Julian Perelman é especialista em economia da saúde
Saúde

Perelman pede "modelo ambicioso" para os centros de saúde e desafia Governo a "enfrentar interesses estabelecidos"

Julian Perelman defende que os centros de saúde devem ser a porta de entrada para resolver problemas ligeiros, como o corte num dedo ou a febre de uma criança, pedindo "um modelo ambicioso" para uma saúde de proximidade. Em entrevista à TSF, o professor da Escola Nacional de Saúde Pública avaliou o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que tem 1400 milhões de euros para a saúde, desafiando o Governo a "enfrentar interesses estabelecidos".

O investigador explica que o "investimento" dos fundos europeus vai permitir que Portugal tenha "equipamentos melhores, mais camas de cuidados continuados, com centros de saúde mais equipados e uma transição digital importante", ainda assim, admite que "não é evidente que tenhamos uma saúde melhor".

"Os problemas estruturais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) não ficam resolvidos com este investimento. Como a questão dos recursos humanos e do planeamento. Vamos ter infraestruturas melhores, mas se não conseguirmos resolver o problema da governação, os investimentos podem não corresponder às necessidades", explica à TSF.

Além de melhores salários, Perelman indica que o Governo tem de definir os indicadores e os objetivos para os médicos de família, de forma a tornar a profissão mais atrativa para os novos profissionais, evitando que optem pelo estrangeiro.

Os serviços de urgência "têm um efeito disruptivo" nos hospitais, com os profissionais de saúde "a perderem tempo" para os serviços não urgentes, como as cirurgias, pelo que é necessário apostar na "saúde de proximidade".

"Os centros de saúde devem ser a porta de entrada para os cidadãos. Principalmente quando estamos a falar em situações agudas, mas ligeiras, como uma criança que tem um vírus ou uma pessoa que se cortou. Para resolver estas questões, não é preciso uma máquina hospitalar a funcionar", explica.

Centros de saúde devem ter horário alargado

O PRR fala na possibilidade de "fazermos exames e do reforço dos equipamentos, mas não nos diz o mais importante: qual a possibilidade de o médico de família resolver pequenas situações agudas". Perelman defende que os centros de saúde devem ter uma maior capacidade de respostas, "mas o PRR não nos diz como vai ser feito".

"As pequenas situações agudas não acontecem entre as 09h00 e as 17h00", período de funcionamento dos centros de saúde, pelo que as unidades de saúde "devem dar resposta fora do horário normal".

"Isto não tem a ver com o PRR, nem com o investimento. Tem a ver com a forma como gerimos os recursos humanos", acrescenta. O investigador sublinha ainda que uma maior capacidade de resposta dos centros de saúde "vai contribuir para desentupir os hospitais", que têm, nesta altura, consultas e cirurgias com longas listas de espera.

Perelman espera que, com o fim da pandemia, o Governo aproveite para fazer as reformas no SNS, caso contrário, "vai haver sempre a suspeita que se aproveitou a pandemia para não tratar das questões importantes".

"Os problemas da falta de camas e de profissionais estavam lá há três e cinco anos, mas ficaram evidentes com a pandemia. Agora, espero que se possa voltar a falar das questões fundamentais", sustenta.

Aos governantes, o investigador pede "que não se concentrem excessivamente nos hospitais", até porque a resolução das consultas e cirurgias em atraso resolve-se "com o que acontece antes e depois".

"É necessário um novo modelo ambicioso para os centros de saúde, com um médico e enfermeiro de família para toda a população", diz. O investigador acrescenta ainda os cuidados continuados e admite que "aí o PRR traz elementos interessantes", como o aumento de camas e melhoria das instalações.

"Temos de mudar contextos: fumar pode ser mais caro"

A saúde pública "está frágil", e é necessário que o país tenha políticas para uma "boa saúde pública", embora Perelman admita que não é adepto da "educação da população, como aponta o PRR", e dá o exemplo do tabaco.

"O que é que faz com que as pessoas deixem de fumar? Já toda a gente sabe que faz mal à saúde. É quando mudamos o contexto: fumar pode ser mais caro do que hoje em dia e não se deve deixar fumar as pessoas em locais públicos", argumenta.

Quanto às metas do PRR, como o aumento de camas em unidades de cuidados continuados e paliativos, assim como a transição digital no sistema de saúde, o investigador alerta que o país "arrisca-se a ter plataformas fantásticas que ninguém vai alimentar", caso não sejam contratados técnicos especializados para cada área.

Na opinião do investigador, é importante perceber qual o nível de prioridade do futuro Governo "para fazer reformas e enfrentar interesses estabelecidos" e, mais do que o perfil do ministro da Saúde, qual o trajeto que o Executivo deseja seguir na saúde. Perelman fala num "guião" que deve ser definido pelo Governo, que começa no primeiro-ministro e passa pelo ministro das Finanças.

"Sobre o serviço público sabemos tudo, sobre o privado não sabemos nada"

Já sobre a importância dos privados na saúde em Portugal, o investigador entende que "já existe uma delegação de competências", com os grandes hospitais a comparem serviços "todos os dias" aos privados, que "têm ganho espaço, muito à custa dos problemas do SNS".

Perelman acrescenta que "fica muito preocupado, que não seja claro quais são os equipamentos exatos dos privados". Durante a pandemia, levantou-se a questão do número de camas nos privados, "mas ninguém sabe".

"Que equipamentos existem e que profissionais lá trabalham? Sobre o serviço público sabemos tudo, sobre o privado não sabemos nada. O setor público negoceia em total desigualdade com o privado", atira, pedindo "uma verdadeira regulação do setor privado" pelo Estado.

Marta Temido? "Saúde tem de ser prioridade em todo o Governo"

Questionado sobre o papel de Marta Temido, atual ministra da Saúde, para resolver os problemas complexos e estruturais do SNS, Julian Perelman prefere focar-se no Governo como um todo, já que "o ministro pode ser excelente, mas se a saúde não for a prioridade" os problemas vão continuar a existir.

O professor da Escola Nacional de Saúde Pública defende que o primeiro-ministro e o ministro das Finanças "tem muito peso" e devem dar as ferramentas ao Ministério da Saúde para "fazer reformas".

"Podemos ter uma ministra da Saúde altamente empenhada e com um perfil impecável, mas se o tema da saúde não é prioritário, não vai conseguir" atingir as metas a que se propõe.

Julian Perelman salienta que os governantes devem definir, logo à partida, "o nível de prioridade para fazer reformas na saúde e, portanto, enfrentar interesses estabelecidos".

O investigador nota, no entanto, "que o ministro, quando entra em funções, fica assoberbado pelos problemas do dia-a-dia", como a falta de pediatras ou a demissão de médicos. Citando Constantino Sakellarides, que foi diretor-geral da Saúde, o investigador defende que o Governo deve pensar "num modelo de mudança" consensual no Governo e, "preferencialmente também com a oposição".

"Não pode ser a ministra a pensar sozinha no que fazer. Esta é uma questão fundamental que depende muito mais do primeiro-ministro", atira.

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