Médicos precisam de mais tempo para falar com os doentes e receitar menos antidepressivos

Há hospitais que demoram meses a marcar consultas de psiquiatria. Consumo de antidepressivos continua a subir.

Um estudo sobre o estado da saúde mental em Portugal pede mais tempo para os médicos e psiquiatras falarem com os doentes em vez de receitarem, com demasiada frequência, medicamentos que pouco podem resolver.

O documento "Sem Mais Tempo a Perder - Saúde Mental em Portugal: um desafio para a próxima década", apresentado esta segunda-feira, é assinado pelo Conselho Nacional de Saúde com a participação de peritos de várias áreas profissionais do sector.

O documento revela, por exemplo, falta de psiquiatras no serviço público e que há vários hospitais que ultrapassam os tempos máximos de resposta previstos na lei para primeiras consultas consideradas muito prioritárias.

Esse tempo de espera máximo que devia ser de 30 dias é ultrapassado nos hospitais de Braga, Setúbal, Júlio de Matos, Santa Maria, Loures e Santarém, com o Hospital da Guarda a chegar a um recorde de 95 dias. Na área da Psiquiatria da Infância e da Adolescência a situação repete-se em vários hospitais, mas chega a ser por vezes ainda mais demorada. Há hospitais onde se demora sete e oito meses (Braga e Aveiro, respectivamente) a marcar uma primeira consulta com prioridade normal.

As diferenças regionais são igualmente grandes: no Algarve, há apenas um especialista em Psiquiatria da Infância e da Adolescência, número que sobe para dois no Alentejo.

Menos estigma, mais casos registados

Como refere à TSF Henrique Barros, presidente do Conselho Nacional de Saúde, as conclusões do relatório dizem que "dada a prevalência de problemas de saúde mental na população e o impacto a nível individual, familiar e socioeconómico, Portugal necessita com urgência de uma estratégia integrada para a promoção da saúde, ao longo da vida, temporalmente sustentada, abrangente e intersectorial, na qual se integre a saúde mental".

O estudo também revela que tem aumentado sucessivamente na última década a proporção de utentes dos centros de saúde com perturbações depressivas, de ansiedade ou demência.

Nas depressões, por exemplo, a prevalência, em 2018, ia dos 7,3% nos Açores aos mais de 13% nas regiões Centro e Alentejo dos doentes registados nos cuidados de saúde primários.

Henrique Barros explica que estamos, em parte, perante uma maior atenção e consciencialização para os problemas da saúde mental, doenças que aos poucos são menos estigmatizadas.

O relatório também revela ainda que o aumento do consumo de antidepressivos em Portugal continuou em 2018, sendo que, em 2017, o país já era o quinto da OCDE onde estes fármacos eram mais consumidos, "com mais do dobro da taxa registada em países como a Holanda, Itália ou Eslováquia".

Henrique Barros defende que essa medicalização em excesso nasce de uma tradição antiga, portuguesa, de dar sempre um medicamento ao doente cada vez que este vai a uma consulta, afirmando que é preciso encontrar uma organização que dê mais tempo aos médicos e outros profissionais de saúde nos contactos com os pacientes.

O documento afirma que as últimas estimativas apontam para que exista uma prevalência de 22,9% de perturbações psiquiátricas em Portugal, "colocando o país num preocupante segundo lugar" na Europa.
Nas conclusões e recomendações pode ler-se que "o Plano Nacional de Saúde Mental ainda não está plenamente implementado e o sistema de saúde ainda precisa de solucionar problemas sérios de acessibilidade e de equidade na prestação de cuidados de saúde mental", sendo "um dos grandes desafios do país em matéria de saúde para a próxima década".

Ministério da Saúde garante prazos cumpridos

Em comunicado, o ministério da Saúde garante que "cerca de 90% das primeiras consultas de Psiquiatria realizadas este ano no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN) respeitaram os prazos adequados".

A tutela explica que " a esmagadora maioria do total de 590 primeiras consultas de Psiquiatria" teve resposta dentro do prazo previsto e que "apenas cinco (0,8%)" das consultas "Muito Prioritárias" tiveram "um tempo médio de resposta acima dos 30 dias".

No mesmo documento, o ministério sublinha que os tempos de resposta estão "muito abaixo" dos máximos.

No comunicado lê-se que "19 consultas (3,2% do total) foram "Prioritárias", com um tempo médio de resposta de 53 dias, abaixo dos 60 dias de TMRG, e 566 (96%) foram "Normais", com um tempo médio de resposta muito abaixo dos 120 dias (62 dias). De 2018 para 2019 houve uma grande melhoria do desempenho global (85 para 62 dias em média), mas também nos casos "Prioritários" (82 para 53 dias)".

O ministério chefiado por Marta Temido garante ainda que o número de consultas realizadas em tempo adequado "aumentou de 75,9% para 89,5%" entre 2018 e 2019.

Notícia atualizada às 14h32 com a resposta do ministério da Saúde.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de