O contrabandista que até deixou o café depois da revolução dos cravos

A vida de um contrabandista conheceu mudanças entre o antes e o depois de Abril de 74. Se em tempos de ditadura as autoridades exibiam mão mais pesada, a democracia trouxe maior tolerância. E até abriu novas e mais rentáveis oportunidades para lá do tradicional transporte de café.

Carlos Mendes, 72 anos, sorri quando olha para trás e recorda como deitou mãos ao contrabando ainda menino. "Tinha sete anos quando comecei esta profissão e cruzei a fronteira entre Portugal e Espanha", conta à TSF.

Todos os dias comprava cinco quilos de café para levar numa longa caminhada entre Campo Maior e Badajoz. Cerca de 20 quilómetros a pé eram, afinal, o preço a pagar para garantir comer na mesa em tempos em que a fome apertava.

"Era uma época muito dura, com muita gente pobre", diz, justificando que o contrabando de café era uma alternativa para quem pouco ou nada tinha. "Lembro-me do contrabandista ser intitulado de vadio, marginal, navalhista. Era tudo mito", assegura, reportando-se aos anos 50 de "chapa ganha, chapa gasta" que nortearam a sua vida.

Seria assim até ao dia do casamento, já no final da década de 60, quando o contrabando ainda foi complemento ao trabalho na fábrica da ameixa. "À noite ia fazer aqueles serões, acarretando café até às 5 ou 6 da manhã. Mal dormia, porque às 9 entrava na fábrica", relata Carlos Mendes.

E quanto ao risco que o acompanhou durante o transporte de café entre ambos os lados da raia? "Antes de abril de 74 havia menos tolerância. Era um bocado mais perigoso e, às vezes, com a carga a meio de fazer tínhamos que fugir, porque se não havia foguetes."

Já depois de Abril algo mudou. "Começou a haver maior tolerância da Guarda Fiscal. Viam que estava alguém a descarregar o café e eles iam por outro caminho. Avisavam-nos para não contarmos a ninguém que os tínhamos visto. Era para não os comprometer", relembra, enquanto, já próximos dos anos 80, atinge um período de novas oportunidades para contrabandistas mais experientes.

Ao ponto do contrabando do café passar à história, quando começou a ser contactado por "senhores de Lisboa" que iam a Ceuta comprar panos de seda, casacos de cabedal e camurça. "Por conhecimentos de alguém, indicaram-me a mim e eu ia a Badajoz apanhar as coisas e entregava na casa deles." O pagamento era no ato da entrega. "Já se vivia muito melhor", resume.

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