"O dinheiro da Igreja é feito de tostões"

Na entrevista TSF-JN, o arcebispo de Braga admite que a pandemia vai obrigar a uma "renovação" e nota que há "pobreza envergonhada". D. Jorge Ortiga espera que o mundo "tenha acordado" para o drama em Moçambique.

Tomou posse como bispo de Braga em 1999 e, nas duas décadas que já leva de missão, foi também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. D. Jorge Ortiga insiste na urgência de uma cultura de cuidado em resposta ao sofrimento, considera a eutanásia um problema cultural e não religioso e fala dos desafios de renovação que a pandemia trouxe à Igreja.

A igreja celebra a segunda Páscoa em confinamento, embora este ano seja possível realizar celebrações. O que se perde em termos de religiosidade, no momento mais importante da vida dos católicos?

Infelizmente, continuamos a celebrar a nossa Páscoa com todas as restrições que o confinamento nos impõe. Fazemo-lo não voluntariamente, mas responsavelmente, no sentido de não sermos fator de propagação do vírus. Antes pelo contrário, responsabilizarmo-nos para que esse mesmo vírus não nos perturbe e nos deixe um pouco mais livres para celebrar a beleza da vida. De facto, é o segundo ano. Mas, nestas restrições, penso que temos que viver a Semana Santa e a Páscoa em estado puro. O que é que entendo por isto? A Páscoa é esta celebração do que aconteceu há dois mil anos com a paixão e a morte de Jesus Cristo, um acontecimento não revestido de grandes exterioridades mas de um significado profundo. E hoje importa que regressemos precisamente aí também. Da minha parte, irei, particularmente, concentrar-me na mensagem a comunicar.

Uma mensagem de esperança num tempo de medo?

Sem dúvida nenhuma. A paixão de Jesus Cristo continua hoje. Sinto-me desafiado a falar de uma humanidade ferida. Hoje, estamos perante uma humanidade ferida.

Estamos mais no espírito da Sexta-Feira Santa e menos no de Domingo de Páscoa? Na forma como se perdeu alguma pastoral juvenil e manifestações de alegria que eram importantes para a Igreja?

Eu creio que a Igreja universal, e nomeadamente a Igreja em Braga, com a celebração da Semana Santa, tem que dar uma outra importância ao Domingo de Páscoa. A celebração da Páscoa deve ser um convite à esperança e à alegria. Nesta hora de um certo temor, de um certo desalento, de um certo cansaço, de muito desânimo, de muita solidão, nós temos que dizer bem alto que não podemos ter medo. Não podemos ter medo do futuro, sabendo que ele nos lança variadíssimos desafios.

Mesmo o futuro da Igreja? Sabemos que há católicos que estão há um ano sem participar em celebrações. Receia esses estragos que a pandemia tenha causado?

Creio que será inevitável, porque a Igreja tem o número de cristãos que tem. Uns que são praticantes, praticantes conscientes, e outros que são quase praticantes ocasionais. Aqueles que têm uma fé morna, tímida, se tiveram um problema, são capazes de desistir. E a Igreja vai ter de fazer um grande esforço para, de novo, chegar a essas pessoas. Acredito que toda a história da pandemia nos vai obrigar a uma certa renovação. A dar ao cristianismo um outro sentido de responsabilidade na construção do mundo. E com certeza que vamos reconhecer que Cristo, hoje, ainda tem alguma coisa a dizer a este homem ou mulher atarefado nas suas preocupações, perdido em tantas ilusões, em tantos sonhos. Este é o grande desafio que a Igreja Católica tem a dizer neste momento.

Em novembro último, disse que "o passado não voltará. Nada ficará na mesma, também na Igreja". Qual é verdadeiramente o alcance desta sua espécie de sentença?

Costumo dizer que nós não podemos caminhar sem termos os pés na história. Uma árvore não cresce sem raízes. Só que, efetivamente, temos de reconhecer que o Cristianismo, ao longo dos séculos, foi acumulando determinadas realidades que são secundárias, que serviram para expressar a fé numa época e numa circunstância. E que hoje talvez já não tenham esse valor.

Está a falar dos símbolos, dos rituais?

Muita coisa, muita coisa. Sou padre desde 1967 e os meus estudos foram realizados no tempo do Concílio Vaticano II. Nessa altura, aspirava-se a uma grande reforma. Da minha parte, queria uma Igreja um bocadinho diferente. Nunca esqueço que tive uma grande alegria quando o Concílio publicou e aprovou um documento que nós chamamos "a presença da Igreja num mundo moderno". Até ali, a Igreja tinha um conjunto de fórmulas que mais ou menos ia repetindo. A partir dali, foi como que um grande desafio para poder entrar nas aspirações do homem.

