Quem eram as despenadeiras de Nisa? As mulheres que ajudavam a morrer

A vila alentejana de Nisa já terá sido terreno fértil para uma espécie de eutanásia popular, praticada por um grupo de mulheres a quem chamavam despenadeiras.

A revelação é feita por Teófilo Braga, primeiro Presidente da República, na obra publicada em 1885 "O povo português: Nos seus costumes, crenças e tradições", citando Mota e Moura, ilustre cidadão de Nisa que ocupou o cargo de presidente da Câmara.

Aos dias de hoje a população de Nisa não sabe quem eram as despenadeiras que entre os séculos XVIII e XIX terão abreviado a agonia a doentes terminais lá da terra, como constatou a TSF entre populares de várias idades. Mas à boleia do livro de Teófilo Braga é revelado que as despenadeiras acreditavam estar a praticar um ato de caridade poupando o moribundo ao sofrimento.

"Na mentalidade delas, poucos esclarecidas, iam com boa intenção aliviar o sofrimento das pessoas e depois punham-lhe termo à vida. Claro que isto era numa lógica pagã", admite Ribeirinho Leal, professor aposentado que tem dedicado os últimos anos a estudar a raiz da cultura popular do Norte Alentejano, onde reside.

Na publicação de Teófilo Braga lê-se que quando alguém estava por "muito tempo nos transes da agonia sem poder acabar", iam chamar "certas mulheres mais desembaraçadas e resolutas, que acabam de a matar e depenar".

Ribeirinho Leal associa o termo "depenar" ao fim da pessoa. "No fundo, quer dizer que a liquidavam. Transpondo isto para os séculos XVIII e XIX, elas estavam convencidas que estavam a praticar uma boa ação, porque a pessoa estava no sofrimento", acrescenta.

Ainda o segundo livro "O povo português: Nos seus costumes, crenças e tradições", as mulheres gritavam à cabeceira do moribundo para afugentar o diabo antes de lhe cravarem os cotovelos sobre o peito, comprimindo-lhe a caixa torácica. "Não seria com pancadas, porque isso iria deixar hematomas e sinais como prova do crime, por isto era crime. Por isso, penso que seria por asfixia", resume.

De acordo com a mesma a publicação, houve vezes em que os próprios doentes pediam "por misericórdia que os não despenassem ainda".

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