"Onde está a sua cama?" Quando a pergunta que fizeram a Kapuscinski na Índia se aplica a Portugal

Elvas > Entroncamento. Mochila às costas, bilhetes na mão, sentidos apurados, gravador preparado e embarcamos uma semana para uma viagem (inesquecível) de comboio. À janela, observamos o melhor e o pior das linhas de comboio portuguesas. Acertamos agulhas e tentamos perceber qual a "Próxima Estação" para a ferrovia nacional: o que vai evoluir o país com o plano ferroviário para 2030 e o que deixou para trás.

À chegada a Calcutá, na Índia, quando Ryszard Kapuscinski apanhou o primeiro comboio, perguntaram-lhe na estação onde estava a sua cama. Espantado, não sabia que na Índia, as carruagens não tinham bancos nem camas e, por isso, cada um que levasse a sua.

Onde é que isto se encaixa com a história de hoje? Já lá vamos. Para já, o excerto do livro que contextualiza esta ousada comparação.

"Logo na estação, olhou para mim e perguntou: Where is your bed? Eu estava a perceber o que me dizia, mas provavelmente tinha ar de quem não percebia. (...) Ao entrar na carruagem, ouvi várias vozes a perguntar: Where is your bed? (...) Como poderia saber que, além de um bilhete válido, era preciso levar também a cama?"

Que fique bem claro que em Portugal há assentos nos comboios e nas automotoras. Mas é preciso recordar que a crónica de hoje é a do regresso de Elvas. E enquanto houver apenas um comboio nesta via em cada sentido, antes mesmo da partida é preciso pensar onde dormir. Arranjar cama é fundamental para quem faz a linha do Leste: seja em Ponte de Sôr, Torre das Vargens, Crato, Chança, Portalegre, Santa Eulália, Elvas ou Badajoz (ou em qualquer outra localidade com estação e apeadeiro que me possa ter escapado). Imagine que queria ir visitar a cidade de Portalegre. Ia e assim que chegasse à cidade, tomava um café (um almoço já seria arriscado) e tinha de regressar para apanhar a automotora no sentido contrário. Para fazer turismo na linha do Leste tem de ir e ficar. Olhem que... olhem que... se a região de turismo sabe disto, ainda cria um slogan: "Ó Elvas, ó Elvas, há ir e ficar!"

Mas não partimos, antes de deambularmos pelo centro da cidade, a 4km da estação, tentando perceber quem cá no cimo, junto ao castelo, sabe que lá em baixo, por entre searas na planície amarela, duas vezes ao dia passa a automotora Allan, cortando a paisagem a verde.

"Comboio? Há comboio?" - olhe que há! Muito poucos sabiam em Elvas que a linha de comboio estava reativada. Verdade. E os que sabiam lá vão dizendo que já nem se lembram de ir para os lados da estação. "E se dava jeito que mais houvesse", confidencia-me a proprietária de um restaurante na zona histórica. Ao lado, o marido acrescenta que "há muita gente que trabalha em Badajoz" e para quem este meio de transporte poderia ser útil. "Um por dia?", questiona-me com os olhos arregalados. "Mas assim não chega para ir e vir no mesmo dia... assim não dá..." (as palavras são dele e não minhas. E quem dera a mim colocar aqui o carinhoso sotaque desta zona, que as palavras assim sairiam mais vivas e realistas).

Fomos encaixando carruagens de histórias a este regresso do comboio: e agora o amigo, que é GNR em Évora, que diz que gasta centenas de quilómetros em gasóleo e acumula centenas de horas em cansaço por causa da condução e que sonha com a possibilidade da nova linha ter uma "ligaçãozinha" entre Elvas e Évora. E encaixamos também a história da esposa que ia visitar a avó a Santa Eulália (onde há um apeadeiro) e que agora não pode ir e vir. "Se calhar um dia destes vem a senhora e dorme cá. Volta no dia seguinte. Está velhotinha, mas sempre vê a família".

O melhor presente de Elvas, para mim, foi ter recebido a chamada de um velho amigo de juventude (trabalhámos juntos nos verões num hotel em Luso) a dizer-me que era aqui que vivia e trabalhava há dois anos. E porque coloco aqui esta passagem (ainda) mais pessoal, porque ele insistiu (muito... aliás, como fazem os amigos), que me ia levar à estação por causa da minha mochila pesada. Disse-lhe que já tinha subido os 4km até Elvas e que agora voltava a descer, mas ele insistiu e eu acabei por aceitar. Entrámos no carro e ele diz-me: "Miguel, acho que não sei muito bem onde fica a estação." Acho que não preciso escrever mais... Mas acho que lhe deixei argumentos para experimentar o conforto de uma viagem de comboio até Coimbra.

