Ovelhas, sondas e morcegos: como está a mudar o vinho no Alentejo

A Herdade dos Coelheiros, em Arraiolos, está a adaptar-se às alterações climáticas que já foram sentidas nas colheitas dos últimos anos. O vinho ganha elegância, por uma questão de sobrevivência.

Temperaturas entre os 43 e 44 graus, chuva concentrada em períodos mais curtos e ventos fortes - as mudanças no clima já se fizeram sentir nas colheitas da Herdade dos Coelheiros, nos últimos três a quatro anos. Foi por essa altura que os enólogos João Raposeira e Luís Patrão meteram mãos à obra, para tentar garantir a sobrevivência do Tapada de Coelheiros, um dos vinhos mais conhecidos do Alentejo.

"O nosso objectivo é estar a produzir vinho daqui a 100 anos", sublinha Luís Patrão.

Na propriedade em Igrejinha, no concelho de Arraiolos, mil ovelhas pastam livremente no pomar e na vinha, mantendo o equilíbrio no ecossistema. "São os guardiões" da Herdade, afirma João Raposeira. O rebanho "controla os pastos no montado. Comem, tiram partido da comida e deixam excrementos", garantindo a "qualidade na floresta, de forma natural".

Com a aposta na diversidade, foram também colocadas quatro caixas de ninho de morcegos, que consomem as pragas das vinhas, e para atrair mais aves, estão a ser colocados abrigos naturais junto às galerias ripícolas, ou seja, junto à vegetação localizada nas linhas de água da Herdade de 800 hectares.

Azeite, nozes e cortiça são outros produtos disponíveis nos Coelheiros, mas o vinho é a marca por excelência da propriedade.

A maioria das vinhas é de sequeiro - não são irrigadas - para provocar algum stress às uvas. "É um risco", assume João Raposeira, acreditando que "é um risco que vai correr bem".

Os enólogos explicam que o stress de irrigação torna as uvas mais concentradas em compostos fenólicos. "A planta torna-se mais resiliente", explica João Raposeira, e o vinho, até agora encorpado, ganha finesse e elegância.

A mudança passa também pela redução da produção. Em vez de 400 mil, a Herdade dos Coelheiros produz nesta altura, 150 mil garrafas por ano. Mais caras, mas com mais qualidade.

"Estamos a preparar o futuro", sublinha Luís Patrão. Com as "mudanças bem visíveis" das alterações climáticas, "adaptar para sobreviver e produzir vinho daqui a 100 anos" é o lema da propriedade no coração do Alentejo.

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