Projeto venceu programa Gulbenkian Cuida, da Fundação Calouste Gulbenkian, em parceria com a Segurança
Beja

"O importante é continuarem a mexer-se." Um programa de rádio que combate a solidão de idosos

Esta sexta-feira termina o programa da Rádio Voz da Planície "Avós com Voz", que, durante cinco meses, uniu idosos de Baleizão votados ao confinamento.

Desde que encerrou o centro de dia que frequentava - o Centro Nossa Senhora da Graça de Baleizão -, Francisca Morais, mais de 80 anos, nunca mais viu os companheiros que diariamente a acompanhavam na instituição. Durante o confinamento, o centro encerrou e os utentes foram obrigados a ficar em casa. Logo em março, o centro começou a dar apoio domiciliário, mas era necessário mais do que isso."O que nos preocupava mais não eram as necessidades básicas, como a higiene ou a alimentação, essas conseguíamos cumprir", diz o presidente do Centro. "O problema é que tínhamos consciência de que aquelas pessoas iam ficar isoladas", acrescenta João Cascalheira. E estão, há setes meses.

Os dirigentes do centro pensaram então numa parceria com a rádio local Voz da Planície, de Beja, de modo a fazer um programa que chegasse até às casas dos idosos. E assim foi. Criaram o programa "Avós com Voz," que, desde maio, todas as sextas-feiras esteve no ar, ouvindo utentes, funcionários e dirigentes do lar e também especialistas em saúde mental ou mesmo outras pessoas que quiseram dar o seu testemunho. Como a atriz São José Lapa: "O importante, minhas queridas e meus queridos, é continuarem a mexer-se", disse-lhes a atriz, através da rádio.

O projeto candidatou-se ao programa Gulbenkian Cuida, da Fundação Calouste Gulbenkian, em parceria com o Instituto de Segurança Social, e foi vencedor. Deram-lhe o nome bem alentejano "Há de Escampar".

"Escampar é quando termina a chuva", explica João Cascalheira. Ou seja, é como quem diz, numa linguagem atual, 'vai ficar tudo bem'.

Num dos programas, Jorge David, filho de uma utente com demência, fez questão de explicar à jornalista Ana Elias Freitas, da Rádio Voz da Planície, que o contacto com os técnicos do centro de dia fazia toda a diferença na saúde mental da sua mãe. "Só a interação, o falar, [a minha mãe] passa de 50% para quase 100%." De resto, garantir que a saúde mental dos idosos se mantinha intacta durante os sete meses que não frequentaram o centro era o grande objetivo dos técnicos. Sandra Bagulho, vice-presidente da instituição, adianta que no programa de rádio houve uma mensagem que quiseram sempre passar: "Era garantir-lhes que não os tínhamos abandonado". Porque "foi difícil explicar a estes utentes que, de um dia para o outro, não poderiam voltar à instituição". Muitos têm já um princípio de demência ou mesmo estados mais avançados da doença. "Ficavam contentes por nos ouvir na rádio porque as nossas vozes lhes eram familiares", adianta Sandra Bagulho.

Carlos Moedas, ex-ministro e atual administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, explica que o projeto "Há de Escampar" foi merecedor de apoio financeiro muito devido ao projeto radiofónico. "A rádio é mágica", disse num depoimento que foi para o ar num dos programas Avós com Voz. "Se o senhor Calouste Gulbenkian fosse vivo, este era o género de projetos com que ele sonhava, que era ajudar através da cultura e da arte", garantiu.

Depois de 20 edições do programa, os dirigentes do Centro Nossa Senhora da Graça ficaram com o bichinho da rádio porque já pensam fazer novo programa e ter nova parceria com a Rádio Voz da Planície em breve

O reencontro dos utentes vai ser no dia 1 de outubro, quando o Centro de Dia reabrir, e, no último programa, a técnica Sandra Bagulho quis deixar uma mensagem: "Finalmente, vamos voltar a recebê-los. Vamos adaptar-nos às novas circunstâncias e vai correr tudo bem."

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