Ó Elvas, ó Elvas, só há um único comboio à vista... Na "ressurreição" da linha do Leste
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Ó Elvas, ó Elvas, só há um único comboio à vista... Na "ressurreição" da linha do Leste

Covilhã > Abrantes > Elvas. Mochila às costas, bilhetes na mão, sentidos apurados, gravador preparado e embarcamos uma semana para uma viagem (inesquecível) de comboio. À janela, observamos o melhor e o pior das linhas de comboio portuguesas. Acertamos agulhas e tentamos perceber qual a "Próxima Estação" para a ferrovia nacional: o que vai evoluir o país com o plano ferroviário para 2030 e o que deixou para trás.

Fazer Covilhã - Elvas no mesmo dia obriga-nos a uma pequena ginástica e a uma corrida contra o tempo. Não temos tempo para apanhar um regional, pois nunca chegaríamos a tempo de apanhar em Abrantes o único comboio que faz a linha do Leste até Elvas, com ligação ao outro lado da fronteira em Badajoz. É mesmo caso para dizer: "Ó Elvas, ó Elvas, só há um único comboio à vista. É triste, é pouco, é desolador, mas, por incrível que pareça, é bem melhor do que aquilo que existiu entre 2012 e 2017. Já lá iremos a essa parte da história...

Bem cedo, a estação da Covilhã contrasta com o dia anterior à chegada: está repleta de gente para o IC com destino a Lisboa. Dá gosto. Não há bancos suficientes, os mais jovens sentam-se pelo chão e os mais velhos vão andando de um lado para o outro do cais, até porque parada em pé faz pior às costas. Vamos no primeiro comboio do dia, que liga agora a Guarda a Lisboa, pela Linha da Beira Alta.

Depois da Covilhã, paramos no Fundão e em Castelo Branco e a carruagem enche até ao que está permitido pela DGS - Direção Geral da Saúde. Pela primeira vez sinto-me verdadeiramente acompanhado numa viagem.

O comboio desliza... a viagem até Abrantes é completamente serena. Em nada comparável com as cavalgadas que vivemos na linha da Beira Alta no dia anterior. Desliza suave e entre Ródão e Abrantes a paisagem é qualquer coisa de deslumbrante. Só lhe ganha a Dona Mariana, que não tira os olhos da janela e que, de quando em vez, fala alto, sem vergonha, para que alguém lhe responda: "olha que lindo, parece o Douro!", "mas que barragem é esta?", "ai, minha nossa senhora, que eu não conhecia nada disto. Bem me disse o homem da bilheteira lá na Guarda que ia valer a pena...", "e se valeu! Ai se valeu!". Não se continha. Tal como não me contive. Levantei-me, pedi-lhe licença e sentei-me ao lado dela. Disse-lhe que a primeira barragem que tínhamos passado era a do Fratel e que aquela que acabávamos de passar era a de Belver. Pedi-lhe para falarmos para a rádio. Ela queria a televisão, mas a rádio chegou-lhe para dizer que ia a Lisboa com regularidade, mas sempre pela Beira Alta. A opção da Beira Baixa mostrou-se uma excelente alternativa. Para Coimbra, diz-nos, vai continuar a ir ao contrário, mas para Lisboa, acabou conquistada. Foi o Tejo que a conquistou. O Tejo que ela desconhecia o nome e que até pensava que desaguava no Douro... ai a Geografia, Dona Mariana. Ela aprendeu comigo e eu aprendi com ela, a ser genuíno e puro...

