"Não basta dar subsídios." Pobreza em Portugal é "consentida pela política"

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza defende um trabalho de perto com as pessoas em situação de pobreza, para combater este fenómeno.

Mais do que apostar em subsídios, o presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, Agostinho Jardim Moreira, defende que é preciso pensar no combate à pobreza juntamente com as pessoas com menos rendimentos. Para Jardim Moreira, combater a pobreza estrutural passa por apostar na habitação, saúde e cultura.

Esta segunda-feira, foi conhecido o estudo "Pobreza em Portugal -- Trajetos e Quotidianos", promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e coordenado por Fernando Diogo, professor de Sociologia na Universidade dos Açores. A investigação conclui que um quinto da população portuguesa é pobre e que a maior parte das pessoas em situação de pobreza trabalha, muitas delas com contratos efetivos.

O estudo identificou "quatro perfis de pobreza em Portugal, que são uma novidade: os reformados (27,5%), os precários (26,6%), os desempregados (13%) e os trabalhadores (32,9%)".

Ouvido pela TSF, Agostinho Jardim Moreira afirma ser "fundamental" que "as próprias pessoas em situação de pobreza sejam ouvidas, que sejam elas próprias participantes no seu processo".

"Já se viu que não dá resultado dar apenas dinheiro e subsídios às pessoas e deixá-las abandonadas. É preciso acompanhá-las de perto para que sejam apoiadas de forma a que consigam acreditar que são capazes de viver e de intervir na vida social na sua autodeterminação e na sua autonomia económica", argumenta.

"É preciso que as pessoas tenham condições de vida. É preciso que lhe seja possibilitada uma digna habitação, acesso a serviços de saúde de qualidade e à cultura", defende.

Jardim Moreira refere mesmo que, se nada for feito, a pobreza estrutural revela-se um perigo para a democracia.

"É uma democracia que se alheia de 2 milhões de portugueses. Há alguma coisa de injusto, alguma coisa de contraditório nos termos. Os portugueses não são todos iguais, há aqui uma injustiça estrutural, uma injustiça assumida, aceite e escamoteada, que é destruidora da democracia que queremos construir e que devemos ter", alega.

O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza considera, por isso, que as autoridades e o poder político têm de fazer mais para combater a pobreza em Portugal.

"As políticas sociais nacionais não são suficientes nem atingem as causas da pobreza, porque ela é multidimensional. Ela é consentida pela política nacional, que aceita esta estrutura que vai mantendo os pobres na pobreza", critica.

Também em declarações à TSF, Susana Reis, diretora do Centro Porta Amiga de Vila Nova de Gaia, da AMI, confirma o perfil das pessoas em situação de pobreza.

"Temos uma procura por parte de várias famílias em situação de carência, onde, realmente, é manifesta a situação de desemprego, ou, mesmo mantendo algum vínculo laboral, esses vínculos são de caráter mais precário ou com rendimentos muito baixos, que não permitem fazer face às despesas diárias", adianta.

A AMI tem registado um aumento de novos casos de pobreza de famílias que estavam estabilizadas, mas que, devido à pandemia, estão a procurar apoios sociais pela primeira vez.

"Estamos a ter os primeiros indicadores desta tendência de aumento [da pobreza] fruto desta crise proveniente da pandemia. Mas, no fenómeno da pobreza, o grande impacto não é no imediato, pode dar-se daqui a alguns meses ou até nos próximos anos", comenta.

Susana Reis não tem dúvidas de que a pobreza geracional é uma realidade no país, mas explica como pode ser atenuada.

"É muito complicado quebrarmos o ciclo, mas a ideia é mesmo fazermos um trabalho muito pedagógico e tentarmos socorrer-nos de políticas sociais apropriadas, para que estas situações possam ter outro tipo de fim", frisa.

Já a presidente da Caritas, Rita Valadas, pede que estes números sejam olhados pelos decisores políticos na estratégia nacional de combate à pobreza.

"Analisando o contexto e a situação das pessoas, temos várias pobrezas diferentes. Não é igual estar num meio rural ou num meio urbano,... A questão dos contextos é o mais importante no momento de criar uma estratégia", aponta.

Rita Valadas defende, por exemplo, que as regras do Rendimento Social de Inserção (RSI) devem ser repensadas.

"Resolver os problemas da pobreza tem de passar por repensar estratégias que já temos. O Rendimento Social de Inserção tem um conjunto de critérios que trata todos da mesma maneira, não tem a especificidade do contexto", indica.

A taxa de pobreza corresponde à percentagem de indivíduos com rendimento inferior a 60% do rendimento mediano observado no país num determinado ano e situava-se, em 2018, nos 501,2 euros mensais.

Notícia atualizada às 12h47

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de