A médica Sandra Brás, do hospital de Santa Maria
Reportagem TSF

Os olhos não usam máscara. Covid, a batalha das emoções no Santa Maria

O olhar de uma filha que não beija há um mês, o abraço que não se pode dar, a força das palavras, e os dias que nunca são iguais. Novas rotinas, outros cuidados. O que sentem os profissionais de saúde na linha da frente . Uma manhã no hospital de Santa Maria.

"Tira as luvas,

higieniza as mãos

tira a bata primeiro,

higieniza as mãos outra vez

já tiraste os óculos para lavar,

agora a touca,

retiras a máscara,

e vais-te lavar..."

O placard colado à parede soma dez passos.

A enfermeira acaba de passar a linha vermelha traçada no chão da Unidade de Internamento para doentes Covid, a primeira a abrir no hospital de Santa Maria. Do lado de cá, zona verde, a enfermeira fica apenas com a bata de trabalho e as socas. Este movimento há de repetir-se ao longo do turno de oito horas, uma e outra vez. As marcas no rosto são visíveis: "marca um bocadinho e dói também, é cansativo."

Vai almoçar, descontrair, "é preciso, senão uma pessoa fica maluca".

Não há queixas, nem lamentos, faz-se o que tem de ser feito.

Pergunto-lhe como é o contacto com os doentes, "Ui, é com aquele equipamento todo! Eles também usam máscara, mas falamos com eles, com os que conseguem falar, mais dois ou três pares de luvas e continuamos a tocar, os cuidados são os mesmos." E estes doentes têm mais medo do que os outros?

"Sem dúvida. Temos todos medos e angústias."

Trabalho de equipa

Zaragatoas, glicémias, temperaturas, medicação, almoços. Os que passam para o lado de lá da linha vermelha dão os números, do lado de cá, na zona verde, verificam-se e atualizam-se as fichas de cada doente.

O vestir e o despir, o entrar e o sair, cada passo é vigiado, orquestrado, o ensaio é permanente, o número de pessoas que entra nos quartos tem de ser reduzido ao mínimo possível : "Se alguém comete uma falha num passo, tudo o resto vai atrás e cai." A garantia é deixada por Sandra Brás, co-coordenadora da unidade de internamento para doentes Covid: "É tão importante aquilo que eu faço como o que faz o enfermeiro, ou o assistente operacional."

Para a médica que vai resistindo ao cansaço, ainda que a voz o deixe perceber, para a médica Sandra Brás, há já um diagnóstico traçado, "isto vai ser importante para aprendermos a dizer aos outros que gostamos deles. A maioria de nós tem muitas coisas boas na vida, depois de vermos tantas coisas a correr mal para outros, relativizamos, passamos a resmungar menos."

"Esta situação põe-nos à prova." A prova do amor daqueles que aceitam a escolha de eles estarem ali, dos que estão de saúde e vivos, e que ficam à espera.

Um alemão recuperado

É o caso de Thomas Wilker. O alemão, de 56 anos, acaba de passar a linha vermelha. É um dos recuperados. Tem alta e não esconde a alegria. Thomas benzeu-se, explica que rezou todos os dias, e o sinal da cruz, que desenhou com as mãos, no exato momento em que passou aquela fita vermelha colada ao chão, "foi o agradecimento pelo final feliz". Sandra Brás pergunta-lhe se tem dúvidas, se precisa de ajuda, Thomas agradece os cuidados, elogiando o esforço e a dedicação de toda a equipa , "they did a wonderfull job". Foram 20 dias, " a long, long time". Estava com a mulher nos Açores, de férias, e antes de regressar a casa, passaria três noites em Lisboa. Os primeiros sintomas surgiram, e Thomas é internado a 20 de março, "foi um dos que podia ter corrido muito, muito mal", explica Sandra Brás. Ele descreve os dias de angústia "up and down", um carrossel de emoções fechado num quarto de quatro pessoas, noites em branco. A médica justifica: "Muitos dos doentes internados já têm episódios de confusão, e aqui entram em delírio. Dormem de dia, estão acordados de noite, gritam..."

O telefone toca. O agente de viagens confirma os últimos detalhes da viagem de regresso marcada para aquela tarde, e ele já só pensa em estar com a família, em ver os amigos. Haverá algo mais que queira fazer, assim que aterrar em Berlim? " Beber uma boa cerveja alemã." E agora, ele parte, "bye bye, thank you", " Be happy", deseja-lhe Sandra Brás.

Cada um toma conta dos outros

No Santa Maria, não há um único profissional infetado, "nem médicos nem enfermeiros, nem auxiliares, ninguém fez uma zaragatoa que fosse positiva". Carlos Neto, enfermeiro-chefe das urgências, sublinha o facto para realçar os cuidados e os procedimentos adotados entre todos e por todos, " apesar de estarmos na linha da frente, e às vezes até sentirmos que somos um grupo bocadinho ostracizado". Às vezes, internamente, desabafa , olhando em volta e apontando a área das urgências, onde quase ninguém passa. Falamos cá fora, entre o edifício da urgência e as tendas de campanha montadas no exterior para receber os doentes suspeitos de Covid. Enquanto falamos, chegam três ambulâncias, INEM e Bombeiros; os de Mafra vinham protegidos a rigor, da cabeça aos pés. "É seguramente um caso suspeito", observa o enfermeiro- chefe, olhando para os dois auxiliares prontos já receber o doente, antes do exame mais detalhado do médico.

