Rosa faz ginástica "à janela" na solidão da serra em Valença
Reportagem TSF

Rosa faz ginástica "à janela" na solidão da serra em Valença

A solidão é a casa de Rosa Gonçalves. Com 85 anos de idade, cumpridos no domingo, 2 de maio, escolheu viver isolada e só, no meio da serra para onde foi levada em criança para trabalhar como empregada de servir dos patrões das antigas minas de volfrâmio de Taião. Um projeto-piloto da Câmara Municipal de Valença, criado para acompanhar os mais velhos que vivem no isolamento, leva-lhe agora companhia uma vez por semana. Três técnicos superiores desporto dão aulas a quinze utentes com idades entre 70 e 90 anos. E Rosa abre a porta à iniciativa "Atividade física à janela" à terça-feira de manhã.

"Bom dia, senhor doutor", alegra-se quando vê chegar o técnico de desporto do município. Bruno Fernandes saúda-a carinhosamente. Confessa que se afeiçoou e admira a "senhora solidão", que considera ser "um livro aberto". Puxa uma cadeira para o átrio da casa e a sua "aluna" fica sentada à porta. Fazem os exercícios sentados.

"Trabalhamos membros superiores e inferiores, mas tudo num ritmo 'light', até porque todos têm uma idade bastante avançada, mas proporcionamos-lhes a possibilidade de uma prática desportiva para manutenção motora", descreve o técnico, que desta vez trouxe uma bola de cor verde fluorescente para Rosa "trabalhar" braços e pernas. Os exercícios são seguidos à risca, com muita conversa pelo meio. "Uma das coisas que fazemos nestas aulas, é falar muito, porque eles têm necessidade de falar. E falar faz bem", afirma, considerando que Rosa é "o expoente máximo do isolamento e da solidão".

"Pus-me a pé às sete horas. Acordei muito cedo. O cão ladrou toda a noite. Disse para mim: Meu Deus o que andará aí? Não sei se era raposa...", conta a mulher, cujos dias e noites são passados dentro de casa, no lugar de Chã do Brialho, com a porta fechada.

"Estou para aqui, um pouco choro, um pouco falo", diz, explicando que as lágrimas são de saudade do falecido marido Alfredo, antigo mecânico das minas de volfrâmio, e do filho Eduardo Jorge, que a deixou só. "Morreu-me agora há pouco. Às vezes, até me zango com Deus por mo ter levado", desaba a chorar.

Na vida de Rosa, também há momentos de riso. Ri com as próprias histórias. "Havia aqui em Taião um senhor, que ainda não era velho, tomou uns comprimidos, morreu e foi 'com o cosinho direito' para o cemitério".

Bruno Fernandes, diz que "a Atividade física à janela ainda está a ser testada e tem corrido muito bem". "Há mais gente a querer entrar e, por isso, mais tarde ou mais cedo, vão abrir novas vagas", afirma.

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