Nur Latif tem dupla nacionalidade: é palestiniana e brasileira
crise pandémica

"Para no futuro fazer pelos outros." Nur e Nataliya investem nos estudos num país sem emprego

Nur Latif e Nataliya Shpak estão entre os 50 jovens selecionados para serem guiados por mentores, num curso gratuito com o alto patrocínio do Presidente da República. Os sonhos são muitos, mesmo em tempo de pandemia. E a ambição principal é ajudar os outros.

Nur Latif não sabe dizer qual foi o melhor dia que viveu em Portugal. Tinha 18 anos quando um "momento mágico" de chegada a um "país lindo" lhe arredondou um mundo plano de certezas. Sabe-se "diferente", mas nunca se sentiu estranha em solo português. "Claro que todas as pessoas são diferentes, mas sou diferente daquilo que as pessoas aqui conhecem. Sou muçulmana, uso lenço e falo com sotaque brasileiro, mas sou da Palestina."

Durante anos, pesquisava no mapa os lugares que viria a encontrar na terra das novas promessas e dos recomeços. Essa terra é Portugal, em especial, o Porto, onde o ideal da academia encontrou o norte. ​​​​​​"Eu sempre sonhei com esse momento, com viajar e estudar. Quando cheguei, não conseguia acreditar que estava aqui e que estava na faculdade."

Em 20 anos de vida cabe o mundo de quem se põe a caminhar. De Portugal à Palestina, a jornada de quem ousa sonhar. Pai palestiniano, mãe brasileira, e os dois irmãos, ficaram à distância dos abraços invisíveis e das saudades que em três anos só fizeram contas de somar.

"Era tudo o que eu queria, mas eu não percebia nada, nem as pessoas, nem como entendê-las, nem como viver sozinha..." Hoje, no terceiro ano de Psicologia Aplicada na Universidade do Porto, Nur Latif, palestiniana brasileira que quer trabalhar em apoio humanitário, vê-se de novo sem rumo, com uma pandemia a compor o ritmo próprio do planeta. "Eu ia comprar a passagem [bilhete de avião] quando começaram a fechar tudo", conta à TSF. "Quando começou a pandemia, eu não tinha nada para fazer, e fiquei muito sozinha num apartamento que antes tinha cinco pessoas. Só estudava..."

O programa Elevate Leadership da Academia Paul Harris, acessível e gratuito a apenas 50 candidatos selecionados, mudou tudo. Nur Latif ficou entre as candidaturas escolhidas, e não conseguiu esconder o espanto. "Eu faço sempre o meu melhor em tudo, mas tenho sempre a ideia de que não vou conseguir. Mas consegui, e eu queria muito."

"Interessei-me muito, porque procuro sempre envolver-me em projetos que envolvem conhecimento. Eu entrei em Psicologia porque sempre gostei de lidar com pessoas e questões humanitárias. Eu sou da Palestina, já vivi muita coisa. Queria trabalhar com pessoas refugiadas, e este programa vai ajudar-me muito." Ainda sem trabalho, a estudante tenciona investir no desenvolvimento de competências de liderança, para aprender "como ser uma boa líder".

"Às vezes tenho ideias, mas não consigo encontrar a melhor forma de a apresentar", admite. Ansiosa pelas tarefas que a academia vai propor, a palestiniana brasileira defende que os estudos são responsáveis pela "melhor versão de nós próprios". O plano é ambicioso. "Sinto que quero ajudar mais o povo palestiniano. Sempre quis estudar para poder ajudar."

Sérgio Almeida, mentor da iniciativa, salienta que a gratuitidade do curso é uma ideia que surge "por força do momento que estamos a viver", não só de crise sanitária, como de agudização das dificuldades económicas, de forma a fornecer "mais ferramentas para fazer frente às dificuldades que hoje enfrentamos".

Os concorrentes são pessoas que terminaram o ensino universitário, ou que estão a trabalhar mas querem apostar noutras áreas, ou mesmo pessoas desempregadas que se querem capacitar. Tal como Nur Latif, também outros 49 candidatos, com idades compreendidas entre os 20 e os 30 anos, preencheram um "formulário em que falaram das suas motivações, por que querem participar".

"Todos gravaram um vídeo com a sua mensagem, em que partilhavam a sua convicção e a sua vontade de participar no programa", completa o professor e fundador do Brain Research Institute, uma entidade sem fins lucrativos que desenvolve estudos em neurociência e comportamento.

Nesta formação, o percurso pessoal "é muito valorizado". Sérgio Almeida destaca o equilíbrio que o programa vem fornecer: dar "crescimento profissional, através do desenvolvimento de competências, mas também do crescimento pessoal", para que cada participante evolua enquanto ser humano. "Estamos também a falar do futuro do país. São só 50 jovens, mas, se pudermos mudar a vida de alguém, se pudermos dar as ferramentas... É muito importante que estes jovens acreditem que é possível ter sucesso nesta vida pela via ética."

"Utilizar uma base ética para se promover no mercado laboral" é uma das metas estabelecidas, refere o representante da academia. "Poder fazer a diferença, não só porque se é bom profissional, mas também porque se é alguém que pode levar esses valores à sociedade. Isso foi tido em conta no processo de candidaturas."

Autoconhecimento, inteligência emocional, criatividade, liderança, comunicação, marketing, gestão de conflitos, gestão de projetos e empreendedorismo fazem parte do currículo, e a iniciativa tem a particularidade de "integrar jovens migrantes e refugiados".

O Elevate Leadership é um programa que durará seis a sete meses, e foi desenvolvido em parceria com a Universidade Católica Portuguesa e com a Fundação AEP. Tem o alto patrocínio do Presidente da República, e o apoio da Fundação Manuel António da Mota, da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) e do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS).

Nataliya Shpak fica feliz com o envolvimento da PAR e do JRS. Tem interesse em matérias de direitos humanos, economia e direito internacional, e é recém-formada em Relações Internacionais, na Universidade do Minho. Aos 26 anos e acabada de chegar ao mercado de trabalho, a ucraniana só lamenta a falta de oportunidades que a a crise sanitária provocou. "Nunca conseguiria dizer algo de mal de Portugal. Neste momento, não há trabalho, mas de resto..."

Desde muito cedo, quando as outras crianças brincavam, Nataliya Shpak ia para a escola de música e para o curso de informática empenhar-se na construção do futuro. Aos 14 anos, chegou a Portugal, e sempre quis retribuir a receção calorosa que o país lhe ofereceu. "Foi muito bom, fui muito bem recebida. Nunca ninguém se riu de mim quando comecei a falar português. Eu queria mostrar-lhes que dava o meu feedback ao trabalho deles."

Hoje, Nataliya Shpak pertence a uma associação de eslavos, "para conhecer mais culturas", já deu aulas sobre violência no namoro, mas espera aumentar a credibilidade no mercado laboral, "melhorar as 'skills 'de líder e encontrar um trabalho decente".

"Mais vale fazer alguma coisa agora por mim para no futuro poder fazer pelos outros. Eu gosto de ajudar as pessoas. E os animais também."

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