Larissa Abbud
desigualdade de género

Na cozinha dentro de casa, mas sem holofotes. "Os investidores não estão dispostos a investir em mulheres"

A desigualdade encontrou-a logo aos primeiros passeios gastronómicos, numa tentativa de conquista numa infusão de cheiros e de imersão nos sabores de Lisboa. "Lembro-me de que, quando eu cheguei, eu fui ao Mercado da Ribeira, logo nos meus primeiros dias em Lisboa. Logo depois saiu [os resultados do concurso] a estrela Michelin. Todos os chefs eram homens e a única chef mulher que tinha ali era a Marlene [Vieira]. Ela era a única mulher e não tinha ganhado uma estrela Michelin."

O momento, recorda, em entrevista para o programa Botequim, foi "terrível" e fê-la indagar sobre a desvalorização da mulher na gastronomia. A igualdade de género tem sido uma busca constante na vida de Larissa Abbud, e a chef e empresária brasileira não há a dá por adquirida. "Fui criada num universo muito masculino." Descendente de sírios e libaneses, Larissa Abbud cresceu com a latente e muito presente tradição do patriarcado.

Foi em 2016 que viajou até Lisboa, para fazer um mestrado em Ciências Gastronómicas, e, apesar de todas as contrariedades, acabou por abrir um restaurante. "Comecei a dar-me conta de como era solitário todo esse processo de empreender, sobretudo num país diferente, em que não tinha as minhas relações, não tinha os meus amigos..." Larissa Abbud confessa mesmo que se sentiu sozinha, e a desigualdade só aumentou o fosso num setor competitivo, acima de tudo, para os vencidos. "Comecei a olhar para os grandes nomes da gastronomia em Portugal - não dizendo que isso seja uma questão exclusiva de Portugal, mas dizendo que era o contexto que encontrava naquele momento -, e os grandes nomes da gastronomia eram homens. Não havia mulheres, e, à minha volta, eu via muitas mulheres empreendedoras."

A chef de cozinha lamentou então o facto de as mulheres não serem muito valorizadas. "A mulher está na cozinha dentro de casa, mas, quando falamos dos nomes à frente dos restaurantes... Ainda temos muito para aprender..."

Larissa Abbud sentiu "necessidade de entender quem eram essas mulheres, para estar juntas, abraçar e apoiar, de alguma forma", rememora. Era importante para a chef brasileira "inspirar quem está dentro de casa e tem vontade de ter um negócio ligado à gastronomia" e "empoderar essas mulheres".

"Montar um negócio, montar um restaurante requer um grande investimento. Muitas vezes, a gente precisa de um parceiro ou de um sócio, para estruturar um negócio." Larissa Abbud lamenta que o apoio seja parco, na caminhada íngreme da mulher até ao topo da cadeia: "Muitos investidores não estão dispostos a investir em mulheres. Por isso é que não vemos assim tantos nomes, porque, para os vermos, precisamos de todo um trabalho de marketing, tem todo um trabalho por trás. Não existe investimento no trabalho de mulheres, não existe essa valorização."

Foi a pulso que, aos 24 anos, fundou o Festa na Cozinha, o seu primeiro negócio, ainda no Brasil. Depois, desenvolveu um projeto de gastronomia itinerante que se tornou um grande sucesso no Rio de Janeiro. É como uma lutadora que Larissa Abbud se define, sem hesitar. "Eu trilhei uma carreira muito empreendedora", garante.

"As mulheres sofrem muito assédio e preconceito"

Jornalista formada e especialista em catering e realização de eventos, como se define, Larissa Abbud reconhece ter tido dificuldade em adaptar-se à vida diária de um restaurante. "O que também acontece dentro de uma cozinha profissional é o assédio moral. As mulheres sofrem muito assédio e sofrem muito preconceito também, porque trabalhar com cozinha é um trabalho muito árduo, no sentido físico mesmo." Muitas horas passadas em pé, levantamento de mercadorias de peso fustigante, movimento e destreza constantes ditam, por vezes, o cansaço. Larissa Abbud rejeita, no entanto, os estereótipos: "'A mulher é o sexo frágil, não vai pegar nisso, não vai pegar naquilo.' Só que não, sabe? São mulheres súper fortes, e a gente tem capacidade de fazer tudo isso. A gente não é frágil, pelo contrário. Nós somos súper fortes."

Sofreu assédio dentro da cozinha do restaurante que montou e liderava. "Já ouvi muita piadinha de homem, e de outras mulheres também, porque esse machismo não existe só dos homens para com as mulheres. Existe também de mulheres para com mulheres, e isso é muito triste."

Em Portugal, o peso da desigualdade revelou-se especialmente difícil de carregar. Apesar dos pequenos passos que têm sido dados, há muito ainda por percorrer, e cada mulher vai desbravando o caminho para a passagem da próxima. "Há o mérito dos homens e das mulheres, obviamente, mas acho que as mulheres têm um olhar muito amplo em relação às coisas. Elas são muito mais observadoras, e têm uma vivência muito diferente dos homens. Conseguimos ver isso na comida." A delicadeza, a exploração de novos sabores e das misturas são também conquistas femininas, mas sem holofotes. "É importante valorizar, porque também representa muita coisa na hora de comer uma comida diferente", argumenta Larissa Abbud. "Não é que as mulheres não cozinhem bem", sustenta.

"A mulher tem muito a questão das histórias, porque muitas vezes foram outras mulheres que ensinaram a gente a cozinhar." Para a chef, é inegável a existência de uma memória afetiva que nem sempre os homens são capazes de imprimir na gastronomia. "Não é por ser uma mulher que tem de dar uma estrela Michelin, mas vamos valorizar também as mulheres", exorta a empresária, lembrando sempre o impacto dos primeiros momentos vividos em Portugal.

Em Cozinha de Segunda, o podcast que criou e que "vai ao ar todas as segundas", Larissa Abbud reflete sobre o papel ainda subalterno das mulheres na gastronomia. "Para começar, a segunda-feira, originalmente no Brasil, é o dia de descanso da cozinha, é o dia em que ninguém trabalha." O dia de folga é o dia de conversar, de marcar encontros, de acertar o passo aos assuntos pendentes. "Depois, é um trocadilho meio tosco realmente... De ser de segunda mesmo, de segunda qualidade, quando na verdade não é."

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