País "não aprendeu" e está "muito pior do que há dois anos"

O engenheiro silvicultor Paulo Pimenta de Castro acredita que há "grande irresponsabilidade por parte de algumas empresas". A zona onde se iniciou o incêndio assiste novamente a situações de "cabos de média tensão a tocar na copa das árvores".

Dois anos depois, o território nacional apresenta muitas mais condições para avanço dos fogos, diz o professor e engenheiro Paulo Pimenta de Castro."O que encontrei no território é desolador. Está hoje muito pior do que há dois anos", assevera o engenheiro, no Fórum TSF.

"Se não houver uma intervenção forte, haverá grandes danos num futuro muito próximo", avisa Paulo Pimenta de Castro.

A situação reflete-se a nível nacional, mas, localmente, a zona afetada pelos fogos de 17 de junho de 2017 não apresenta também melhorias: "Aquele território, ao não ser alterado, está neste momento predisposto a alimentar ciclos contínuos de incêndios."

Paulo Pimenta de Castro trata ainda de exemplificar, ao frisar que há "grande irresponsabilidade por parte de algumas empresas". A zona onde se iniciou o incêndio assiste novamente a situações de "cabos de média tensão a tocar na copa das árvores", garante o engenheiro.

Para o professor, "a inexistência de um plano municipal não invalida a responsabilidade social por parte das empresas para intervir".

A permanência de "cadáveres de árvores que ainda não foram retirados" também preocupa Paulo Pimenta de Castro."Morreram de pé, e de pé continuam."

Além disso, o engenheiro fala de "varas queimadas a manchar maciçamente o território", pelo que depreende que "não há interesse na reconversão daquela cultura [eucaliptos]".

Os toros de madeira seca empilhados junto a zonas possíveis de fuga são outro fator a ser combatido, já que "qualquer fósforo ou beata de um incêndio que ocorra nas proximidades torna aquele local um foco onde os bombeiros não vão sequer conseguir estar".

Paulo Pimenta de Castro não tem dúvidas de que o país não aprendeu as lições que deveria ter retirado e salienta: "Não basta atirar com dinheiro para a região, é preciso necessariamente avançar com um exército para recuperar aquele local. Quanto mais tarde se avançar com a recuperação, maiores serão os custos para a sociedade."

O engenheiro considera que o investimento necessário deve ser canalizado para uma "nova cadeia de valor sem os habituais vícios".

Por seu lado, Duarte Caldeira, do Observatório Técnico Independente, considera que houve algumas melhorias. "Evoluímos positivamente nalguns domínios, mas a questão essencial está por tratar: Do mesmo modo que precisamos de repensar o país, precisamos de repensar serena e qualitativamente, numa lógica de coesão e continuidade política, o sistema de Proteção Civil que temos em Portugal", analisa, no Fórum TSF desta segunda-feira.

"A quatro meses das legislativas, este é o momento de fazer um apelo sério aos partidos políticos para que incorporem no debate que se vai seguir nos próximos meses e nos programas eleitorais propostas e respostas", diz o também presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil.

Duarte Caldeira deixa, por isso, questões que considera terem de ser respondidas: "Como é que se combate o despovoamento do território e consequente desertificação, como é que cria uma política de ordenamento territorial, como se reforça a Proteção Civil, que é um sistema municipal?"

Na mesma linha, o reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e grande impulsionador do Movimento pelo Interior, Augusto Fontaínhas Fernandes, acredita que "os partidos políticos têm de colocar na agenda eleitoral a questão da desertificação".

Para o reitor da UTAD, a questão demográfica já deveria ter sido vista antecipadamente, mesmo durante as europeias, bem como a "quebra de população em 38% nos últimos 30 anos no interior".

Na lista de temas a colocar em pauta cabem também as alterações climáticas e novas tecnologias, segundo Augusto Fontaínhas Fernandes, que frisa ser fulcral "repensar o modelo de organização do país".

* [Notícia atualizada às 12h39]

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