A estação "fantasma" de Abrantes e a perda do único comboio diário para Ponte de Sôr

Em Abrantes, espera-me uma espera de mais de 40 minutos. Tiro fotografias, espreito a estação, vejo que, assim que parte o IC rumo a Lisboa, se fecha a única bilheteira aberta nesta estação. Vou ao bar e, na saída, ouço vozes de aflição. Ao ver-me, o António (que aqui lhe chamo assim, como nome fictício, porque no meio da trapalhada não tive a ousadia de lhe perguntar como se chamava) pergunta-me se posso ligar para a linha de apoio da CP. Tinha deixado o telemóvel dentro do comboio em que tínhamos vindo e não havia na estação quem pudesse dar apoio. Disse-lhe que sim, mas que, antes disso, nos deveríamos dirigir ao telefone automático da estação para falar com alguém do outro lado. Não funcionava. Por isso, linha de apoio. Atendimento imediato, mas não havia nada a fazer. A linha de apoio não consegue comunicar com o comboio e com o revisor, só as bilheteiras. Lembram-se? Estava fechada. Ainda assim, batemos. Batemos à porta do chefe da estação e como, quase tudo, se resolve num bar, lá fomos. A senhora simpática atrás do balcão indica-nos uma porta-forte azul, onde poderíamos encontrar alguém que nos pudesse ajudar. Mas... não muito. "Sou funcionário da IP e não vos posso fazer nada". Então e o senhor da bilheteira, consegue contactar com ele? "Não mando no trabalho da pessoa da bilheteira, que é da CP. Ele é que manda no trabalho dele. Está a almoçar que também tem direito". Então, mas são 10h da manhã? "Você almoça à hora que quer, ele entra às cinco da manhã e tem a hora de almoço dele", ripostou. Nada contra. A culpa não é, de facto, do funcionário da CP. O que não pode acontecer é que uma cidade como Abrantes, em plena luz do dia, tenha uma bilheteira fechada, seja a que hora for...

Chega a hora de apanhar o único... sim, o único comboio do dia que faz a linha do Leste no sentido Abrantes > Badajoz e lá me dirijo à linha 2, depois de ter perguntado a trabalhadores da IP que serravam antigas travessas onde seria. Bilheteira fechada e no painel informativo, como se vê pela fotografia, era o único comboio com linha "fantasma". O António e a avó decidem ficar à espera de que o telemóvel volte de Lisboa noutro comboio. A avó, aflita, ainda o chama à realidade, "mas onde é que vamos dormir?". Ele insiste, "sem telemóvel é que não vou. Nem que durma aqui nos bancos das bilheteiras".

A automotora chegou. Eu entrei. Eles ficaram para o dia seguinte.

A "ressurreição" da linha do Leste: um "milagre" que (ainda) sabe a pouco

A linha do Leste tem, mais coisa menos coisa, 140km, entre Abrantes e Badajoz. Inaugurada em 1863 passou a fazer a ligação com Espanha alguns anos mais tarde: duplamente. Porquê? Porque na abandonada estação de Torre das Vargens ramificava para Cáceres, gerando assim o também agora desativado Ramal de Cáceres até à última estação de Marvão-Beirã, convertida num alojamento local (diria que bem convertida, uma vez que já tivemos oportunidade de verificar, em família, esta adaptação).

Quando a automotora Allan da série 0350 verde se aproxima de mim na estação de Abrantes foi inevitável que o meu pensamento não me tenha levado para os anos em que fiz o Ramal de Pampilhosa - Figueira da Foz, originalmente linha da Beira Alta. Imaginei os safanões dentro da automotora, as paragens em cada passagem de nível para que o próprio revisor fechasse as cancelas, e de novo paragem para que voltasse a abri-las, o momento em que tremia e achava que a automotora ia saltar fora dos carris (isto que descrevo foi entre 1998 e 2000, altura em que este ramal pouco ou nada tinha de manutenção e investimento e sempre entre Pampilhosa e Cantanhede).

Estava enganado. Apercebi-me assim que entrei. Automotora imaculada e uma viagem estável de fazer inveja à linha da Beira Alta: passagens de nível eletrificadas e uma velocidade cruzeiro que chega a atingir os 90km/h (sim, as automotoras têm painel informativo digital...).

A desolação está fora das janelas. A dimensão das estações é impressionante e, pela decadência, percebe-se que foram, outrora, grandes centros de desenvolvimento local e movimentadas. É desolador o aspeto dos edifícios, os descampados que foram criados com o levantamento dos carris... acontece esta visão, sobretudo no Crato e na Chança. Os poucos sítios (que me apercebesse) onde ainda dá para fazer cruzamento de comboios é em Torre das Vargens e na isolada e "triste" estação de Portalegre, a única que continua digna (mas pouco) desse nome. Não há nenhuma estação em que só passem dois comboios de passageiros por dia (um em cada sentido) que seja lá grande estação.

