O mistério dos golfinhos do Tejo
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O mistério dos golfinhos do Tejo

Há décadas que não se viam tantos golfinhos no rio Tejo, em Lisboa. Foi raro o dia, no último mês, em que não foram vistos. Mas ninguém tem bem a certeza das razões, apesar de parecer claro que algo mudou com a pandemia.

Quem tiver um avô ou uma avó que tenha vivido perto do Tejo, em Lisboa, pode ter ouvido histórias de como era comum, há décadas, a meio do século XX, ver golfinhos no rio.

Um cenário distante, longínquo, que para as gerações mais novas (ou mesmo não tão novas assim...) é difícil de imaginar, mesmo que os golfinhos tenham sido desenhados, há alguns anos, quase como memória de um passado distante, na base dos pilares da Ponte 25 de Abril.

Nos últimos meses, no entanto, desde o início da pandemia, sobretudo nas últimas semanas, o Tejo parece que voltou ao passado, com avistamentos quase diários do popular animal.

Quando entram no rio e o que fazem

Francisco Martinho, biólogo que há mais de uma década estuda golfinhos, nomeadamente no Tejo, tendo participado num estudo que analisou as notícias de jornais sobre avistamentos ao longo das últimas décadas ("Realidade, imaginário ou mito"?), admite que nunca viu nada assim: há mais de um mês que praticamente todos os dias, com algumas exceções, recebe relatos ou fotografias de avistamentos.
Recentemente teve relatos todos os dias durante quase duas semanas.

A dúvida é porquê e Francisco levanta sobretudo uma hipótese: o Tejo, perto de Lisboa, terá hoje mais peixe, sobretudo pequenos peixes pelágicos (cavala, carapau ou sardinha) que andam em cardumes e que são a principal presa destes golfinhos que caçam em grupo e apenas atacam cardumes, ou seja, peixes em grupo.

É isso, que o rio terá hoje, mais peixe, que Francisco Martinho e Bernardo Queiroz têm ouvido dos pescadores.

Bernardo é responsável por uma escola de vela e diariamente vai para o rio sendo dele grande parte das imagens que têm surgido na comunicação social com golfinhos e mais golfinhos na barra do Tejo, por baixo da Ponte 25 de Abril ou em frente ao Terreiro do Paço, algures na água entre Lisboa e Cacilhas (do lado de Almada).

À caça

Bernardo Queiroz acredita que a hipótese "peixe" é mesmo a mais forte e recorda que tem visto os golfinhos a brincar, mas sobretudo a caçar.

"Eles nitidamente vêm alimentar-se, atrás de peixe. Vemos as gaivotas a pairar por cima dos golfinhos", recorda Bernardo Queiroz, dizendo que há um padrão pois normalmente entram no rio com a maré a encher e saem quando ela está a vazar, apesar de por vezes subirem bastante o Tejo e ficarem lá dentro mesmo na maré baixa.

Os avistamentos são tão comuns que há mesmo alguns golfinhos que já têm nome e são identificados pela forma da barbatana como acontece há muito nos golfinhos (roazes e não comuns) residentes no estuário do vizinho Sado.
Bernardo, o responsável pela escola de vela, com sede ao lado da ponte na Doca de Santo Amaro, que todos os dias sai para o rio, sublinha que nos últimos anos, com as águas cada vez menos poluídas no Tejo, tem sido cada vez mais frequente ver golfinhos, mesmo antes da Covid-19 "com navios e com turistas", mas nada como no último mês em que o que é raro é o dia em que estes não são vistos.

Festins no Tejo

Inês Clara, também bióloga, acrescenta que estamos perante golfinhos comuns, selvagens, que vêm de fora do rio e que por norma só vão para determinados locais para se reproduzirem ou para comerem.

Agora, no Tejo, com muito menos embarcações para os incomodar, menos poluição sonora e mais peixe como sardinhas e cavalas (a sua habitual dieta) é normal que comecem a aparecer mais animais no rio, sobretudo numa altura em que a poluição é cada vez menor.

Além disso, o que se sabe da pandemia é que "há menos pescadores no mar e menos consumo de peixe, sobretudo de sardinha nos santos populares".

Inês já viu vários destes grupos de golfinhos nas últimas semanas e explica que presenciou vários tipos de comportamentos - num único dia houve relatos de avistamentos de sete grupos diferentes.

Há grupos maiores, até 30 golfinhos, e grupos pequenos; adultos e pequenos (incluindo crias recém nascidas); muitas vezes a brincar e sobretudo a alimentar-se como provam as gaivotas que os rodeiam à espera das sobras do festim - como Inês já viu uma vez em frente ao Terreiro do Paço.

Pescadores recusam culpas

Quem não está convencido com a tese da abundância de pequenos peixes no Tejo por falta de pesca devido à pandemia é o presidente da Associação Nacional das Organizações de Produtores da Pesca do Cerco.

Humberto Jorge detalha que a sardinha e outros peixes do mesmo tipo (como a cavala ou o carapau) estão em recuperação há vários anos o que tem, de facto, aberto as portas ou atraído peixes maiores e também golfinhos que se aproximam com mais frequência da costa Ocidental portuguesa.

Além disso a poluição tem sido "de ano para ano" menor no Tejo e nos estuários de outros grandes rios nacionais o que permite o surgimento de cada vez mais espécies que antes eram pouco comuns.

"Neste caso a notícia dos golfinhos no Tejo é excecional, mas não a ligo diretamente ao menor esforço de pesca por causa da pandemia, mas sim às melhores condições da água e da poluição, que melhoraram ainda mais com a pandemia que diminuiu, por exemplo, a poluição sonora na água", refere o representante do setor das pescas.
Humberto Jorge garante, aliás, que nos últimos meses, com a pandemia, não se pescou muito menos como muitos pensam, uma ideia que, defende, virá de quem tem ideias preconcebidas de que a pesca está na origem de todos os males.

"Por outro lado", afirma, "em junho reiniciou-se a atividade da frota de cerco que conta com mais de cem embarcações dirigida a pequenos peixes e que interagem muito com golfinhos".

Números oficiais não esclarecem

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), entidade nacional responsável pelas campanhas de investigação que se realizam todos os anos para perceber a abundância de peixe na costa, detalha que "a abundância de pequenos peixes pelágicos (sardinha, carapau, biqueirão e cavala) foi significativamente mais elevada nos últimos três anos (2018, 2019 e 2020) em comparação com anos anteriores no global da costa Portuguesa".

Contudo, "na última campanha, em março de 2020, a abundância até foi mais baixa do que em 2019 e 2018", não se tendo feito ainda qualquer avaliação durante a pandemia ou no pós estado de emergência.

"A sardinha, uma das principais presas dos golfinhos apresenta uma tendência crescente desde 2017, com o valor mais elevado em março de 2020. No entanto, na zona entre Cascais e o cabo Espichel, a sardinha foi bastante menos abundante em 2020 do que em 2019, enquanto a abundância das restantes espécies se manteve", conclui o IPMA.

Só as próximas semanas, meses ou mesmo anos vão clarificar se os golfinhos do Tejo regressaram para ficar ou se são apenas turistas temporários em tempos, de exceção, de pandemia.

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