Estas são conversas de mais de 24h em Elvas entre uma e outra automotora. Eu sei que a cidade alentejana vale a pena, que um dia não chega para ver tudo o que tem para ver, mas... e já agora... que as suas gentes não saibam, ou saibam pouco, que, desde 2017, o comboio voltou, dá que pensar. É bom lembrar que à porta da estação nem autocarro, nem táxi. E é também a nível local que se tem de "abrir os olhos" e potenciar este meio de transporte. As próprias autarquias têm de "encarrilar" no tema e promover o meio de transporte terrestre mais seguro do mundo. Não chega meter as mãos à cabeça e gritar "ai meu Deus" quando nos tiram as valências.

Entroncamento: "O caminho de ferro será sempre uma mais-valia na minha vida"

O meu destino de hoje é o Entroncamento: o fascínio pela cidade que nasceu dos comboios, onde "renascem" comboios nas suas oficinas, estão expostos antigos comboios no Museu Ferroviário, onde se cruzam constantemente comboios (a repetição da palavra é propositada) faz desta cidade um ponto inevitável nesta viagem pela ferrovia. Aqui entroncam duas das mais antigas ferrovias do país: a do Norte e a do Leste. É um entroncamento de linhas e de gente. Manuel Zacarias é disso um exemplo. Reformado das oficinas da CP, natural da Beira Alta, lá para os lados de Penamacor, aqui veio parar depois de alguns anos em Lisboa, de serviço militar feito, e depois de ter passado pela força aérea.

Esteve 36 anos na CP, uma vida. Entrou como Auxiliar de Estação, depois de concluir um curso em Santa Apolónia, mas depressa mudou agulhas e foi para as oficinas. "Entrei como operário de 3ª, depois de 2ª, depois de 1ª e até cheguei a chefiar agora mais para o fim", conta-me, sentados que estamos num dos bancos da estação, literalmente a ver passar comboios. Lá existem conversas ou locais mais relaxantes para dois "malucos" por comboios?

Na vida profissional houve altos e baixos, e seria de estranhar se não os houvesse em mais de três décadas de serviço, mas nota-se que Manuel Zacarias está grato, talvez à empresa, talvez ao sítio, talvez apenas grato à vida. Mas está resolvido. Sorri para dizer-me que "isto (CP) pode ter alguns defeitos, mas a verdade é que entrei com a 4ª classe e saí com o 9º ano". Especializou-se em soldadura, reformou-se como soldador profissional e chegou a dar formação a outros.

Entretanto, mesmo à frente dos nossos olhos para uma UTE. Pergunto-lhe: esta passou-lhe pelas mãos? "Todas. Foram todas modificadas por nós" e depois volta a sorrir (com os olhos porque só se tirou a máscara para a fotografia) "Estas UTEs" vão durar mais tempo do que eu". Mais do que eu elas já duraram, fiquei a saber pela conversa. Eram as velhinhas UTEs cinzentas que ainda vi a circular (e andei nelas, claro) e que depois foram desmanteladas (confesso que não sei se foi esta a palavra que usou). Conta-me que terão vindo da América (pensa ele, não está seguro) e que ainda foram compradas "pelo outro"... Quando franzi o cenho por não estar a entender, segredou-me "pelo Salazar". O que ele sabe mesmo, com grande certeza, é que "é material muito bom, mesmo muito bom".

Dos tempos que já foram lembra-se de vir à estação para entregar comboios ao chefe da estação, depois de estarem reparados, e também do ordenado "um bocadinho baixo" que ganhava e que, ainda assim, lhe permite dizer com orgulho que "deu para formar os dois filhos": um deles em engenharia mecânica que, por mais altos voos ou por pés menos assentes na terra que o pai, acabou na TAP como engenheiro mecânico.

Há aquelas pessoas que se cruzam connosco e que partem sem custo, mas há depois os outros que se entroncam connosco e que nos marcam. Desligámos o gravador, mas a conversa sem registo continuava teimosamente em linha. Não fosse a necessidade de entregar estas linhas para publicação e estaria agora a jantar com ele em sua casa. Não foi por falta de convite.

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