Aqui, em Portalegre, a nossa história cruza-se com a história de Pedro Gil, o único passageiro que entra na automotora. Está a fazer Portugal, de Norte e Sul, de bicicleta, sempre junto à fronteira. "Quando me falta a força nas pernas, apanho o comboio", conta-nos. E teve sorte. Apanhou o único do dia. "Em Portugal continua a ser muito difícil andar de comboio e com bicicletas: é raro termos lugares adequados e as plataformas são muito baixas em relação aos comboios". É de Leiria, está de férias e foi até Elvas de onde retoma as pedaladas até lá mais a sul.

Voltamos à linha, que na zona entre Torre das Vargens e Chança atravessa hectares... muitos hectares de olival intensivo. Fosse esta azeitona escoada por comboio e, se calhar, o renascimento era outro.

Outro dado curioso é que nas estações, desculpem, nos sítios onde para a automotora e que já foram estações, foi efetuado o levantamento dos carris (cheguei até a pensar que era ilusão de ótica) retiraram a linha que estava mais próxima da plataforma e da estação. Deve existir uma explicação técnica para isto (que eu desconheço, não sou técnico) ou então é simplesmente pura parvoíce.

Então quem usa o único comboio diário?

Estudantes. Em Abrantes entraram nove passageiros. Muito jovens e estudantes. Maria até chegou a fazer a viagem de Peniche para Elvas de autocarro. Estuda Enfermagem Veterinária, na Escola Superior Agrária do Politécnico de Portalegre, e trocou o autocarro pelo comboio, assim que soube da existência da ferrovia. "Venho mais confortável, tenho mais espaço e é mais barato", conta-me as razões que levaram a esta troca. Quando falamos sobre a existência de apenas um comboio por dia, lembrou-me logo que, para ela, é indiferente. Vem e só volta uma semana depois. Ainda assim continuámos a conversar sobre aqueles que poderiam viver em Elvas e querer trabalhar em Portalegre ou em Badajoz. Espera... estamos a falar como se não existissem... mas existem. Vamos lá alterar o discurso. Mudemos as agulhas. Quem trabalha em Portalegre ou em Elvas não consegue utilizar o comboio diariamente. Só estudantes e turistas, ou apaixonados pelo comboio e pelo trabalho como eu. E assim: algum dia seremos muitos? É capaz que não aconteça.

Na crónica de amanhã, falarei sobretudo disso mesmo: do desconhecimento da reabertura da linha e da necessidade de que os poderes locais favoreçam o uso da ferrovia e lutem para que a CP reforce o serviço numa zona que vale a pena: ai se vale, é difícil ir a escrever isto, quando os nossos olhos são constantemente roubados para a paisagem alentejana.

Termino, oferecendo-vos um pouco de história, da que fui apanhando aqui e ali. Há pouco falei no Ramal de Cáceres, pois bem, esteve ao serviço entre 1879 e 2012, quando deixou de passar o comboio internacional que ainda se mantinha. Tem potencial para reabrir? Para fins turísticos, sem dúvida. Para passageiros? Atrás de um pode vir o outro.

Na linha do Leste, o serviço de passageiros esteve interrompido até 2015 (Abrantes - Portalegre) e até 2017 (Abrantes - Elvas).

Recentemente, e a pensar no futuro encerramento da linha da Beira Alta (dezembro deste ano), o principal corredor de mercadorias do país, o governo investiu 29 milhões de euros na renovação da linha do Leste, para reforçar as condições de segurança da via. A própria IP quando comunicou o investimento deixou bem claro que o principal motivo deste investimento é o transporte de mercadorias, mas lá foi deixando palavras como "incrementar as condições de operacionalidade" e a "eficiência e a competitividade". E isto, sem transporte de passageiros, parece-me que fica "meio manco", o mesmo é dizer que fica incompleto.

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