"Os nossos hermanos são falsos"

Os habitantes de Mourão estão indignados com os autarcas espanhóis que sugerem o encerramento das fronteiras com Portugal, perante o aumento de casos de positivos de covid-19 na zona da raia, sobretudo em Reguengos de Monsaraz. Mas do lado espanhol a população aprova a ideia.

Cândida Capucho sempre ouviu os moradores de Mourão e da vizinha Villanueva del Fresno tratarem-se por "hermanos", mas hoje tem uma ideia diferente. "São uns ´hermanos´falsos", afirmava Cândida, proprietária do primeiro café à entrada de Mourão, para quem chega de Villanueva del Fresno, a cerca de 15 quilómetros.

É, sobretudo, pela proximidade e salutar vizinhança de décadas que não consegue perceber como é que os autarcas espanhóis querem fechar a fronteira com receio das localidades portuguesas. "Isto não se justifica, até estamos indignados com eles. Não se faz", diz à TSF a empresária alentejana, para quem, no caso da proposta dos dois municípios espanhóis vingar, será a economia de Villaneuva e Valência de Mombuey que mais tem a perder.

"Nós compramos quase tudo lá. Precisam mais eles de nós do que nós deles. Aqui há só um restaurante que pode ter maiores prejuízos, mas no resto são eles que perdem", justifica, contando com a confirmação de Nuno Ralo. Encara Villanueva del Fresno como uma povoação quase sua, onde tem amigos e faz as compras semanais para a casa. "É combustível, é gás e comida. É tudo o que faz falta", diz, assumindo que a população de Mourão "tem razões para ter ficado ofendida".

Mas por terras de Espanha a população aplaude a proposta que os dois autarcas enviaram ao governo da Extremadura. Alegam que estão "muito atentos ao que tem acontecido em Reguengos, onde morreram 16 pessoas e têm 130 ativos", segundo José Luís, enquanto destaca ainda os casos positivos registados "na Granja e Amareleja. Isto está por todo o lado".

Este proprietário de uma empresa de pneus assume que tem "dezenas de clientes portugueses" e até está disposto a arcar com os prejuízos por conta e risco, mas avisa que durante os próximos tempos não cruza a fronteira para Portugal. "Lamento muito, tenho muito amigos portugueses, mas eles, se quiserem, que venham cá trocar os pneus".

E o discurso estende-se a outros moradores, como é o caso de Cristina Rejas, que considera prioritário que "apenas possam circular livremente os trabalhadores transfronteiriços. Caso contrário estamos a abrir a porta ao vírus entre os dois países e vamos fazer-nos mal uns aos outros", justifica.

Além de proporem o fecho das fronteiras os autarcas espanhóis sugerem ainda um "protocolo sobre saúde pública transfronteiriça que contemple o controlo e isolamento da Covid-19.

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