Os altos e baixos das linhas da Beira Alta e da Beira Baixa e a "riqueza" do "Manel das Cabras"

Luso-Buçaco > Guarda > Covilhã. Mochila às costas, bilhetes na mão, sentidos apurados, gravador preparado e embarcamos uma semana para uma viagem (inesquecível) de comboio. À janela, observamos o melhor e o pior das linhas de comboio portuguesas. Acertamos agulhas e tentamos perceber qual a "Próxima Estação" para a ferrovia nacional: o que vai evoluir o país com o plano ferroviário para 2030 e o que deixou para trás.

A mochila está pesada e o sol bate-me de frente no cais da estação de Luso-Buçaco. Enquanto espero o regional para a Guarda, olho a ponte de ferro que atravessa o vale da minha aldeia de Várzeas e espero que o tempo me dispare para trás e que volte a sentir o chão da estação a tremer, como quando acontecia na altura em que o cruzamento dos comboios ali se fazia e estavam, às vezes, duas máquinas em simultâneo a trabalhar a compasso enquanto os passageiros iam entrando no comboio, levando consigo malas e bagagens e até mesmo sacos de serapilheira atados com cordões. O bilhete, na altura em cartão grosso, furado ao centro, está hoje garantido no telemóvel. O revisor, assim que entro, depois de lhe dizer que tirei o bilhete online, pergunta-me pelo nome e "já está", até o som o "pica" está em extinção: fruto dos tempos modernos. Do mal o menos ou todos os males fossem este.

O meu destino final deste primeiro dia há de ser a Covilhã, na linha da Beira Baixa. Até à Guarda, esperam-me altos e baixos da linha da Beira Alta. A UTE (espero que seja esta a designação técnica correta para a automotora elétrica cinzenta e amarela que tomei) deixa a estação de Luso-Buçaco e vai a cavalgar até Vila Franca das Naves. E quando digo cavalgar, quero mesmo dizer que fomos aos saltos e saltinhos grande parte do caminho. Talvez seja sinal de que está, de facto, na altura de colocar a linha da Beira Alta em alta. Aliás, as atenções estão voltadas para isso, pois as obras já começaram entre a Pampilhosa (não incluindo qualquer intervenção nesta estação) e Santa Comba Dão. A empreitada começou pelas pontes: na de Várzeas e na de Trezói estendem-se lonas a tapar parte da estrutura, aproveitadas para referenciar a Comsa (grupo empresarial espanhol, que está a executar os trabalhos, focado no desenvolvimento de infraestruturas e engenharia industrial) e a IP - Infraestruturas de Portugal, dona da obra. Depois das pontes serão os túneis, depois os carris e o encerramento temporário, mas longo, daquele que é o principal corredor de mercadorias entre Portugal e o estrangeiro.

O cavalgar para a partir de Vila Franca das Naves e deslizamos até à Guarda. Não sou técnico, mas sendo o comboio o mesmo, a diferença só pode estar na qualidade da linha.

O regional das 12h44 chegou ao Luso com pouca gente e com pouca gente seguiu até ao destino. Na Guarda desceram 9 pessoas. Poucas. Muito poucas.

É preciso "estratégias para que as pessoas se identifiquem com o serviço"

A frase não é minha. É de Gabriel Fonseca, professor, que esteve ligado ao movimento de defesa da linha da Beira Baixa. Cresceu a brincar nos carris da Beira Alta, mas foi a Beira Baixa que mais utilizou nos tempos de estudante na Covilhã, ou mesmo para ajudar os avós no olival que tinham para os lados de Benespera. Iam de comboio: eles e as ferramentas.

É também ele que nos diz que a estação da Guarda já teve outra vida. Hoje, sentados nos bancos exteriores, não vemos mais do que um descampado para além das linhas, onde poderá um dia nascer o prometido porto seco. Mas aqui já se carregaram durante largos anos, milhares de carros fabricados na fábrica de automóveis que existia mesmo em frente à estação ou até mesmo milhares de comboios de areia: os "areeiros", assim chamados por quem neles trabalhava. E Gabriel Fonseca chegou a fazê-lo em tempos de férias. É uma estação subaproveitada, portanto. Está nos arredores da cidade e falta-lhe ligação com o centro, uma rede de transportes estruturada, que permita aos guardenses que ali chegam, rápida e economicamente, chegarem ao centro da cidade.

