"Se não espantarmos os pardais, eles vão comer os girassóis todos"

Os produtores de girassol estão ameaçados pelos pardais, depois de o ICNF os proibir de espantarem as aves com armas de fogo. Em análise está uma alternativa que passa pelo uso de cartuxos não letais que trocam o chumbo pelo trigo.

A campanha de girassol mostra-se generosa em sementes, mas, este ano, os produtores deparam-se com um receio que pode afetar a safra. O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) não autorizou o espantamento de aves com recurso a armas de fogo, o que traduzirá um escancarar de portas a banquetes para pardais, assim que as sementes estiverem maduras.

Vasco Abreu, da Nutriprado - empresa que aposta na agricultura sustentável - sacode o pólen com a mão para mostrar como a flor está carregada do que vulgarmente é conhecido por "pipas", num cenário otimista transversal aos 50 hectares às portas de Elvas, nas margens do rio Guadiana.

"Se não espantarmos os pardais, eles vão comer os girassóis todos e há um prejuízo enorme", alerta o empresário, sem perder de vista as vicissitudes de quem produz girassol à beira rio, especialmente agora que o Guadiana vai de leito cheio. "O rio faz que com tenhamos sempre muitos pássaros por aqui e temos que os espantar para salvar uma cultura que está cá há mais de 20 anos", insiste, revelando que os pardais estão em maioria, mas há outras espécies consumidoras de sementes que os produtores já ousam adjetivar de "praga para as culturas".

"Nós não estamos a falar em abater as aves, mas temos de as afastar, para não termos um prejuízo tão grande", insiste, relembrando que há mais de 20 anos que a produção de girassol vem ganhando espaço.

A empresa que gere, com sede em Elvas, já trabalha com mais de meia centena de produtores distribuídos por todo o Alentejo, detentores de cerca de 1500 hectares de terra destinados ao girassol de multiplicação polinizado por abelhas, que garantem ainda produção de mel a 25 apicultores.

"Estamos a falar de girassol de elevada qualidade que é colhido aqui e que segue para a fábrica em Sevilha, seguindo depois para o mundo inteiro, como são os casos da Ucrânia, Rússia, França ou Estados Unidos", revela Vasco Abreu, sustentando que estes produtores ajudam Portugal a ser "campeão da Europa na produção de girassol".

Para tentar afastar as aves dos campos, já foram testados canhões de gás, lasers e drones, mas a eficiência do espantamento é reduzida, necessitando do reforço das armas de fogo. Aliás, Vasco Abreu alerta que este dado é essencial no caminho que está a ser traçado na atração de investidores para Portugal.

"Temos esta segurança de ter a água" diz, reportando-se a uma zona que beneficia do grande lago de Alqueva, "e um clima excelente para garantirmos um produto de elevada qualidade", acrescenta, alertando que "se não houver autorização para espantar pardais, corre-se o risco de perder o investimento", numa altura em que a produção já supera os 2 milhões de quilos que estarão no ponto para serem colhidos no prazo de 20 dias, prolongando-se a campanha até final de agosto.

Cartuxos de trigo em vez de chumbo

À TSF, o presidente do ICNF, Nuno Banza, justifica a proibição do uso de armas de fogo no espantamento de aves com o facto de, em anos anteriores, terem sido denunciados abates de pássaros que resultaram mesmo na detenção de pessoas pela Guarda Nacional Republicana (GNR).

Porém, avança que está em cima da mesa a possibilidade dos produtores poderem usar armas de fogo com cartuxos que, em vez de chumbo, serão carregados com matérias não letais "de baixa competência balística, como trigo, sementes e outros materiais que são moles", diz.

O presidente da ICNF sublinha que o mercado já tem esta solução disponível, relembrando que o disparo de cartuxos vazios acarreta perigosidade para o utilizador. "Trata-se de uma explosão do fulminante e da pólvora sem que haja uma substância que absorva o impacto da explosão. Ou seja, há uma libertação de energia que é usada", justifica.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de