Tinta "não impregnou". Pintura no Padrão dos Descobrimentos removida sem deixar marcas

Foi mais fácil do que se pensava a limpeza do monumento que foi vandalizado com palavras em inglês. A diretora, Margarida Kol Carvalho, admite pedir mais vigilância à Câmara, para evitar mais atos desta natureza, que já se aconteceram outras vezes.

"Blindly sailing for monney [sic], humanity is drowning in a scarllet [sic] sea lia [sic]", ou, em português, "Velejando cegamente por dinheiro, a humanidade afunda-se num mar escarlate", palavras pintadas a azul e vermelho no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, passaram à História, tendo sido removidas sem deixar marcas no monumento. A garantia é dada à TSF pela diretora, Margarida Kol Carvalho.

A responsável explica que o processo não foi tão difícil quanto se esperava. "A partir do momento em que fui informada, e trabalhando com o conselho de administração, com a equipa do Padrão, com o apoio dos serviços da Câmara, organizou-se tudo. Ao final da tarde de domingo, estava tudo organizado para a intervenção logo de manhã, de modo também a minimizar o impacto."

Margarida Kol Carvalho reconhece que "felizmente, a tinta não tinha impregnado, e o trabalho foi mais fácil e mais rápido" do que o esperado. Depois de o Padrão dos Descobrimentos ter sido vandalizado com um 'graffiti' numa das laterais, a diretora não fecha a porta ao reforço da segurança em torno do monumento.

"Não tivemos ainda tempo de pensar nisso. No exterior, esse policiamento não nos compete, em termos da empresa de segurança que aqui está e que vela por este espaço todos os dias, e que faz rondas exteriores também." É, por isso, "uma questão a ponderar, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa".

Esta não foi a primeira vez que foi registado um ato de vandalismo a obras com valor histórico. Quer o Padrão, quer a Rosa-dos-Ventos, de 50 metros de diâmetro, oferecida pela África do Sul a Portugal, e que está no solo junto à entrada do monumento, já foram alvo de ações deste género. "Por vezes, são vítimas de agressão, de atos de vandalismo. A Rosa-dos-Ventos, particularmente. Por vezes, arrancam propositadamente partes de pedra ou aqueles escudos que se encontram no estandarte, junto ao mapa da Península Ibérica..." Por isso, a conservação e manutenção do espólio é um "trabalho contínuo e difícil", reconhece Margarida Kol Carvalho.

De acordo com o site Slave Voyages, uma base de dados do tráfico de escravos transatlântico, as navegações portuguesas foram responsáveis pelo tráfico de quase quatro milhões de pessoas só para a América do Sul. A caravela estilizada com o infante D. Henrique à proa, e com mais 35 navegadores, é para muitos um símbolo do colonialismo, e até já surgiu a proposta de que fosse destruído. Margarida Kol Carvalho assegura que essa é uma tendência à qual está atenta: "É um movimento de contestação que não se faz só em Portugal, mas no mundo inteiro."

No entanto, a diretora refuta as críticas, e afirma que o monumento serve também para refletir sobre o passado. "Temos trabalhado, nestes últimos anos, muito particularmente as questões do império, do colonialismo e das memórias coloniais, através de um estudo e reflexão crítica desses temas", sustenta.

Antes da pandemia, o Padrão dos Descobrimentos recebia diariamente quase mil visitantes. Agora são menos, mas quem por lá passar nestes dias poderá ver a exposição de fotografia "Visões do Império", que inclui retratos do colonialismo português no final do século XIX. Este é um exemplo do trabalho feito no Padrão, "de partilha de conhecimento, baseado na investigação, no contributo de muitos investigadores da academia, de acolhimento de projetos, de organização de novos projetos", esclarece a responsável, que fala de um "trabalho lento" que tem vindo a ser feito. "Temos promovido uma abertura e uma reflexão crítica sobre as várias temáticas que trabalhamos", assinala.

O monumento original era em gesso e foi concluído em 1940, para a Exposição do Mundo Português. O Padrão que os portugueses hoje conhecem só foi construído 20 anos mais tarde.

A homenagem ao infante D. Henrique chegou a ser pensada para o promontório de Sagres, mas, depois de dois concursos falhados, à terceira foi de vez, e, em agosto de 1960, o Padrão dos Descobrimentos foi inaugurado junto à Praça do Império.

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