Médico deixou pinça em doente operado. Família indemnizada 25 anos depois

Um homem passou seis anos com uma pinça esquecida na zona da barriga, aquando de uma operação. O Estado português aceitou pagar 32.500 euros à família, 25 anos depois da sua morte, após a cirurgia de remoção no Hospital de São João.

O pai de António Silva deu entrada no Hospital de São João, no Porto, em 1988 para uma cirurgia em que lhe foi removido o rim esquerdo. O paciente de 63 anos recuperou como planeado, até dar conta de um mal-estar na zona do abdómen. O incómodo devia-se, como mais tarde foi comprovado, a uma pinça de Kelly, esquecida no interior do seu corpo aquando da operação. A família vai agora receber 32.500 euros de indemnização, mas o caso teve de passar pelo jugo do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

A história é contada pelo Jornal de Notícias esta sexta-feira. A publicação dá conta de que o homem morreu durante uma segunda cirurgia, realizada em 1994, para lhe ver extraída a pinça, que teve no interior do seu corpo durante seis anos. O paciente, à data com 69 anos, já se tinha dirigido por duas vezes aos serviços de urgência do Hospital Santo António, no Porto, dado o desconforto que sentia.

Só seis anos depois da primeira cirurgia essas dores motivaram um exame radiográfico à zona abdominal do pai de António Silva. No dia seguinte, o utente foi transferido de urgência para o hospital em que tinha ocorrido a primeira intervenção. No Hospital de São João, a cirurgia de remoção do objeto decorreu na presença do médico que, em 1988, se havia esquecido da pinça no interior do paciente. Mas não teve um final feliz: uma hemorragia forte levou à morte do utente.

Depois do óbito, António Silva e a mãe, viúva, avançaram com um processo judicial contra a instituição, o qual decorreu inicialmente a favor da família da vítima. Já no Supremo Tribunal Administrativo, o caso sofreu um volte-face, com o órgão de soberania a alegar não ter sido provado um nexo de causalidade entre os factos relatados. Os juízes conselheiros detetaram lacunas no processo, pelo que ordenaram a repetição do julgamento.

Chamado a testemunhar uma segunda vez, um dos médicos alterou a sua versão da história, com subsequente absolvição do profissional de saúde responsável pela falha. A família não desistiu e avançou com o processo em todas as instâncias nacionais possíveis, e, em 2016, o caso chegou ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, em Estrasburgo.

Os familiares do utente foram notificados de que iriam receber uma indemnização de 32.500 euros por parte do Estado português, valor que foi negociado entre António Silva e representantes do Estado, já que a mulher do utente morreu no decorrer deste processo. O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem não chegou a avaliar se houve de facto negligência médica, já que o acordo foi selado antes de a sentença ser conhecida.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de