Quem são as mulheres sem-abrigo? Histórias de trauma, solidão e dignidade

Marcadas por acontecimentos traumáticos, com baixo nível de escolaridade, pobres e sem apoio familiar, mas preocupadas em manter a dignidade e integridade moral. Este é o retrato possível, no feminino, de quem vive sem tecto.

É a primeira tese de doutoramento sobre a realidade das mulheres em situação sem-abrigo em Portugal.

Durante cerca de dois anos, a médica Sónia Nobre acompanhou 34 mulheres sem-abrigo na Área Metropolitana de Lisboa, e notou semelhanças nos percursos de vida.

Com idades entre os 18 e 68 anos, muitas destas mulheres tiveram "infâncias com acontecimentos traumáticos", como abuso, negligência, violência física ou emocional, afirma Sónia Nobre, que encontrou uma "sobreposição de experiências traumáticas", com episódios de violência doméstica, situações de despejo e ruptura de relacionamentos. Situações que culminam na pobreza, ligada ao desemprego, e também na "falta de apoio informal, até por parte da família". Aliás, as relações com a família são, muitas vezes, fonte de trauma.

Das 34 mulheres acompanhadas no estudo, 26 eram mães, mas não viviam com os filhos e nem sempre conseguiam manter o contacto com eles, apesar de o desejarem. Sónia Nobre explica que os contactos eram dificultados pela situação de sem-abrigo, pois "nem sempre existe dinheiro para manter o saldo no telemóvel". Os filhos também podem estar a cargo de familiares com quem existem conflitos. Portanto, o contacto com a mãe "nem sempre é possível".

Ainda assim, a maternidade é uma "fonte crucial de alegria e bem-estar", para as mulheres em situação de sem-abrigo. Daí que Sónia Nobre defenda "abordagens sensíveis ao trauma e às questões ligadas à maternidade" para esta população.

Outra medida preventiva fundamental é a informação. Sónia Nobre recorda que encontrou uma mulher que, durante um ano e meio, não acedeu a qualquer tipo de serviço de apoio, como as carrinhas de distribuição alimentar, porque não conhecia o serviço. A falta de informação surpreendeu a médica, que preconiza ainda uma atenção especial para situações de risco muito elevado: abuso doméstico, despejo, saída de estabelecimentos de acolhimento (no caso das jovens) e estabelecimentos prisionais. "São pontos de viragem", que trazem riscos elevados.

Nas estratégias de intervenção, Sónia Nobre destaca as medidas sistémicas de combate à pobreza, reforço da protecção social, do mercado de trabalho e igualdade de género. Elas são sobreviventes que se preocupam em manter a dignidade, o auto-respeito e a integridade moral, frisa Sónia, tocada por cada uma das 34 histórias de vida das mulheres sem-abrigo.

A realidade sem-abrigo no feminino é o tema de uma conferência online, esta sexta-feira, no âmbito da semana pelo combate à pobreza e exclusão social, que decorre até domingo.

*A Autora não segue o acordo ortográfico de 1990

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