Reportagem TSF. Fé, engenharia das velas e cante no regresso dos peregrinos a Fátima
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Reportagem TSF. Fé, engenharia das velas e cante no regresso dos peregrinos a Fátima

Luísa traz 18 velas nos braços, apenas algumas entre "toneladas" queimadas por dia no santuário, mas as promessas não se medem aos quilos e a fé tem mesmo um peso muito próprio.

O caminho foi longo, mas cumpriu-se. Mais uma vez. Manuel Barros já não tem dedos que cheguem para contar as peregrinações.

Aos 75 chega a Fátima como quem deu uma voltinha lá pelo santuário de Barcelos e confessa: "É onde faço o melhor treino. Uns dez quilómetros por dia, faça chuva ou faça sol. É o meu comprimido diário, aqui venho buscar o tratamento para todo o ano."

Está provado que peregrinar faz bem. A razão de tanta vinda a Fátima sai-lhe fácil: "Estive na guerra, na Guiné...", e esta é a primeira de muitas. Algumas tão simples como "estou bem, estou vivo".

E até quando, senhor Manuel, até quando se sente com forças para encarar esta meia volta a Portugal a pé? "Enquanto a Senhora quiser. Ela é que manda em tudo". Todos os anos o mesmo lema: para o ano, logo se vê.

Quem se queixa do calor durante a caminhada é porque ainda não experimentou entrar no Santuário antes das 19h00, quando o fim do dia lhe traz algum ar morno. A luz e o branco parecem multiplicar o calor muitas vezes. Mesmo assim, a caminho do lugar mais procurado, a Capelinha das Aparições, à hora de almoço começa a formar-se uma fila inimaginável.

Há quase fila para comprar velas, e outro tanto de gente, uns atrás do outros, para as queimar. A temperatura, a imagem das labaredas altas e o cheiro a cera queimada atuam como um poderoso sedativo.

Luísa traz os braços cheios. "São 18, são de pessoas da família que me pediram para as queimar em seu nome."

Luis, recém-chegado de Penedono, confessa que traz estas velas todas só porque quer, "não é promessa não é nada, apeteceu-me dar à Senhora. A minha irmã também era para ter vindo, mas morreu..."

Cátia traz uma rosa-vermelha numa mão e um molho de velas na outra, "umas 12 ou 13, de pessoas que me pediram". Será cada vela um pedido? "No meu caso sim, no das outras pessoas não sei, pediram-me para comprar dez euros de velas e foi o que fiz."

É muito nova, Cátia. Da geração que faz greve às aulas pelo ambiente, mas a fumarada e o cheiro não lhe despertaram a costela ambientalista, "nunca tinha pensado nisso". A fé ocupa tudo.

A fechar esta fila vem um imigrante brasileiro, com a mulher, a quem me esqueci de perguntar o nome. Com o desembaraço que nasce com quem nasce daquele lado do Atlântico, vira-se para o funcionário do Santuário responsável pela queima das velas e não hesito: "Devia haver aqui um circuito com água, para arrefecer o sistema e permitir que as pessoas colocassem a vela no lugar."

Em tom de engenheiro, tentava responder às reclamações da mulher. Ela bem tentou, mas o calor era tanto que nunca conseguiu colocar uma vela de pé - derretiam todas a uns cinco centímetros do pedestal.

Alfredo, o tal funcionário do Santuário, depois de muito tentar, lá justificou sem conhecimentos técnicos: "Isto não há muito a fazer, já está tudo estudado, e se não queimássemos as velas não haveria espaço no mundo para ter tanta vela."

Alfredo não sabe quanto se queima aqui em média, só que são "toneladas". Toneladas de velas.

Também há quem entre no recinto do Santuário como se estivesse sozinho no mundo. Um grupo de alentejanos de Moura, todos de mochila às costas, todos de meias ou pés descalços, todos concentrados na voz e no olhar.

Por um momento parece fazer-se silêncio no Santuário. Mesmo em poucas vozes, o cante soa imponente, o Alentejo é assim, a cantar também se reza.

O dia maior de quem acredita em Fátima ainda não chegou ao fim.

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