Na aldeia do Valado, os serranos arregaçaram as mangas depois dos incêndios

A 15 de outubro de 2017 deflagraram centenas de fogos na região centro, provocando 45 mortos e cerca de 70 feridos. Em Arganil morreram quatro pessoas e mais de 70 casas ficaram destruídas. Mas passados dois anos dos grandes fogos, as gentes da Serra do Açor puseram mãos à obra e reconstruíram as zonas mais afetadas com a ajuda do Fundo Recomeçar, gerido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Antes de chegar à aldeia de Valado, em Arganil, há um miradouro que mostra a dimensão da Serra do Açor. Dois anos depois dos grandes incêndios de outubro, a serra começa a reflorescer.

Chegando ao Valado, pode até parecer que está abandonada mas basta haver reboliço na aldeia que os filhos da terra começam a aparecer. "Muito boa tarde. São de Arganil ou são de Lisboa?", pergunta Fátima, que nasceu no Valado mas trabalhou em Lisboa. Agora, passa muito tempo na aldeia. É também o caso de Diamantino. "Aqui o Diamantino é o maior agricultor cá da terra. É, sim senhor."

Quem faz as apresentações é Albino Gomes, vice-presidente da Comissão de Melhoramentos de Valado. Conhece toda a gente da aldeia e arredores embora tenha saído do Valado com 13 anos para trabalhar. "Antes dos 13 anos eu já trabalhava aqui na floresta. Comecei por ganhar oito escudos e quando fui para Lisboa já ganhava doze escudos."

Apesar de ter feito vida em Lisboa, longe da aldeia, o apego à terra é grande mesmo depois de tanto tempo fora. "A gente fica com uma ligação a onde nascemos, a onde crescemos, que dificilmente se desliga."

Não é o único, garante. "Se fosse o único, também uma andorinha não faz a primavera. É com o apoio, com o resto da povoação, dos habitantes e dos que estão ausentes. Esta aldeia está desertificada mas não está em perigo de ficar uma aldeia fantasma."

Albino Gomes trabalha para que o Valado não fique sem gente. Pertence à Comissão de Melhoramentos de Valado há mais de 50 anos. "Esta aldeia - e todas as outras aqui em volta - não tinham nada de nada. Não tinham telefone, não tinham água, não tinham luz, não tinham ruas arranjadas, não tinham nada de nada. Hoje, felizmente, tem todas as condições para cá habitar. Todos os melhoramentos que estão aqui, colaborei para que eles cá estivessem."

Incêndios de 2017

Hoje a comissão empenha-se para conseguir melhores condições na aldeia, um trabalho que ganhou ainda mais importância depois dos fogos de outubro de 2017.

Albino Gomes estava em Lisboa e veio logo para o Valado, apesar do IP3 ter ficado cortado. "Como conheço a minha zona muito bem, viemos aos ziguezagues. Lá pelos montes e vales eu consegui passar. Cheguei aqui de manhã. Fiquei em sobressaltos para ver o que é que tinha acontecido à nossa querida aldeia."

Saíram de Lisboa às quatro da madrugada e chegaram ao Valado já de manhã. Com a luz do dia, puderam ver o resultado do incêndio. "Isto era uma escuridão, era uma tristeza. A gente parava aqui onde eu estou, olhava para esta paisagem fora e só se vi uma imagem: a escuridão, tudo negro."

O incêndio de outubro de 2017 fez quatro vítimas mortais em Arganil e destruiu cerca de 70 casas. Logo após o grande fogo, a aldeia do Valado arregaçou as mangas e começou a trabalhar na recuperação com a ajuda do Fundo Recomeçar.

"Ajudou-nos e deu-nos ânimo e força para a gente trabalhar e o resultado está à vista e vai aparecer mais tarde. Vai ser mais visível daqui a uns anitos. Mas está na terra. E foi isso que foi preciso: deitar a semente à terra para depois ela se tornar visível mais adiante."

Um fundo para recomeçar

O Fundo Recomeçar resultou da venda dos jogos da Santa Casa na semana do Natal em 2017. O presidente da Câmara de Arganil, Luís Paulo Costa, explica que o fundo surgiu como uma oportunidade para muita gente e foi bem aproveitado no concelho. "Houve um grande interesse manifestado pelos responsáveis destas instituições e nós próprios vimos também que era uma oportunidade", explicou Luís Paulo Costa, acrescentando que o município ofereceu suporte técnico às juntas de freguesias e às comissões de melhoramentos para a elaboração das candidaturas ao fundo.

"Felizmente, foi um processo que, para a situação do concelho de Arganil, correu francamente bem. Temos projetos - não só em número, mas também em qualidade - em que acreditamos muito", referiu.

O fundo apoiou 12 projetos no concelho de Arganil em várias áreas num total de quase 300 mil euros. Um desses projetos permitiu a reflorestação da zona envolvente do Valado e a compra de uma máquina de trabalhos florestais para a aldeia.

"Tínhamos necessidade da máquina precisamente porque a nossa aldeia fica num vale, numa linha de água, e todas as terras do cume da serra foram parar lá em baixo. Então fizemos a candidatura, demos a conhecer as nossas necessidades à Santa Casa. A Santa Casa disse que tinha pernas para andar", explicou Albino Gomes.

Um apoio que veio dar alento a quem quer recuperar a aldeia depois dos fogos de 2017. "Sentimo-nos muito tristes, mas agora também nos sentimos felizes de ver que a nossa paisagem está a tomar caminho e está a voltar ao que era antigamente. Isto já nos dá força e ânimo para a gente continuar a trabalhar."

Agora é esperar que o verde se volte a instalar na Serra do Açor, para que os filhos da terra possam regressar a casa e aproveitar a aldeia. "Temos gosto naquilo que é nosso. E isto é nosso. É o nosso torrão. Nascemos aqui, é disto que a gente gosta. Embora vamos ganhar o dinheiro para outro lado. O meu coração esteve sempre aqui."

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