E como sociedade, acredita em mudanças, que possamos retirar lições desta crise?

Eu acredito nas mudanças. Sabemos que, diariamente, naturalmente, elas vão acontecendo. Mas a mudança pode trazer algumas realidades que não estão devidamente estruturadas. De tal modo que, quando vivemos procurando a mudança pela mudança, a renovação pela renovação, nem sempre somos capazes de encontrar o caminho mais certo e mais seguro.

E isso é, de algum modo, pessimista para os dias de hoje...

Muitas vezes, é isso. Cai-se no pessimismo. E é por isso que temos de trabalhar, efetivamente, por uma renovação da Igreja. Há uma frase do Papa Francisco, que para mim é interpelativa, que nos diz que "esta reforma da Igreja é inadiável". Nos contactos que tenho com os padres e com as paróquias, ouço dizer sempre isto: o inadiável amanhã é tarde. Tem que ser concretizada agora. E nós temos que descobrir qual é a mudança que devemos realizar, qual é a renovação que teremos que fazer. No passado, a Igreja estava estruturada na hierarquia, hoje está a percorrer um caminho, em terminologia civil, podemos dizer quase de democracia. A consciência de que caminhamos juntos, e se caminhamos juntos temos que decidir e definir o presente e o futuro juntos. Não é uma tarefa do padre nem do bispo ou do arcebispo. Tem que ser de todos.

Teme que nestas celebrações pascais possa haver alguns excessos, como chegou a haver no ano passado? Dando origem até a inquéritos, em cerimónias como o beijar da cruz?

Não acredito. No ano passado, aquilo que sei é que, no contexto da diocese de Braga, foram dois casos. Mas eu direi que foi mais por ignorância. Pensar que aconteceram em lares, quer a diretora técnica, quer mesmo o pároco acreditaram que, desinfetando bem a cruz, seria um pouco de consolação para aqueles idosos, que estiveram tanto tempo fechados, sem falar com ninguém, num confinamento rigoroso. Nos lares, as pessoas já estavam isoladas no passado, mas agora estão muitíssimo mais. Aconteceu no ano passado, mas este ano tenho a convicção profunda de que não irá acontecer. As instruções foram muito claras, não há compasso, não há mais nenhuma manifestação nas ruas ou dentro das casas.

Com as igrejas fechadas e sem recolha de donativos, por dois períodos, que consequências houve nas contas das paróquias?

É difícil dizer nesta altura o que aconteceu e poderá estar ainda para acontecer. Penso que ninguém ignora que a Igreja vive da generosidade dos fiéis. Há pessoas que pensam que a Igreja é rica. É rica apenas pelo património que tem. Se as igrejas estiveram fechadas, naturalmente não houve oportunidade de efetuar peditórios e ir angariando as pequenas esmolas. Eu costumo dizer que o dinheiro da Igreja é feito de tostões, que se vão acumulando, grão a grão.

É verdade que a sua diocese está em falência técnica?

Tenho de sublinhar a autonomia das instituições e das paróquias. Uma confraria é autónoma, uma associação também, a diocese procura, naturalmente, acompanhar e tem também a sua economia e as suas dificuldades. A diocese de Braga não está em falência.

E as 551 paróquias?

Se olharmos para as paróquias, é provável que uma ou outra até possa estar em dificuldade. Mas as paróquias depois ajudam-se umas às outras. Este fenómeno de comunhão e de espírito de entreajuda está a acontecer.

Essas dificuldades têm comprometido a ajuda social imprescindível nesta altura de crise?

Eu penso que não. A Igreja tem sido procurada como nunca por situações de carência. Hoje, há muita pobreza. Há respostas de câmaras e juntas, às vezes tenta-se colaboração em rede, outras nem sempre se consegue.

Tem sido uma resposta espontânea ou sente necessidade de um plano ou de novas iniciativas nesta área social?

Há necessidade, particularmente para pagar rendas. Há um número elevado de verbas da Caritas que é para pagar rendas. Um trabalho para o qual a Igreja tem alertado muito é o da pobreza envergonhada. Aparecem-nos famílias que tinham empregos e, de repente, ficaram sem rendimento nenhum. Se há alguns que pedem - e até pedem demais, é preciso cuidado na distribuição porque há muito oportunismo também e faz falta denunciar essa situação -, outros não pedem. É importante conhecer e ter proximidade às famílias.

Como olha para Moçambique, não acha que aquelas pessoas de Cabo Delgado têm sido deixadas à sua sorte?

