Roubos de comida e "caganitas" nos carros. Municípios do Porto querem controlar "gaivotas atrevidas"

Área Metropolitana do Porto decidiu dizer basta: há seis meses, cinco municípios da zona litoral uniram-se num plano para a contenção de gaivotas.

Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Vila do Conde e Póvoa de Varzim vão concertar uma estratégia para reduzir o número de aves nos seus municípios. O plano, que está a ser traçado a nível metropolitano, terá como ponto de partida um estudo a ser realizado pela Universidade do Porto, no próximo ano. Enquanto não há conclusões, que só deverão ser conhecidas em finais de 2021, os munícipes vão convivendo com as gaivotas que se aproximam cada vez mais do interior das cidades.

Diana Marques trabalha há dois anos na mercearia, que fica no rés-do-chão de um prédio no centro de Vila Nova de Gaia. À porta tem uma zona pedonal, um jardim e gaivotas. "Gaivotas? Há e cada vez mais. As pessoas começaram a alimentá-las e por isso cada vez há mais por aqui. Isso, sim, é verdade."

Além de trabalhar, Diana também vive no concelho. Nunca viu nem ouviu histórias de ataques de gaivotas, mas concorda com o plano que está a ser traçado para diminuir a população destas aves. "Eu tenho o meu carro estacionado na rua e, cada vez que vou pegar nele, tenho de o lavar por causa das 'caganitas' das gaivotas."

A pouco metros da mercearia, Fátima Castro está sentada na esplanada de uma confeitaria. Também ela diz que nunca soube de problemas com gaivotas. Garante que são inofensivas. "Concordo com o controlo do número de gaivotas, mas não as matem por amor de Deus!"

Tal como Fátima Castro, Manuel Silva vive ali ao lado. Assegura que as gaivotas incomodam e muito. "Muita gente queixa-se. As pessoas estão aqui a almoçar e, por vezes, elas vêm aqui, ficam perto dos clientes e pegam na comida."

Antigo funcionário da Câmara Municipal de Gaia, Manuel Silva garante que teve de atuar. "Trabalhei aqui, na Câmara de Gaia, durante 38 anos e trabalhava precisamente na Salubridade Pública. Notifiquei muitas pessoas porque davam alimentos a gaivotas, a gatos... e não se pode fazer isso."

Este ano, a autarquia decidiu ir mais longe. É um dos cinco municípios que assinou um acordo para um plano concertado, no âmbito da Área Metropolitana do Porto, para controlo da população de gaivotas. Fátima Silva, chefe da divisão de gestão ambiental da Câmara de Gaia, diz que o que o problema transformou-se numa praga. "Há cerca de três anos é que começaram a aumentar os relatos de situações desta natureza [ataques]. Particularmente em espaços públicos exteriores, onde as pessoas se alimentam, como é o caso de esplanadas."

Para combater o excesso de gaivotas no município, Fátima Silva diz que os habitantes têm um papel fundamental. "Infelizmente, ainda vemos muitas pessoas que acham que é adequado alimentar os animais. Pensam que estão a fazer algo importante para estas espécies, mas não estão. Elas conseguem, por si só, arranjar alimento na natureza para sobreviverem."

Este apelo é uma das diretrizes do plano, que vai começar com a realização de um estudo, pela Universidade do Porto. O documento vai caracterizar a situação e apontar caminhos para o controlo de gaivotas.

Enquanto não há conclusões, Fátima Silva, da Câmara de Gaia, relembra problemas associados ao excesso de animais na cidade, para além da degradação e deterioração do património edificado. "As gaivotas tanto estão no aterro, como estão no caixote de lixo e depois, logo a seguir, podem pousar numa linha de água para beber - e estão a disseminar a contaminação de algumas bactérias, como a legionela, por exemplo."

A preocupação da Câmara de Vila Nova de Gaia é partilhada na cidade do Porto. O último estudo sobre a população de gaivotas é de 2011, mas, desde então, pouco se fez e a situação quase nada melhorou, como reconhece Pedro Pombeiro, diretor do departamento de Planeamento e Gestão Ambiente da autarquia. "Nós temos um indicador, que é o número de gaivotas que recolhemos vivas, ninhos e espécies juvenis, que vai aumentando. Por isso, temos sinais de que a população de gaivotas vai aumentando."

As gaivotas de pata amarela são as mais frequentes e têm características muito específicas. "Têm uma capacidade de reprodução muito grande e depois as crias retornam e fixam-se. Portanto, é uma ave que tem um raio de circulação muito curto."

Marta Pinto, bióloga e chefe de divisão de Gestão Ambiental na Câmara do Porto, complementa que, agora, "as gaivotas nascem, vivem, reproduzem-se e morrem nas cidades". "Sendo uma espécie selvagem, já está totalmente adaptada a este ambiente urbano, que lhe é muito favorável. É mais quente, portanto, elas podem começar o período de reprodução mais cedo. Têm alimento disponível com muita facilidade. Têm os locais de nidificação nos telhados, onde não há muita gente, e, por outro lado, é uma espécie que não tem predador."

Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Póvoa de Varzim e Vila do Conde são os municípios que decidiram, há seis meses, avançar com um plano, que foi aprovado agora em outubro.

A Câmara Municipal do Porto diz que não tem nenhum relato significativo sobre os incómodos provocados pelas gaivotas. Na Avenida dos Aliados, André Silva, que gere um café com esplanada há 20 anos, diz que queixas não faltam. "As gaivotas atacam os clientes, atacam os funcionários que vão com as bandejas cheias de comida. Aumentou há cerca de dois anos. Tem sido quase impossível trabalhar cá fora. Então no verão, é pior!"

Acabar com a esplanada está fora de questão. Quando está sol, os guarda-sóis tentam travar as gaivotas, mas é preciso mais. Por isso, André Silva aplaude o plano da câmara. "É muito importante fazerem isso. Mesmo os turistas que por aí andam, muitas vezes vêm aqui buscar coisas que levam ali para o jardim, mas, pouco depois, chegam cá com a caixa toda picada pelas gaivotas."

José Magalhães, motorista da STCP., vai ao volante do autocarro, pelo centro e arredores do Porto, e avistando um ou outro episódio com gaivotas. "Até tenho uma situação engraçada para contar: há dias, na Cordoaria, um casal de ingleses comprou um bolo e um copo de vinho do Porto. A [gaivota] foi à mão e roubou o bolo."

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de