"No Porto há arraiais. Porque é que em Lisboa não há? Pelo menos pôr aqui uns fogareiros"

Os comerciantes e moradores de Alfama não escondem a revolta com a decisão da autarquia de não permitir a realização de arraiais de Santo António e defendem que se podia fazer uma festa mais contida e controlada.

A esplanada do restaurante Porta de Alfama, na Travessa do Chafariz d"El Rei abre caminho ao descontentamento de um bairro inteiro. A notícia de que este ano ainda não vai haver arraiais em Lisboa caiu mal.

"Só aqui é não se pode fazer arraiais. Porquê?", dispara Luís Conceição. Para este morador do bairro não há coerência nas decisões. "No Porto há arraiais e porque é que aqui não há? O Caixa, há o Caixa Alfama, a festa do Avante há, não há problema nenhum, o jogo dos ingleses também houve, o jogo do Sporting também houve, não houve Covid nenhum. Porque é que não pode haver aqui arraiais, que é uma coisa de há 50 anos para cá?"

Julieta Morais, empregada do restaurante, junta-se à conversa para defender que é preciso aprender com os erros e fazer as coisas com mais cautela. "Nós não vamos querer repetir o mesmo erro do Sporting e eu sou do Sporting. Eu sei que é difícil haver aqui controlo para fazer o Santo António, mas pelo menos poder pôr-se uns fogareiros, uma coisa mínima", defende.

A mesma opinião tem a proprietária do restaurante. Tininha de Alfama, assim é conhecida Argentina Guimarães, conta que há casos piores, restaurantes sem esplanadas e os santos costumam dar uma ajuda no negócio. Este ano, pelo menos que se deixasse os restaurantes funcionarem até mais tarde e se desse espaço para que pudessem ocupar o espaço público num arraial controlado.

Com as regras impostas pelo estado de calamidade, os cafés e restaurantes estão obrigados a fechar às 22h30, mas Tininha não entende a lógica. "Fechar às dez e meia, qual é a lógica? O vírus só ataca depois das onze?", questiona lamentando que a restauração que sempre cumpriu as regras volte a ser penalizada. "Deixem-nos trabalhar com as devidas precauções", pede.

A revolta dos comerciantes estende-se aos moradores habituados à festa. Carmem Paiva, 85 anos, caminha vagarosa e também ela triste e revoltada: "Acho que está mal!" Carmem não entende como é que que foi possível os ingleses festejarem no Porto e agora Alfama não pode ter arraiais.

"Se pode haver outras coisas, também podia haver arraiais, não tantos, podiam fazer intermédios", defende. Carmem Paiva está triste e o bairro reflete a tristeza de quem lá vive.

Não há bandeiras, nem balões de Santo António, nem fogareiros nas ruas. A decoração ficou mais uma vez por fazer e, por agora, restam a Carmem as memórias de outros tempos. "Eu ainda sou do tempo em que punham uma passadeira toda vermelha com vasos de manjerico por ali abaixo e um Santo António cá em baixo e com um 'coiso' com água para pôr uma moeda."

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