Eu tenho falado na situação de Cabo Delgado várias vezes, falei no domingo passado, na Catedral, por causa do que tinha acontecido na última semana, na cidade de Palma, mas já venho a falar nisto talvez desde 2017. E porquê? A arquidiocese de Braga estabeleceu um protocolo de ajuda com a diocese de Pemba, que corresponde à província de Cabo Delgado.

Mas acha que podia ter sido feito mais?

Eu acredito que sim. Quero crer que, nesta altura, a comunidade internacional tenha acordado. Há quem diga que é o Governo de Moçambique que não quer e que não aceita essa ajuda. Eu interrogo-me, não sei se é verdade. O certo é que uma guerra que sendo, tanto quanto nos é dado a entender, provocada por um exército islâmico tem os seus interesses.

E a própria Igreja poderia ter feito mais?

Penso que não. O que é que a Igreja poderá efetivamente fazer? A diocese de Pemba tinha à frente um bispo que efetivamente foi a voz que clamou no deserto e que me parece que não foi acolhida. De tal maneira, que o Papa achou por bem retirá-lo daquela diocese, penso que precisamente para o proteger. Isto não significou abandono da diocese, porque imediatamente foi lá colocado outro bispo. Só que, efetivamente, a voz de D. Luís foi incómoda.

Entende que o Papa tirou o bispo por causa das suas declarações polémicas ou para o proteger?

Pelas polémicas não. Foi para o proteger. E, já agora, também me esquecia deste pormenor: o Papa foi também uma voz que, pelo menos em duas ocasiões - e não agora, já há bastante tempo -, alertou para a situação daquela população, para os desalojados, para os mortos, para as condições de vida verdadeiramente inumana de muitas pessoas neste momento. Da parte da Igreja, aquilo que foi possível fazer, creio que foi feito.

Já há dois anos que pediu ao Papa a resignação do governo da arquidiocese. Quanto tempo acha que vai ter de esperar?

Não sei dizer. Aquilo que o Código do Direito Canónico estipula é que nós, aos 75 anos, apresentemos ao Papa a nossa resignação. E foi isso que eu fiz. Acredito que toda esta situação da pandemia tem condicionado muito os trabalhos. Mas dentro daquilo que tem pautado a minha vida, eu gosto de viver cada momento que passa e não pensar no amanhã. Enquanto o Papa me permitir, irei procurar continuar a servir esta diocese com a mesma alegria, com o mesmo encanto, com os mesmos defeitos, com as mesmas limitações.

"A eutanásia não é um problema religioso, é cultural"

No Domingo de Ramos, disse que um dos grandes desafios dos fiéis é lutar pela dignidade de todos, sem exclusão de qualquer género. Ao referir esta questão da exclusão, pensava em alguém em particular? No acolhimento, por exemplo, dos recasados, dos homossexuais?

Não. Acho que há muita realidade de exclusão. E ali, naquela circunstância, pensava sobretudo na exclusão social. Hoje, fala-se muito da inclusão, e nós podemos pensar nos refugiados que temos em Portugal, nos migrantes, particularmente estudantes e que nem sempre têm aquele acolhimento que deviam ter. Por exemplo, a comunidade brasileira que temos aqui em Braga é significativa e, por vezes, luta para poder integrar-se e poder quase sobreviver. E estava a pensar nessa realidade social que é verdadeiramente dramática e que é um desafio todos os dias. E quando falava na questão da dignidade, estava a referir-me a um dos principais princípios da Doutrina Social da Igreja. Aliás, falei de três princípios da Doutrina Social que são muito importantes, que é a dignidade, o princípio de trabalhar para o bem comum e a solidariedade.

Mas nesse "cuidar do próximo", a diocese de Braga foi, de facto, das primeiras em Portugal a interpretar a mensagem de acolhimento aos recasados. Sabe dizer quantos casos de casais envolvidos ativamente têm na pastoral?

Não foram muitos, mas, com todos aqueles que apareceram, fizemos um discernimento - não fui eu, havia uma equipa e, particularmente, um sacerdote, que foi ouvindo, foi acolhendo, e foi realizando todo um processo para uma reintegração na Igreja, dentro de uma normalidade para poderem casar depois, também, se fosse o caso, porque é um trabalho muito importante feito pelos tribunais eclesiásticos. Há pessoas que dizem que num tribunal eclesiástico uma questão é muito cara, não é verdade. Prestamos um pouco de atenção a isso mesmo para facilitar, para reconhecer que, por vezes, o que é um casamento fracassado é um casamento nulo, que no princípio não existiu.

