PRR sem "visão de futuro": "Podemos estar a criar miniaeroportos de Beja um pouco por todo o lado"

Pedro Pita Barros lamenta que o PRR "não tenha uma visão de futuro" e deixe de lado "uma verdadeira transição digital".

Pedro Pita Barros lamenta que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) não aposte na transição digital e não tenha uma visão a dez anos para o sistema nacional de saúde, que deve ser encarado "como um todo". Em entrevista à TSF, o professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa alerta que, em 2026, Portugal pode ter mais do mesmo, "apenas com melhores equipamentos".

Criticando a falta de visão para o futuro, o investigador começa por questionar se o Governo já se tem uma ideia clara sobre os custos de funcionamento dos novos equipamentos ou se vão ficar parados sem manutenção".

"Podemos estar a criar miniaeroportos de Beja um pouco por todo o lado", exemplifica, utilizado "uma imagem cruel".

Pedro Pita Barros considera que o PRR, "em alguns aspetos", é favorável ao setor da saúde, "mas muito do que foi incluído tem que ver com ideias e projetos com dez anos que nunca foram concretizados por falta de fundos".

"São projetos que não são para os próximos dez anos, mas sim o que gostaríamos de ter feito. E está muito centrado no SNS, e não no sistema de saúde como um todo", defende, acrescentando que a transformação digital deve ser pensada com sistema público e privado.

O investigador defende que, na sua opinião, o "pensamento do PRR não está alinhado com uma visão de futuro".

"Daqui a dez anos não vamos querer usar boots de interação para a primeira triagem?"

Pedro Pita Barros admite que, depois da execução dos fundos europeus, o receio "é que tenhamos muito do que temos hoje, mas com uma melhoria de equipamentos", dando o exemplo do investimento nos cuidados de saúde primários.

"Daqui a dez anos não vamos querer usar boots de interação para a primeira triagem?", questiona, lembrando que a linha de saúde 24 utilizou inteligência artificial para o primeiro diagnóstico dos doentes com Covid-19.

Ainda assim, o professor elogia "a visão integrada do Governo", mas defende que a transição digital deveria ser uma maior aposta, com uma visão "a dez anos".

"Será que conseguimos criar, através de algoritmos, sinais de alerta de que determina pessoa precisa de ser observada com mais regularidade para evitar os riscos de ter diabetes?", questiona.

Sobre o aumento do número de camas, o investigador admite que "é a forma mais fácil para mostrar à Comissão Europeia que estão a fazer alguma coisa", mas alerta que "que se pode estar a perder uma oportunidade" para modernizar o sistema de saúde.

Profissionais devem ter um programa "tipo Erasmus"

Pedro Pita Barros sublinha ainda que é necessário tornar a profissão atrativa, para que os profissionais de saúde não continuem a sair para outros países, além da questão salarial. "O espaço de mobilidade de um português não é Portugal, é pelo menos a Europa, e talvez um cidadão do mundo", explica.

Questionado se é exequível que cada português tenha um médico de família nos próximos anos, como defende o Governo, Pedro Pita Barros lembra que "nos últimos 20 anos nenhum Governo cumpriu", pelo que será necessário alterar as políticas.

"A ideia de que se lança os concursos e se contrata é insuficiente. Temos que ter uma capacidade de perceber o que motiva os profissionais no SNS", diz, acrescentando que deve ser dada a possibilidade de "parar para ter vida familiar ou desenvolvimento científica".

"Uma espécie de Erasmus ou ano sabático", atira.

Sobre o sistema privado, o professor admite que "são apenas prestadores", até porque a população com seguros de saúde "não chega a 6%". Pedro Pita Barros defende que público e privado "vão ser sempre concorrenciais", ainda que "as parcerias público privadas tenham trazido ideias interessantes para o funcionamento das unidades de saúde".

"O Governo devia ter tido o cuidado de fazer um PRR para o sistema de saúde, e não só para o SNS, numa lógica de futuro", acrescenta.

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