"Se não fossemos lá, não haveria mais ninguém"

O trabalho de Cláudio Carvalho, enfermeiro da Unidade de Saúde de Vale de Alcântara, não parou durante a pandemia porque há idosos a precisar de tratamento e uma conversa amiga para afastar a solidão.

A rotina do enfermeiro Cláudio Carvalho é passada a percorrer as ruas de Lisboa. Praticamente todos os dias faz visitas domiciliares a utentes da Unidade de Saúde Vale de Alcântara.

Todas as semanas passa em casa de Alzira Filipe de 81 anos. Está acamada e precisa de cuidados diários. Além do filho, Alzira conta com a ajuda da equipa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

Antes de entrar, o enfermeiro Cláudio Carvalho percorre um processo de segurança e higiene que inclui duas batas descartáveis, máscara, desinfetante, luvas e proteções para os sapatos.

É um processo moroso a que o enfermeiro teve de se habituar para evitar a propagação e a transmissão da Covid-19. Além do equipamento individual, toda a equipa teve de se ajustar à pandemia. Houve horários a serem modificados para proteger os funcionários em grupo de risco e as equipas no terreno.

"Foi tentar também fazer os horários um bocadinho em espelho para que, no caso de algum de nós ficar positivo, a equipa toda não ter de ficar de quarentena e podermos continuar a fazer o nosso trabalho", explica.

Durante o estado de emergência, a equipa da SCML continuou sempre a trabalhar, apesar do isolamento social. Muitos idosos que acompanha perderam contacto com o mundo exterior e as visitas da equipa foram essenciais para manter tratamentos e combater o isolamento.

"Temos várias situações em que, se nós não fossemos, não haveria mais ninguém. Situações que precisam de cuidados que são inadiáveis e que nós mantivemos. Ninguém ficou para trás, apesar de todos os cuidados e de todas restrições que o país viveu.

O enfermeiro explica que alguns idosos não têm familiares mas iam recebendo visitas de vizinhos ou amigos. Com a pandemia, essas rotinas deixaram de acontecer. "Notamos que as pessoas, nesta fase, ficaram mais isoladas, manifestavam maior solidão", afirma.

Alzira Filipe conta com a ajuda do filho. João Portugal recebe as dicas das equipas da Santa Casa e o apoio nos tratamentos. "Vieram sempre cá, nunca falharam".

Em tempos de isolamento, a conversa com os técnicos e enfermeiros também ajudou a passar o tempo. "Ajuda a libertar a mente."

Apesar da equipa de enfermagem ter continuado o trabalho, houve também utentes que pediram para deixar de receber a vista da unidade de saúde.

"É perfeitamente natural. As pessoas tinham e têm medo. Nesta altura, é importante que as pessoas não vacilem e não desmotivem na necessidade de manterem os cuidados mas o medo também não pode ser um fator dissuasor", explica.

O enfermeiro considera que a pandemia "veio provar que com um investimento maior nos cuidados de saúde primários conseguimos diminuir a necessidade de recurso aos cuidados hospitalares, que foi muito importante nesta fase".

É esse o trabalho de prevenção, promoção da saúde, e ensino à população que Cláudio Carvalho e a equipa da da Unidade de Saúde Vale de Alcântara desenvolvem no dia-a-dia.

A rotina vai seguindo, mesmo com o avançar da pandemia, porque "tem que haver um meio-termo entre o medo e a necessidade de se voltar a viver. Temos que ir para a frente", defende.

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