Durante 12 anos até os comboios da Beira Baixa ali deixaram de chegar. A falta de investimento gradual na linha, no troço entre Covilhã e Guarda, levou ao seu encerramento em 2009. Vazio este que foi quebrado com a reabertura ao serviço de passageiros no dia 2 de maio passado. "Uma riqueza", diz-me o "Manel das Cabras" dentro do comboio, mas já lá iremos. Esta reabertura representa um investimento de mais de 50 milhões de euros (valores à data da adjudicação - 2017 - por parte do então ministro Pedro Marques) nesta ferrovia, que hoje está eletrificada e liga as duas cidades em 54 minutos por intercidades ou em 44 minutos com o comboio regional. Não... não me enganei nos números nem troquei a ordem... Basta consultar os horários no site da CP. É um contrassenso, mas é mesmo assim...

Contudo, "não chega ter comboios", lembra-nos o professor. O alerta fica feito. Agora é preciso ter quem ande neles e quem pretira o carro e prefira o comboio. E aqui, na renovada linha da Beira Baixa, são pontuais, muito pontuais.

Quando entro, o revisor chama-me pelo nome: "senhor Miguel Midões, muito boa tarde". Talvez pelo meu arregalar de olhos perante tamanha cortesia, apressou-se a explicar. "Sei como se chama porque tirou o bilhete online e só tenho dois clientes", explicou-me. E dois clientes é muito pouco para sustentar esta viagem do comboio. Ou as gentes destas terras se apressam a aproveitar esta mais-valia ou alguém se vai "botar" a fazer contas daqui a uns anos e o passo em frente pode voltar a andar às "arrecuas".

Entre o estudante do Peru as alfaces do "Manel das Cabras".

O "Manel das Cabras" (Manuel Matos) apanhou o comboio no apeadeiro de Barracão/Sabugal. Chamo-lhe assim, porque me permitiu fazê-lo. Foi ele, aliás, quem disse que o fizesse. Encontro-o a entrar no comboio já eu ia "engolido" pela paisagem. É quase impossível retirar os olhos das janelas e do horizonte, assim que a UTE cruza a autoestrada e começa a descer o vale. As aldeias vão pintando o verde acinzentado da serra e é impossível não nos sentirmos pequenos perante a imensidão da Estrela que nos espreita, quase, todo o caminho. "Isto fazia falta a toda a gente", diz Manuel Matos, "é rara a semana que não ande para cima e para baixo". Seguro pelas pernas vai um saco reutilizável e dá para perceber que, dentro, vão umas alfaces que traz da casa da horta para a casa da cidade. "Sem comboio, ia de autocarro até à Guarda e depois de lá ia de táxi até à aldeia. Ficava em, pelo menos, o dobro", referindo-se ao custo.

A carruagem é partilhada por nós e um jovem peruano a estudar na UBI - Universidade da Beira Interior. Está a utilizar o comboio para conhecer Portugal. Diz na inocência que "tudo o que forem cidades vou conhecer assim de comboio enquanto cá estiver". Já terá visto o mapa de Portugal, mas com certeza que lhe escapou espreitar o mapa da ferrovia nacional. Ao contrário de Aveiro, de onde vinha, que está ligada por ferrovia à Covilhã, são muitas as cidades que não têm comboio e mal sabe ele que até mesmo algumas das principais (as capitais de distrito), como Viseu, a maior cidade da Europa sem comboio, ou Vila Real, outrora atravessada pela linha do Corgo, ou Bragança, antiga estação terminal da linha do Tua. E mesmo outras, que tendo, estão francamente mal servidas: Portalegre, na linha do Leste, tem um comboio em cada sentido: pouco e de horário desajustado.

Voltando aos carris da Beira Baixa. A reabertura traz esperança, pelo menos a Gabriel Fonseca, mas também simboliza esperança para muitos portugueses que continuam a acreditar no potencial da ferrovia e no investimento que governo e CP - Comboios de Portugal - estão a realizar. Ainda assim, o plano, apesar de promissor, deixa de fora largas centenas de quilómetros de ferrovia que urge salvar. Estas e outras já encerradas, que podem reabrir (certos traçados ou linhas completas outrora desativadas). Mas faltará coragem política ou faltará o dinheiro?

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