Portugueses procuram máscaras, mesmo que não precisem. Vendas aumentaram 1829%

Portugueses ignoram as recomendações da OMS e DGS e lançam-se na corrida às máscaras nas farmácias.

Desde que o surto do novo coronavírus (Covid-19) chegou à Europa, centenas de portugueses correram a comprar máscaras e desinfetantes. A Organização Mundial de Saúde (OMS) já alertou para os riscos do açambarcamento e acumulação, mas não faltam relatos de farmácias onde já falta material de proteção.

É o caso da farmácia Reis Oliveira, em Lisboa, onde o stock de máscaras, desinfetantes e até álcool etílico com 70 ou 96 graus estão esgotados há pelo menos três semanas. Há mais de 150 doentes em fila de espera para comprar estes produtos, mas também as "centenas de fornecedores estão em rutura", pelo que não têm garantias de quando poderão retomar a distribuição.

Os primeiros a comprar máscaras de forma massiva foram os cidadãos de origem chinesa, conta à TSF a diretora-adjunta desta farmácia, Mafalda Aleixo. Muito antes de o surto fazer manchetes em todos os jornais muitas pessoas gastavam de uma só vez centenas de euros máscaras para enviar para a China.

Assim que foi confirmado o primeiro caso de Infeção em Itália, os portugueses começaram a fazer o mesmo. A farmácia viu-se desde aí obrigada a regrar as vendas e tentar consciencializar os clientes. "Assim que começámos a perceber que a procura era muita começámos a ratear o produto nas despensas para que chegasse para todas as pessoas interessadas. "Se fosse pelos utentes, todos levavam o que conseguiam".

Procura aumentou 1829%

A procura por máscaras descartáveis em Portugal aumentou 1829% em fevereiro face ao período homólogo do ano passado, revela a Associação Nacional de Farmácias (ANF) à TSF.

Só de janeiro para fevereiro o aumento das vendas nas farmácias foi exponencial, tendo passado de 92.528 embalagens de máscaras vendidas em janeiro para 419.539 em fevereiro, um crescimento de 353,4%.

O mesmo se verifica com a procura por desinfetantes, que subiu 136,9%, com 198.939 embalagens vendidas em fevereiro, mais 114.950 que em janeiro.

A ANF reconhece falta de material de proteção nas farmácias e que "o mercado está a ser abastecido abaixo da procura", mas assegura que não há uma rutura de total de stocks.

Apesar de não haver uma diretiva comum a todas as farmácias, nem terem sido impostas quaisquer restrições à venda, a ANF considera "expectável que estejam a ser dadas indicações aos utentes" que adquiram máscaras e desinfetantes.

"Não temos maneira de garantir tudo aquilo o que é dito ao balcão das farmácias", nota Lígia Garcia, mas foram disponibilizadas às farmácias materiais para entregar aos utentes sobre máscaras, nomeadamente quem as deve usar e como devem ser colocadas e retiradas.

Esta semana, o ministro da Economia afirmou não existirem "preocupações" ao nível do abastecimento e stocks de produtos no setor farmacêutico e garantiu que o surgimento de novos casos de Covid-19 não vai "mudar de forma radical" estas circunstâncias.

Contactados pela TSF, a ADIFA - Associação de Distribuidores Farmacêuticos e a Apormed - Associação Portuguesa Das Empresas De Dispositivos Médicos afirmam apenas que estão e contacto com as autoridades de saúde e que "não podem nesta altura pronunciar-se" sobre este tema.

Usar ou não usar?

O coronavírus pode ser transmitido através de gotículas libertadas durante a fala, tosse ou espirros, habitualmente num raio inferior a um metro de distância, pelo que o uso de máscara faz sentido para profissionais de saúde e doentes que suspeitem estar infetados ou cujas análises tenham confirmado a infeção. Caso diferente é o de pessoas saudáveis que apenas estejam preocupadas com a prevenção.

Tanto a Direção-geral da Saúde como a Organização Mundial de Saúde não recomendam o uso de máscara em Portugal, uma vez que não existem evidências de que impeçam a propagação do surto. Dão apenas "uma falsa sensação de segurança".

Além disso, as máscaras podem inclusive levar à acumulação de vírus - que podem passar para as mãos - e quando mal colocadas e mal retiradas não funcionam.

Para evitar o contágio, é preferível apostar na correta higienização das mãos. Segundo as recomendações da OMS estas devem ser lavadas com água e sabão, esfregando bem durante pelo menos um minuto - sem esquecer os espaços interdigitais, o polegar e as pontas dos dedos - especialmente antes e após a preparação de alimentos ou as refeições, após o uso da casa de banho e sempre que estejam sujas.

É também aconselhada a boa etiqueta respiratória: tossir ou espirrar para o braço com o cotovelo fletido, e não para as mãos, usar lenços de papel de utilização única para se assoar, deitar os lenços usados num caixote do lixo e lavar as mãos de seguida.

Riscos da acumulação

A Organização Mundial de Saúde teme que se esgotem rapidamente as reservas de equipamento de proteção individual, estimando que, por mês, sejam necessários mais de 89 milhões de máscaras cirúrgicas, 76 milhões de luvas e 1,6 milhões de óculos de proteção. Sem eles, os profissionais de saúde de todo o mundo na linha da frente da luta contra o novo coronavírus ficam "perigosamente desprotegidos".

"A capacidade de resposta dos países está comprometida pela desorganização grave e crescente da oferta mundial de equipamentos de proteção individual, provocada pelo aumento da procura, a acumulação e o mau uso", alertou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Também no OLX as vendas aumentaram, motivando a plataforma de de compras e vendas entre particulares a suspender a venda destes produtos para evitar a especulação de preços.

Em França, o Estado requisitou "todo o stock e produção de máscaras protetoras" para distribuir pelos profissionais de saúde e pessoas com o novo coronavírus e mesmo fizeram Alemanha e Rússia, proibindo a exportação deste tipo de material, salvo em caso se destine a ajuda humanitária.

Já em Portugal, foi esta semana notícia o desaparecimento de máscaras de proteção no serviço de Medicina do Hospital de Santa Luzia, em Elvas, em circunstâncias por apurar. A Unidade Local de Saúde do Norte Alentejano (ULSNA) abriu um inquérito interno.

Os doentes que manifestem sintomas compatíveis com os de contágio pelo novo coronavírus - febre, tosse e dificuldade respiratória - são aconselhados a contactar a Saúde 24 (808 24 24 24), em vez de se dirigirem às unidades de saúde.

LEIA AQUI TUDO SOBRE O COVID-19

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de