Primeira unidade móvel de consumo assistido continua a dar apoio e a salvar vidas
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Primeira unidade móvel de consumo assistido continua a dar apoio e a salvar vidas

Desde que começou a funcionar, há dois anos, a unidade móvel de consumo vigiado já fez mais de 4600 atendimentos, 40% relacionados com o consumo de drogas injetáveis. Em 12 intervenções de emergência, seis foram por overdose.

Meio-dia. A carrinha está parada em frente à Igreja de Arroios em Lisboa. É uma das quatro paragens diárias da primeira sala de chuto móvel do país. A circular, desde abril de 2019, a carrinha de consumo vigiado coordenada por equipas dos Médicos do Mundo e do GAT - Grupo de Ativistas em Tratamentos, tem utentes regulares e presta apoio a consumidores de drogas, mas não só. A porta está aberta à comunidade.

Junto à carrinha está a coordenadora da equipa, uma psicóloga e um mediador de pares. Lá dentro, uma enfermeira. " Qualquer pessoa pode abordar a unidade móvel. Há serviços que são abertos à comunidade em geral como, por exemplo, rastreios, testes rápidos ao VIH, hepatite B, hepatite C e sífilis, ou buscar preservativos ou por vezes aceder a alguns cuidados de saúde, como avaliar a tensão", explica Adriana Curado, uma das coordenadoras da sala de consumo vigiado móvel.

A função original da carrinha é, no entanto, prestar apoio aos consumidores de drogas injetáveis com o objetivo de evitar consumos desprotegidos e sem condições de higiene. Por dia, são realizados dentro da carrinha entre quatro a cinco consumos. "É feita uma avaliação antes do consumo. O que é que a pessoa vai consumir, onde vai injetar e o que é que consumiu naquele dia para evitar situações de sobredosagem", revela Adriana Curado, que sublinha que a função da equipa não é pressionar as pessoas para pararem de consumir ou para irem para estruturas de tratamento. Ainda assim, sempre que é manifestada vontade por parte dos consumidores a equipa faz todo o acompanhamento.

Atento ao movimento na sala de chuto móvel está Nuno Figueiredo, que conta que já foi consumidor de heroína e de outras drogas pesadas. "Esta carrinha representa a toxicodependência. Eu já fui muito tóxico", afirma, revelando que tem um grande historial de consumo, mas que recebeu o apoio dos Médicos do Mundo. Um apoio que diz ter sido fundamental, ainda mais em tempo de pandemia.

A ponte entre os consumidores e a equipa da carrinha é feita por João Caldas, mediador de pares, também ele com uma história de consumo de drogas. " Nós aqui tentamos não chamar toxicodependentes; o termo que usamos é utilizador de substâncias porque é menos estigmatizante", começa por explicar. " Eu enquanto mediador consigo ver quais são as necessidades, se eles precisam de alguma coisa na área social ou na área da saúde e se querem fazer consumo vigiado eu faço com eles." João Caldas explica que nem sempre os consumidores querem injetar-se junto à enfermeira, preferem fazê-lo acompanhados por ele que também já consumiu.

Seja como for, a enfermeira Joana Pires está sempre pronta para ajudar. "O objetivo da carrinha é uma educação para o consumo injetado é neste foco que nós nos centramos, mas também é importante sinalizar estas pessoas e de alguma forma colocá-las dentro da sociedade, nas estruturas sociais e de saúde e integrá-las digamos assim."

No balanço de dois anos de funcionamento da carrinha, o vereador dos direitos sociais da câmara de Lisboa sublinha a importância do projeto. " Conseguimos que este programa funcionasse bem, atingisse os seus objetivos. Isto é, proporcionar condições de saúde, condições de higiene a quem consome drogas por via endovenosa, mas, ao mesmo tempo, servir de porta de entrada para um conjunto de outros serviços, seja de tratamento, seja de encaminhamento psicossocial para outras entidades."

Ao longo de dois anos, a sala móvel de consumo vigiado já fez 4610 atendimentos, 40% relacionados com consumo de droga e realizou 12 intervenções de emergência, seis relacionadas com situações de overdose. "O programa chega sobretudo a homens, 80% do sexo masculino com idade média de 44 anos e consomem em média há quase 17 anos, creio que este é um número muitíssimo relevante. Encaramos este problema como um problema de saúde grave a que este equipamento dá resposta", sublinha Manuel Grilo.

Além da unidade móvel estavam previstas há pelo menos 3 anos mais duas salas de consumo vigiado fixas e o vereador dos direitos sociais assegura que a abertura de uma delas está para breve. Vai ser no vale de Alcântara. No caso da sala prevista para o Bairro da Cruz Vermelha, mantém-se o braço de ferro com os moradores que já apresentaram duas providências cautelares.

*notícia atualizada dia 4 de maio às 12h00

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