"Perdeu-se uma oportunidade" para adaptar as cidades às bicicletas

A pandemia fez aumentar o número de pessoas a andar de bicicleta, mas as associações de defesa da mobilidade sustentável lamentam que não tenham sido tomadas medidas para incentivar o uso das duas rodas.

O Dia Mundial da Bicicleta, que se assinala esta quarta-feira, não vai ter as habituais iniciativas de passeios em grupo porque as regras do desconfinamento ainda não permitem grandes concentrações de pessoas. A data é comemorada de forma discreta e com pedidos para acelerar a transformação das cidades.

Nos últimos meses, as bicicletas parecem ter conquistado algum espaço aos automóveis, mas as associações que defendem o uso da bicicleta receiam que essa conquista seja efémera e que tudo volte ao normal quando a população regressar por completo à rua.

Tanto a Associação para a Mobilidade Urbana em Bicicleta (MUBi)​​​ como a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicletas (FPCUB) dizem ter notado um aumento da utilização da bicicleta desde que a pandemia se instalou.

"As pessoas utilizaram mais a bicicleta do que é habitual" como meio de transporte alternativo, sobretudo "para deslocações curtas, até 10 ou 12 kms", diz à TSF o presidente da FPCUB, José Manuel Caetano, que fez um levantamento junto de algumas lojas e percebeu que várias delas "venderam mais bicicletas do que é normal", especialmente a mulheres. As próprias oficinas de bicicletas também estão a ter mais trabalho do que o habitual porque "as pessoas voltaram com as bicicletas às oficinas para as terem operacionais".

Esta perceção é partilhada pela MUBi, que diz ter observado nas redes sociais vários comentários de utilizadores reportando stocks de bicicletas esgotados nas lojas e oficinas com dificuldades em dar vazão aos pedidos de reparações.

Durante os estados de emergência e calamidade, estas duas entidades alertaram para a "oportunidade" de se introduzirem medidas de incentivo à utilização da bicicleta, fosse com medidas políticas ou com alterações no espaço público.

"Houve uma janela de oportunidade que muitas cidades [estrangeiras] utilizaram quando havia menos carros na rua", sublinha o presidente da MUBi. Rui Igreja apela à necessidade de "retirar o espaço que antes era ocupado pelos carros para o dedicar às pessoas", implementando a chamada "humanização das cidades", assunto que era "importante e prioritário antes da pandemia" e que "agora é quase uma emergência". Com o regresso paulatino à vida normal, Rui Igreja considera que se torna "politicamente mais difícil tomar essas opções".

Com críticas à "inação dos governantes" portugueses, o presidente da MUBi acredita no entanto que ainda há tempo para implementar medidas que promovam a utilização da bicicleta. Esta quarta-feira, a Comissão Parlamentar de Ambiente discute propostas de vários partidos para incentivar modos ativos de transporte e mobilidade, entre eles a concretização da estratégia nacional para a utilização da bicicleta. A par da discussão do orçamento suplementar, o dirigente considera que há pela frente "diferentes momentos onde o Governo tem uma excelente oportunidade para dar a volta a isto".

A mesma reivindicação de "ganhar espaço aos veículos motorizados" é feita pela FPCUB, que vai aproveitar este dia para apresentar ao primeiro-ministro e ao presidente da Assembleia da República um conjunto de propostas tendo em vista incentivar o uso da bicicleta. José Manuel Caetano está particularmente preocupado com os transportes públicos, que considera serem o "calcanhar de Aquiles" do período de normalização. O dirigente federativo teme que o receio das pessoas com a sobrelotação dos transportes públicos as leve a "pensar em usar o automóvel" e assim impedir a opção mais saudável e ecológica da bicicleta.

Entre as críticas da MUBI está também o facto de a Direção-Geral da Saúde (DGS) não ter incentivado a utilização da bicicleta nos últimos meses. "Durante a crise pandémica, a utilização da bicicleta ou o andar a pé nas deslocações necessárias é aconselhado pela Organização Mundial da Saúde. Temos pena que em Portugal a DGS não acompanhe essas recomendações", diz Rui Igreja, lembrando os casos de Espanha ou Alemanha, onde os ministros da saúde "vieram dizer que é um modo de transporte seguro e saudável".

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