"A incerteza provoca, se calhar, medo em todos", conclui, rematando o ponto da conversa deixado lá atrás.

Mas o medo não tem só coisas más, o medo também aproxima as pessoas, como nos dizem a enfermeira Célia Cardoso e o enfermeiro Valdemiro Malenga. Ele acredita que os serviços estão agora mais humanizados: "Os doentes têm medo, nós temos medo, não digo que existisse uma barreira, mas agora a relação tem um modo mais sincero." O medo "aproxima, não afasta, não", reforça Célia Sousa.

Nos primeiros dias, "houve muita ansiedade", mas foi uma experiência única, um crescimento pessoal. Os dois acreditam que vão sair mais fortes. Eles e os outros. Célia Sousa já só pensa no dia em que possa abraçar e beijar a filha, que vê todos os dias, mas a quem não pode tocar. A máscara não esconde a voz embargada. Sobram as palavras da menina: "Amo-te mamã." E o olhar, "o olhar e a presença dela ajudam, mas é difícil". E Valdemiro: "A minha senhora foi para a terra, quando isto acabar vou buscá-la e abraçá-la." Falam todos os dias, "mas não é a mesma coisa"

A pensão da Raquel

"Querem entrar ?", convida a enfermeira Raquel Simões, da unidade de infeções respiratórias, localizada no piso 9, "eu costumo dizer que trabalho no rooftop". A vista sobre a cidade de Lisboa é magnífica, era ali que antigamente se tratavam os doentes com tuberculose, há mais de 30 anos, com banhos de sol no terraço. Agora o serviço foi desativado, por causa da Covid, e as instalações podem receber enfermeiros e outros profissionais que queiram descansar umas horas, ou passar a noite. Uma sala com oito cadeirões, outra com duas camas, e a maior com quatro. Junto à almofada, um pequeno mimo embrulhado em papel, com gel de banho e gel de duche, mais uma das muitas ofertas que chegam por estes dias ao hospital - "devem estar fartos do cheiro do gel do hospital", afirma ela enquanto volta a arrumar o pequeno embrulho atado com uma fita e um cartão. "Obrigado por estarem na linha da frente."

Ainda não tinham chegado hóspedes, mas o importante, diz a enfermeira Raquel, é "saberem que nós nos preocupamos com eles". Ela segue as rotinas e os procedimentos. Todos os dias veste a mesma roupa no caminho para o hospital, chega a casa, põe a roupa na varanda, toma banho; no outro dia de manhã, toma banho, tira a roupa da varanda, veste, e volta para o trabalho, "todos sentimos medo". Sozinha não deixa de manifestar as saudades da família. É sempre aqui que a máscara não consegue disfarçar o aperto no coração, "mas tem de ser".

A linha da frente e a retaguarda

"Devíamos ser pagas ao km", sugere Fátima Fernandes. Ela é uma das estafetas que foi desviada do serviço onde trabalhava para acudir aos pedidos Covid. Para que não haja gente a entrar e a sair, ela, como outras, vão à porta receber os recados, os pedidos chegam por telefone. Nem de propósito, toca o telefone de Balbina, outra das formigas que anda cima abaixo, a levantar encomendas do armazém, ou o que for preciso. É mais um pedido para o Serviço de Medicina Interna.

Empurram carrinhos iguais aos do supermercado, "que podiam ser maiores". O reparo é feito por Sandra, que nos confessa outras saudades: "a de cuidar do doente". Com mais de 20 anos de serviço, também ela foi desviada do serviço que ocupava, para dar assistência ao vaivém de pedidos, mas falta-lhe o contacto com as colegas e a porta próxima do paciente.

Também ela reforça a ideia: "É preciso a ajuda de todos."

Vai passar

O almoço está na mesa. Uns levam de casa, mas a ementa é variada. Muitas empresas fazem entregas no hospital, tentando desta forma ajudar e aliviar a pressão sobre os profissionais de saúde.

Caldo verde, frango, hambúrgueres, folhados de alheira...a lista não termina por aqui.

A sala é um improviso de cantina, rolo de papel, pratos avulsos, alguns já estão a beber café.

Estamos na ala da Unidade de Cuidados Intensivos, a tal onde só se entra de cógulas, perneiras, manguitos, 2 ou mais pares de luvas, máscara, óculos, viseira.

Visto de fora, tudo parece estranhamente calmo, "os nossos dias nunca são iguais", assegura a médica Sandra Brás, " aqui eu sinto-me cuidada".

Ali pode não haver monotonias, mas resiste a esperança: "Não é maio, se calhar não é junho, mas essa data chegará...irá passar! "

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