"Nunca releio uma crónica que fiz." Frei Bento Domingues celebra 30 anos de crónicas

Em entrevista à TSF, o frade dominicano recorda os tempos da ditadura e as idas à sede da PIDE, bem como as lutas pela liberdade. Considera que todos os temas podem ser alvos de uma crónica, o importante, diz, é "ajudarem as pessoas".

Três décadas de crónicas escritas para o jornal Público, com cerca de 1400 textos. O colunista mais antigo da publicação confessa que nunca relê uma crónica que escreve", com o argumento de que "parece que é comer, comida, comida". O frade dominicano revela, em entrevista à TSF, que o grande desafio de escrever crónicas, "é de falar na defesa dos mais fracos, das mulheres". "Tenho batalhado imenso sobre esse tema, mas também no dia-a-dia das pessoas", acrescenta.

"Eu tenho de ser responsável no que escrevo. Informo-me sempre. Estudo. As crónicas levam bastante tempo, não por causa da escrita, mas pela informação que tenho de reler. Toda a vida cultural", afirma.

O Frei Bento Domingues revela que o que "lhe interessa mais" é fazer crónicas que ajudem as pessoas no dia a dia. Questionado sobre truques e onde vai buscar a inspiração para a escrita, o frade dominicano apenas diz que não pode "viver sem o jornal diário" e que "não há temas tabu, apenas a vida das pessoas".

Nasceu em Terras de Bouro, no distrito de Braga, quando a ditadura ainda era uma realidade em Portugal. O frade dominicano está no Convento de São Domingos, em Lisboa, há 20 anos e foi por causa de um padre, que quis seguir o caminho da religião. Para aprofundar a relação com Deus, optou por estudar teologia em várias cidades da Europa. "Passei por Salamanca, Roma, Toulouse, Paris e ainda vários locais da Alemanha", afirma.

Regressou depois a Portugal para "fazer um trabalho na Juventude do Cristo Rei, no Convento dos Dominicanos, no Porto". Em frente do edifício, como conta o Frei, morava o antigo primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro, com quem "fez amizade". O frade Bento Domingues recorda que o "trabalho que fez foi de tal forma inquietante" que mereceu uma visita por parte da PIDE. "Prenderam um conjunto de jovens numa manifestação, mas enganaram-se, porque prenderam os jovens da direita", conta entre risos.

Por causa do episódio, o Frei Bento Domingues foi obrigado a deixar o Porto e o país que o viu nascer. Roma foi a cidade escolhida. Mas estar longe de Portugal não foi algo propriamente negativo: "foi uma graça enorme, porque [nesta cidade], era já o Concílio a funcionar, tomei contacto, não só os teólogos que já conhecia, como também um novo começo na Igreja, porque João XXIII era uma figura absolutamente espantosa".

Regressou depois a Portugal e "de barco", mas nem por isso a PIDE o deixou em paz. Foi obrigado a ir à sede da polícia política, na Rua António Maria Cardoso, ter um "longo interrogatório". Tudo porque, numa homília para crianças, em Caxias, ao substituir um padre, lembrou-se de dizer, citando um texto do profeta Isaías: "devem-se transformar os instrumentos de Guerra em Paz". Frase proferida numa altura em que Portugal estava mergulhado na Guerra Colonial. Mas o frei não se ficou por aqui: "agora vem aí o Natal, vocês não aceitem presentes que tenham a ver com a Guerra", atirou em direção às crianças.

"A separação entre a igreja e o estado é uma maravilha"

A ousadia encaminhou-o até à sede da PIDE. Lá, pediram-lhe que assinasse um texto, no qual confessava ser contra a Guerra Colonial. "Eu disse, não assino isto, e um [agente] da PIDE disse-me, pegando numa cadeira - 'eu parto-lhe esta cadeira na cabeça' -, e eu respondi - 'Tenha respeito pela cadeira'".

Ações como estas, serviam para o Frei procurar respostas à pergunta, que enunciava: "o que pode a Igreja fazer pela liberdade?". "Era o Império do Medo, trabalhava na democratização do país na clandestinidade. Trabalhei no Direito à Informação e na Comissão Nacional de Socorro aos presos políticos e em várias formas de intervenção", recorda.

Já confessou, em anteriores entrevistas, que um dos maiores desgostos foi vivenciar o 25 de abril à distância. "Foi uma explosão da liberdade", recorda, ainda assim. Foi, por essa altura, que na Igreja se desenvolveram muitos movimentos de libertação, numa altura "em que pendia sobre [ela] uma forte ligação ao regime". O frade dominicano acabou, depois, por se fixar em Portugal nos anos 70.

Num olhar sobre a realidade, o Frei Bento Domingues vinca que o Papa Francisco está a tentar fazer "uma reforma na Cúria romana" e que, apesar da idade e dos entraves "da indústria conserveira", que o "gostava de ver morto", está confiante de que vá conseguir fazer essa remodelação na Igreja Católica. "As pessoas ficaram espantadas quando chegou ao Vaticano. Eu creio que o próprio Papa ficou espantado ao começarem a revelar os números dos abusos sexuais. Ele teve uma posição de tolerância zero", relembra.

Questionado sobre se a separação entre o Estado e Igreja contribuiu para uma menor preponderância da religiosidade na sociedade, o Frei, retorque: "foi uma maravilha, porque assim a Igreja tem de trabalhar a partir dos seus próprios recursos. Não é o divórcio com a população, é um casamento novo. A Igreja, desta forma, não terá privilégios na sociedade".

O Frei Bento Domingues antecipa que a Igreja no futuro "vai ser, talvez, muito mais pequena (...), mas uma Igreja mais atenta". Poderá ser, segundo o frade, um "despertador" com a pergunta: "Como poderei ser mais competente para servir melhor?".

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