"Quando uma família tem poucos recursos, são as raparigas que deixam para trás os sonhos"

A escritora moçambicana, Prémio Camões 2021, Paulina Chiziane, é a convidada de honra da conferência dos 10 anos da associação Corações Com Coroa, fundada por Catarina Furtado, Embaixadora de Boa Vontade da ONU.

Há menos de um ano conversávamos sobre as mulheres afegãs. Agora temos as refugiadas ucranianas e de tantos sítios. Isto parece ser uma missão sem fim...

É. Enquanto houver uma mulher que é vítima de qualquer tipo, qualquer forma de violência com base no género, a missão estará sempre incompleta. E esse é o meu propósito, quer enquanto Embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População, quer enquanto fundadora da Corações com Coroa. É o que fazemos há já dez anos com aquilo que é o relato da minha experiência no terreno com enquadramentos geográficos muito diferentes. É um facto que as mulheres são a população que mais sofre no mundo. Meninas, raparigas e mulheres de todas as formas, não é? E mesmo agora, com a questão da guerra na Ucrânia, apercebemo-nos de que são as maiores vítimas. Há bocadinho, em conversa com a Paulina Chiziane, ela dizia "mesmo na guerra, quem é mais corajoso é a mulher, não é o homem".

E porquê a Paulina Chiziane?

Porque, de facto, ela tem esta capacidade de observar as mulheres, independentemente de se inclinar mais para as mulheres africanas, é evidente. Mas tem este olhar que é necessário cada vez mais para combater a desigualdade social e a pobreza, ouvirmos as mulheres e reconhecermos os seus direitos. Independentemente da geografia.

O que é que vai acontecer aqui no Teatro da Trindade este sábado à tarde?

Vai acontecer uma festa; o que é muito curioso, porque normalmente as organizações não-governamentais passam o dia-a-dia a trabalhar muito. No nosso caso, temos dois objetivos concretos, que é apoiar e depois autonomizar, ou seja, apoiar, informando e capacitando. Nós, ao longo destes dez anos, vamos aqui mostrar o que é que fizemos. No fundo, é a festa da celebração, da solidariedade, da solidariedade que nós praticamos que é uma solidariedade afetiva, porque tem muita proximidade com as nossas beneficiárias, que são raparigas e mulheres, e é também efetiva. Portanto, é a solidariedade que faz um ponto final, a solidariedade que desenha um roteiro de vida para aquela rapariga ou para aquela mulher e que depois a vê partir com um sorriso, porque, no fundo, aquilo que nós fizemos foi elevar a sua vontade, o potencial que muitas destas mulheres não têm.

De que forma é que se expressa esse apoio?

Apoiamos na área da violência doméstica, apoiamos dando bolsas de estudo. Apoiamos do ponto de vista psicológico, do ponto de vista do serviço social, do ponto de vista jurídico, do ponto de vista da saúde oral. E vamos mostrar números.

Que números?

Vamos mostrar que, ao longo destes dez anos, demos 34 bolsas de estudo a jovens raparigas em cursos como gestão, direito, enfermagem, medicina, futebol - a Jéssica Silva vem cá dar o seu testemunho - fisioterapia, engenharia. São 34 raparigas que se formaram naquilo que elas mais queriam e que de outra forma, sem o apoio financeiro que é a bolsa, mas sobretudo sem o apoio biopsicossocial dado pelas nossas psicólogas e assistentes sociais, elas nunca conseguiriam concretizar os seus sonhos, porque, inevitavelmente, mesmo em Portugal, quando uma família está com parcos recursos financeiros, são as raparigas que normalmente deixam para trás os seus sonhos universitários. E portanto, é neste momento que nós atuamos e damos o tal empurrão. Nós não gostamos de mãos estendidas, não gostamos de dar como uma espécie de caridade. Gostamos sim de dar um empurrão para que aquela pessoa consiga ver o seu potencial realizado.

O que é que já conseguiram fazer com as pessoas ucranianas que chegaram entretanto a Portugal?

Com as ucranianas, aliás, e não só ucranianas, nós temos um projeto que se chama "Juntos Acolhemos" em que temos mulheres afegãs, mulheres de outros cenários de guerra também e de conflito, mulheres sírias. Nós não fazemos distinção entre os refugiados e isso é uma das preocupações que nós estamos a constatar, enquanto agentes de desenvolvimento que há de facto também - dentro de quem sofre e de quem foge de um país em guerra, ou de um conflito ou de uma catástrofe natural - há também uma certa solidariedade seletiva e nós queremos combater isso e, portanto, o Juntos Acolhemos tem o propósito de apoiar sobretudo raparigas e mulheres e as suas crianças. Estamos a dar neste momento aulas de português e todo o tipo de ajuda no âmbito da educação e da saúde, que não está abrangida nos requisitos dos programas de acolhimento. Portanto, essa é a nossa primeira ajuda, o nosso primeiro apoio. As aulas de Português estão a acontecer. E depois temos o nosso atendimento e consultas gratuitas diariamente na nossa sede. E aí é o apoio dado pelas psicólogas, pelas assistentes sociais na procura de emprego, no apoio a depressões e casos de parentalidade complicada, de violência doméstica, na procura até de habitação. E já são, ao longo destes anos, mais de 5500 atendimentos que nós demos. São mais de 580 mulheres emancipadas, empoderadas devido a este apoio. Não consigo resistir a este sorriso porque, de facto, a única coisa que nós fazemos é colocarmo-nos no lugar destas mulheres e destas raparigas. E eu coloco-me todos os dias. Eu criei a Corações com Coroa quando fiz 40 anos. Vou fazer 50 este ano são dez anos de solidariedade horizontal e não vertical. Ou seja, olhamos para os outros na mesma linha de horizonte.

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