Na utilização de espaços mudou muita coisa."

O responsável da consultora imobiliária acredita na necessidade de fazer cumprir as recomendações em curso com o estado de contingência: uma parte do pessoal à distância e os restantes a operar no escritório, pelo que traçou um "plano de contingência muito exigente, com equipas a trabalhar em espelho, com circuitos de circulação". Quanto às visitas, para já ficam de fora, para que não transportem consigo uma presença incómoda e nociva. A TSF foi uma exceção, assinala Alfredo Valente, lembrando a importância de estar vigilante. "Não recebemos ninguém que não tenha previamente marcado uma vinda."

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