Reportagem TSF. No encalço dos últimos peregrinos até ao 13 de Maio em Fátima
13 de maio

Reportagem TSF. No encalço dos últimos peregrinos até ao 13 de Maio em Fátima

Tiveram uns anos para treinar, estão uns profissionais. A maioria dos peregrinos não tem dias, mais sim seis, sete noites de caminho, porque saltam da cama à meia-noite para fintar o calor. Vamos com eles na reta final. Siga-nos.

Nesta parte final, à volta de 35 quilómetros, parece que há tantos peregrinos como carros de apoio. Uns fazem fila no asfalto, outros nas bermas da estrada.

Pedro Castanheira dá nas vistas. Traz um colete pejado de autocolantes: desde um cão raça São Bernardo com a bandeira da Suíça, até outro com "a dança dos cus de cabanas de Viriato". Afinal, um símbolo de onde trabalha este emigrante na Suíça e outro do local de onde nasceu e de onde saiu há cinco noites. "Fiz isto uma vez e gostei tanto que fiz logo ali a promessa: ir todos os anos a Fátima num carro de apoio."

Visto daqui não parece grande esforço e Pedro está ostensivamente feliz. Aponta um dos motivos do seu orgulho. "Esta carrinha foi emprestada, fui eu que a decorei e lhe pus o pirilampo." O pirilampo laranja está colocado no tejadilho com fita-cola, à volta da carrinha há grupos de postais de Fátima com imagens de Nossa Senhora colocadas com fita vermelha, "para dar nas vistas, que a segurança é o mais importante".

De resto, Pedro trouxe uma coluna de som portátil, toca saxofone e "apito solidário", é um verdadeiro animador. Pedro estacionou em Colmeias, o último posto de peregrinos a caminho de Fátima, a uns 35 quilómetros. É aqui, nesta sombra que parece abençoada em dia abrasador, que uma equipa do Instituto Politécnico de Leiria faz estágio. São três as professoras de Enfermagem e quatro as alunas que se desdobram entre um peregrino de cara fluorescente, de tão queimada, e outro a ostentar com orgulho um pé com uma sola de bolhas. Estes são, ainda assim, os felizardos.

Na zona de Pousos, outra vez à sombra, agora de uma oliveira, está estacionada uma carrinha quase cheia de colchões e de sacos. Visto de perto, também lá estão o senhor Moreira, a senhora Cecília e a senhora Beatriz. "Não conseguimos mais", resume a última. Cecília lamenta-se logo a seguir. "Há tantos anos que faço isto e nunca tive nenhuma bolha." Pior ainda -- comprova a vista -- está o senhor Moreira. Ouvinte ferrenho da TSF, quase se esquece das dores quando vê o microfone azul: "Isto podia ser pior. Lá por Alcácer do Sal fiquei com o pé em sangue, e agora pronto. A ver se consigo ao menos entrar no Santuário", desvia olhar para um pé entrapado.

O calor abrasa da cabeça aos pés. Ninguém melhor do que João António para falar disso. "Já houve um ano em que tive de andar nas tendas da Cruz Vermelha para me tirarem o alcatrão dos pés com óleo de amêndoas doces." Tal e qual, confirmam os amigos de São João da Pesqueira, afinal este não é um peregrino qualquer, estamos perante o famoso Toninho.

Já foi capa de jornal nacional e deu entrevistas em televisões estrangeiras. Este peregrino desafiou as diferentes maneiras de chegar a Fátima e inventou a peregrinação descalça, ou melhor, o peregrino descalço. Os fãs adotaram a alcunha que lhe deram ainda na escola primária, e Toninho ficou.

"Não me dói nada", diz, a exibir os pés forrados a pó esbranquiçado. "Nem uma bolha tenho. À noite sou eu que trato dos pés de toda a gente." Só não tem tratamento a dor que fica muito mais acima, só na sombra do olhar. "A pior peregrinação foi a que fiz no ano passado, vim cumprir uma promessa que não era minha", hesita. Não se percebe se vai ou não continuar. Avança: "Era pelo meu filho. Perdi-o no ano passado." A voz fica baixinha e tão fina que quase lhe desaparece. Como no ano passado, em que além de descalço, fez quase 300 quilómetros até Fátima sem falar. Hoje, João António já fala. Ajuda muito o filho que resta e a fé que nunca o deixou.

Deixemos Caranguejeira e chegamos à Senhora do Monte. Parece um ensaio de peregrinação, dezenas de pessoas tiram selfies à volta de uma imagem da Virgem Maria sufocada em coletes fluorescentes, hoje o traje obrigatório de qualquer pessoa que vá a Fátima a pé.

A estátua e a senhora Albertina Machado explicam o ajuntamento: "Isto é uma paragem quase obrigatória de quem vem a Fátima. Se não for para almoçar, que seja para rezar ali." Para chegar à fala com esta cozinheira, é preciso passar pelo batalhão que lava louça em alguidares que parecem piscinas. Albertina zela religiosamente por outros recipientes gigantescos. Tachos e panelas tão grandes que nos poderíamos afogar lá dentro se tivéssemos o azar de lá cair. "É sopa, salada de hortaliça, batata frita e bifes de peru. O último tabuleiro engana, parece mesmo uma montanha de bifanas." Seja pela refeição ou pelo primeiro contacto com a virgem já quase em Fátima, a partir daqui o sol e o cansaço não lhe pesam, a ninguém. Fátima é logo ali.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de