O tema da eutanásia está em discussão na sociedade portuguesa. Apesar de ter havido chumbo do Tribunal Constitucional, haverá novas propostas no Parlamento. Acha que será uma questão de tempo até ser aprovada?

Eu penso que sim. Para mim, a eutanásia não é um problema religioso, é cultural ou, se quisermos, civilizacional. A vida é sempre um dom, portanto a inviolabilidade da vida humana não é apenas um artigo da Constituição portuguesa, está devidamente consignado. Aquilo que me custa é que o assunto não tenha sido suficientemente dialogado. Parece-me que os partidos não foram coerentes, porque não tinham no seu programa eleitoral essa questão da eutanásia.

Portanto, entende que não havia legitimidade política?

Quase que me apetece dizer isso mesmo. Para que são os programas na altura da campanha eleitoral?

Se não é uma questão de fé, se não é uma questão do artigo da Constituição, qual é o tema?

De fé também é, porque nós, os católicos, acreditamos que a vida não é nossa, é um dom, acreditamos nesta sociedade plural que temos. Agora, no caso concreto de Portugal, seja-me permitido acrescentar mais um ponto: a mim, de facto, também me chocou um pouco que este assunto tenha vindo para a praça pública, para o Parlamento, num momento em que nós estávamos a viver o drama da pandemia.

Não foi um "timing" adequado para esta discussão?

Isso é um aspeto, não foi um "timing" adequado. Efetivamente, nós, todos os dias, lutávamos, nós louvávamos o trabalho que os médicos e os enfermeiros estavam a fazer, alguns que não tinham tempo quase para dormir e para comer, nós cantámos, lutar pela vida, para que não morressem. Então, depois de toda uma porta de facilidade, não foi o "timing", e depois não foi o remédio, a solução. Porque, para mim, a solução são as unidades de cuidados continuados. E não se aposta aí. Existem muito poucas e longe dos lugares onde as pessoas habitam. Não se proporciona às pessoas, em situação de muita precariedade, a dignidade para poder viver até à morte. Este é o grande problema.

Entende que os titulares de cargos públicos devem declarar pertença a organizações como a maçonaria ou a Opus Dei?

Penso que são questões de consciência. Eu posso optar, tenho a minha consciência, agora, também não me repugna que se manifeste, que se dê a conhecer.

Também não lhe repugna o contrário?

Não, embora sublinhe que se trata de questões de consciência, questões pessoais. Nós respeitamos a liberdade - e a liberdade tem muitas manifestações, mas, particularmente, a liberdade de consciência, e a consciência é inviolável -, não vejo necessidade para isso. Agora, se, efetivamente, se consegue provar que essas estruturas servem para outras coisas e não apenas para o exercício da sua liberdade, mas mais para um aproveitamento, jogos de poder, aí já posso... não sei.

E a questão de uma união entre pessoas do mesmo sexo abençoada pela Igreja também é de consciência?

Não. Ora bem, nós temos que dizer que a Igreja defenderá sempre a questão da complementaridade entre o homem e a mulher, nasceram para ser uma coisa só. Esta será a lei, a disciplina que a Igreja irá seguir sempre. Naturalmente, compreenderá a aceitação das pessoas, eu não condeno...

Mas a Igreja pode acolher, deve acolher?

Sim, em termos de acolhimento, de compreensão. Agora, em qualquer tipo de bênção, como alguns querem, pois, com certeza, a Igreja o que vai dizer? Nascemos homem e mulher, iguais, na diferença de cada um, complementares, e esse é que é o normal desenvolvimento da vida humana. Mas nós temos que compreender essas situações.

E a abertura ao casamento de padres?

Todos nós sabemos, também, que a questão do celibato é uma lei da Igreja. Não foi assim no princípio. Os apóstolos eram casados, o Evangelho fala da sogra de S. Pedro. Mais tarde é que pareceu conveniente, para poder ter uma liberdade para exercer um ministério sacerdotal, que fossem celibatários

Uma mudança na Igreja, como falou no início desta entrevista, poderá também passar por aí?

Pode ser, pode acontecer. A mim, não me repugna. Agora, se me pergunta a mim, pela experiência que tenho, na liberdade que eu sempre tive de poder trabalhar, de me entregar incondicionalmente ao serviço da causa de Jesus Cristo, penso que são muitas as vantagens de os padres não casarem. Agora, se amanhã a Igreja refletir e pensar que eles poderão casar, não me repugna, até porque se trata de uma lei disciplinar, eclesiástica, e não que está na Sagrada Escritura.

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