"Que a memória fique." Em três semanas, mãe e filho perderam a batalha contra o vírus

Em apenas três semanas, Maria Rosete, 74 anos, e Manuel, 36, perderam a batalha contra o vírus. Este é o retrato de ambos, pelo olhar de Mónica, a filha e irmã mais velha. Ouça e leia a Reportagem TSF.

O olhar de Mónica Fonseca divide-se entre a feliz memória dos momentos partilhados e a dor da perda de dois dos seus, em poucos dias. O "bicho" levou-lhe a mãe a 15 de janeiro. A 5 de fevereiro, após uma dura luta nos cuidados intensivos, partiu o irmão. Uma "pessoa doce", há-de contar mais adiante.

Os sapatos ficam à porta. A chuva forte desta tarde cinzenta escura de março embala o silêncio que reina. Conversamos à mesa da cozinha.

Maria Rosete Duarte do Nascimento Gamas Fonseca, "senhora do seu nariz" e de um nome comprido, era uma alentejana de alma e coração. Nasceu em Santa Bárbara dos Padrões, no concelho de Castro Verde. Filha de uma professora, "regente, como se dizia na altura", saltitou de terra em terra, até chegar a Alcácer do Sal.

E, lá na freguesia de Alcácer onde vivia, nos anos 60, com 20 e poucos anos, "a minha mãe era falada porque... Usava calças!", exclama Mónica. Noutro dia, fez sensação porque "entrou no cinema de casaco amarelo!". Era uma "destemida". A filha ri.

Na universidade, depois dos 50

Maria Rosete casou cedo, mudou-se para Setúbal, teve cinco filhos, mas não foi feliz para sempre. O casamento acabou e a "orgulhosa alentejana", agarrou nos quatro filhos que ainda viviam com ela - Mónica, a mais velha, já estava na universidade - e foi viver para o Torrão, uma pequena freguesia de Alcácer, a mais de uma hora de distância de Setúbal.

A vida foi-lhe madrasta, mas, mesmo assim, ainda entrou para a universidade, para Comunicação Social, porque "ela sabia tudo. Era o google em pessoa!". No dia da prova final de acesso, os filhos foram todos com ela. O exame, oral, foi sobre o 25 de Abril. Um acontecimento que vivera intensamente. Entrou com 16.

Mas, meses mais tarde, um primeiro cancro acabou-lhe com o sonho. Vinte anos depois, veio outro. E, mais tarde, uma insuficiência cardíaca. A saúde agravou-se, deu-lhe cabo da mobilidade. Virou-se para a internet. "Ela fazia tudo pela internet. Compras, exames para o médico, despesas para a ADSE... Dizia... Eu não me posso mexer. Qual é o mail?", conta a filha. E foi a primeira da família a inscrever-se no Facebook, uma forma de encontrar pessoas que há muito não via.

A net do vizinho

Para Maria Rosete, a internet era uma forma de chegar a todo o lado e a tudo aquilo que gostava e fazia questão de saber. E assim foi "afinando" a "arte do desenrascanço". Um dia, ligou a Mónica, porque não tinha internet. Após uma pesquisa no Google, ligou-lhe a contar que estava "pendurada na net de um vizinho"! Não havia problema. Afinal, era "só um bocadinho".

Mas o gosto pela "net", não lhe abrandou a paixão pelos livros. Enciclopédias, sobretudo. "De arte portuguesa, de História, a Lello Universal... Os dois tomos eram sagrados. Mudavam de casa, vinham sempre atrás, e estão ali, já com quase 40 anos".

Memórias de livros, de música, dos natais em família e de um "amor declarado" a Paris, que a vida nunca a deixou conhecer.

Manuel, uma "pessoa doce"

Gémeo de Catarina, os 36 anos de Manuel não foram suficientemente fortes para combater a Covid. Mónica, com mais 12 anos, a mais velha dos cinco, sente a ausência do irmão, quase como "a perda de um filho".

Mónica recorda as idas ao cinema, os passeios, as brincadeiras e os risos a dois. "Há-de ser sempre o meu menino... Quase que um filho. Era uma pessoa doce... Era uma pessoa doce".

Até ao fim, Manuel viveu com a mãe, e com a irmã, Catarina, que tem trissomia 21, nos últimos anos, já em Almada. Depois da perda dos dois, Catarina foi morar com a irmã mais velha. Mas ainda é cedo para perceber exatamente qual impacto que a tragédia está a ter nela. Apercebe-se da ausência, mas Mónica acredita que "só quando ela fizer anos" é que vai questionar, verdadeiramente, "porque é que eles não estão".

Manuel nunca casou, nunca se lhe conheceu uma namorada. Preferia ser um "tio muito babado" de três sobrinhos. Era um cinéfilo "inveterado" e vibrava com Pulp Fiction, o filme preferido. Falava inglês na perfeição, mas ficou-se pelo curso profissional de Turismo. Era o "guia" da família. Mónica lembra os passeios em Belém, por exemplo, em que o irmão contava "detalhes que a maior parte das pessoas não sabe". E contava-os com tanto gosto que "eu, às tantas, já fazia de propósito", ao pedir-lhe "histórias" sobre os monumentos.

"Que a memória fique, já que eles não puderam"

Foi por isso. Foi por esse motivo que Mónica Fonseca resolveu contar a história da mãe e do irmão. Com a emoção à flor da voz, ali bem juntinho ao microfone, faz questão de lembrar que "não somos só nomes, não somos só números em tabelas. Somos pessoas com alma, com vida. Quero que a memória deles fique para sempre, já que eles não puderam ficar".

No dia 5 de fevereiro, Mónica despediu-se do irmão, Manuel, no hospital, ao som de We are the champions, dos Queen. Era a canção favorita dele.

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