Não ver o corpo e não ir ao funeral. "Puseram o luto em pausa"

Terapeutas acreditam que a experiência do luto está a ser afetada pela pandemia e que muitos portugueses só iniciarão o processo depois de a crise sanitária ser debelada, sob prejuízo para a saúde mental.

Não ver o corpo, não assistir ao velório e não ir ao funeral são limitações que tornam ainda mais difícil a relação com a morte. Cristina Felizardo, terapeuta do luto, analisa que a pandemia veio pôr em causa os rituais que ajudam a enfrentar a dor. "O velório, antes da cerimónia propriamente dita, em que vêm os familiares mais chegados e amigos mais chegados... Tudo isso ajuda a pessoa a oficializar que aquela pessoa já não está cá entre nós. Está a ser tudo posto em casa. Neste momento, tal não é possível."

A "componente afetiva" e a "necessidade de começar o desapego" são dificultadas, explica a terapeuta. "Ver para crer" é necessário ao processo, e, sem despedida, surge, muitas vezes, a negação, que pode levar ao luto patológico.

Cristina Felizardo descreve um caso "de um senhor que perdeu a avó, logo no início da pandemia, num lar em Braga, e uma das coisas que ele dizia era 'quem é que me garante que a pessoa que está no caixão é a minha avó? Eu não a vi!'"

A terapeuta do luto não tem dúvidas de que a pandemia deixará marcas na saúde mental dos portugueses. "Quando estamos a falar de um corte radical ao nível das estratégias de cultura, dos hábitos, de toda uma estratégia que nós tínhamos organizado de forma mental para nos podermos despedir de forma pacífica ou apaziguante daquela pessoa. Foi-nos retirado de um dia para o outro. Isso origina o tal trauma, e há uma condição no processo de luto que pode potenciar o aparecimento de doença mental, como uma depressão ou um esgotamento."

Cristina Felizardo também admite que a crise sanitária veio aumentar a procura por terapia, mas sublinha que muitos processos de luto ainda nem começaram. "Puseram o luto em pausa, porque ainda necessitam de estar tão alerta, tão vigilante pelos que cá estão, porque o perigo ainda os rodeia de tal maneira que eles ainda não puderam baixar as armas. Então, muitas vezes o que eles procuram é ajuda para gerir estas ansiedades, não sobre a dor de quem partiu, mas pelo anseio por quem ainda está cá, e que tem fragilidades, e a quem também pode acontecer", evidencia a terapeuta.

Além do luto por morte, há outras perdas associadas à pandemia que devem ser trabalhadas, tais como a perda do emprego e o afastamento de familiares e amigos.

Só nos últimos meses morreram em Portugal mais de quatro mil pessoas por Covid-19 em território português. Apesar dos números, a Associação de Apoio à Pessoa em Luto (Apelo) não registou um aumento na procura.

José Eduardo Rebelo, professor na Universidade de Aveiro e presidente da associação, acredita que os números só deverão subir depois de pandemia acalmar. A busca pelo apoio durante o luto está a ser adiada. "As pessoas estão muito preocupadas com a sua própria sobrevivência. Apesar de se encontrarem em luto pela perda de entes queridos, a morte do outro significa um alerta relativamente ao risco pessoal."

José Eduardo Rebelo é também vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Estudo e Intervenção no Luto. Nos últimos anos, a instituição tem dado formação a vários profissionais que trabalham estes temas, em espaços como lares e centros de dia. São os chamados conselheiros do luto."Temos psicólogos, temos assistentes sociais, por exemplo. São extremamente importantes nos centros de dia e nos lares."

O investigador caracteriza como "muito vasto o conjunto de pessoas e de formações académicas que procuram para obter esta pós-graduação muito específica no apoio ao luto".

José Eduardo Rebelo refere que o luto é ainda um tema tabu na sociedade portuguesa, e defende que este é um problema de saúde pública, pelo que Portugal tem ainda um longo caminho a percorrer nesta área.

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