"Noção de decência tinha em José Cutileiro uma dimensão divina"

O estratega, o intelectual e o diplomata, as diferentes facetas de José Cutileiro foram esta quarta-feira abordadas numa conferência do Instituto de Defesa Nacional (IDN).

José Cutileiro foi um embaixador que era "um diplomata atípico" como sublinhou o Ministro da Defesa Nacional (MDN), João Gomes Cravinho. Para ele, Cutileiro foi um "cosmopolita burguês".

Helena Carreiras do IDN fez a moderação do primeiro painel dedicado ao estratega revelando que "uma das coisas mais fascinantes na vida e trajetória de José Cutileiro foi a diversidade de mundos em que ele viveu. De Portugal ao Afeganistão, da ditadura à democracia, da Antropologia à diplomacia, da análise política à poesia. Em que medida estas visões marcaram a sua visão como estratega?" pergunta Helena Carreiras a João Gomes Cravinho.

O MDN responde que "a capacidade de José Cutileiro de tratar por igual pessoas do mais variado tipo é indicador da sua capacidade de compreender o que motiva e interessa às pessoas e trabalhar com essa matéria-prima é fundamental para um estratega".

A diretora do IDN aproveita a participação do público através da internet nesta conferência online para lançar uma pergunta de Tiago Barros sobre a "influência da visão antropológica de José Cutileiro no plano das relações internacionais, em particular no contexto da política interna europeia. De que forma o contexto histórico e social das nações coloca entraves relevantes no progresso da integração europeia?"

Ana Santos Pinto, investigadora em Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, responde que "o senhor embaixador tem a capacidade de fazer o "zoom out". Aqui eu relacionava com a sua formação antropológica e como ser humano que desde muito cedo teve uma visão de mundo. Em jovem passou de Évora a Genebra, passando pelo Afeganistão por razões familiares. Eu acho que isso constrói um ser humano muito mais amplo e pluralista".

Mas aquilo que Ana Santos Pinto salienta mais "é a forma clara como o senhor embaixador passava a mensagem que era entendível para qualquer nível de instrução com um enorme sentido de humor e uma ironia muito fina. O contributo disto para o planeamento estratégico é que temos que ter uma visão pragmática aliada de uma visão inter-relacionada. Não ver as diferentes espécies de árvores mas observar a floresta", sublinha.

Por outro lado, no painel sobre o intelectual, a amiga e diretora regional da cultura do Alentejo, Ana Amendoeira, destaca o trabalho de investigação social de José Cutileiro na monografia "Ricos e Pobres no Alentejo".

Ana Amendoeira adianta que José Cutilieiro foi "um Antropólogo que pertencia à tribo que ele próprio foi estudar abordando uma relação próxima e critica com as populações". O trabalho foi feito nos anos 60 do século XX e publicado em língua inglesa.

Só depois do 25 de abril, em 1977, se publica a monografia em português com "um Posfácio que causou estrondo nas terras de Reguengos" lembra Ana Amendoeira.

Esta vertente de cientista social de José Cutileiro é também relevante para o Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), Augusto Santos Silva, que abriu o painel sobre José Cutileiro, o diplomata.

O MNE adianta que antes de ser diplomata "José Cutileiro foi um cientista social e depois como publicista, na sua colaboração regular com um semanário, sempre vi em José Cutileiro as marcas da sua formação cientifica em Antropologia e da sua cultura humanística formadas num um universo profissional em que era preciso sair do contexto do salazarismo português para se ser cosmopolita e moderno".

De acordo com Augusto Santos Silva, José Cutileiro teve um "papel muito importante para a mudança estratégica da política externa portuguesa no pós 25 de abril sabendo aproveitar as linhas de continuidade" do pessoal da carreira diplomática.

Neste sentido, o amigo e colega Álvaro Mendonça e Moura afirma que "o entendimento que José Cutileiro tinha do mundo e a forma como sintetizava as relações internacionais, por exemplo quando dizia da Coreia do Norte que era um "empreendimento criminoso hereditário" faziam dele uma personalidade superior que sabia olhar para as fraquezas do ocidente".

O embaixador Álvaro Mendonça Mendes defende que "decência era uma expressão que José Cutileiro usava muitas vezes para se referir ao estado de direito, aos direitos do homem, às liberdades e à noção de solidariedade. Esta noção de decência tinha em José Cutileiro uma dimensão divina", conclui.

Esta homenagem do IDN ao embaixador José Cutileiro, que morreu há um mês, teve a colaboração do Instituto Diplomático e da TSF.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de