Segunda vaga é inevitável. "O meu receio é de que não tenhamos recursos humanos"

Sandra Brás, especialista em Medicina Interna e coordenadora da unidade dedicada à Covid-19 no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, deixa o alerta. As equipas estão cansadas e uma segunda vaga pode exigir demasiado dos profissionais de saúde.

"Não sei se vai ser fácil dizer 'a segunda vaga está aí', mas acho inevitável que ela chegue." Sandra Brás, especialista em Medicina Interna no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, vê com "preocupação" a iminência de um segundo momento da Covid-19. A clínica é uma das coordenadoras do serviço que dá assistência aos doentes internados devido ao novo coronavírus e garante que "o hospital está a preparar-se". O que a inquieta são os profissionais de saúde.

Sandra Brás tem assistido de perto aos esforços de enfermeiros e médicos. Tudo o que lhes tem sido pedido pode levá-los à exaustão, alerta. "Não temos problemas de espaço físico. O que me preocupa é o cansaço das equipas. Os enfermeiros passam mais tempo com os doentes do que os médicos. São eles que fazem a higiene do doente, que lhe dão a medicação, e é muito difícil vestir aqueles fatos, estar dentro deles durante horas. Começam a estar cansados."

"Para abrir enfermarias, precisamos de profissionais. O meu receio é de que não tenhamos recursos humanos." Apesar das dificuldades, a médica continua a dedicar tempo aos pacientes que superaram o vírus na primeira vaga. Sente falta da disponibilidade que sempre ofereceu aos doentes, de os ouvir e de lhes conhecer o percurso de vida. "Passamos menos tempo com eles, para nos protegermos. Sabemos pouco da história deles enquanto pessoas. Sabemos da doença e da história deles enquanto doentes, mas saber deles não é só saber quando começou a falta de ar, a tosse e a febre."

Esta é uma realidade que "custa muito" a Sandra Brás, que salienta a importância da empatia com os outros, num trabalho de cura e de compreensão dos seres humanos. Uma realidade que espera ver sanada com o tempo. "O conhecimento de quem é a pessoa, em que trabalha, como vive... Isso ficou bastante comprometido. As primeiras consultas são muito demoradas porque eu gosto de os ouvir falar e de compreender a pessoa que está por detrás... Atrás não, à frente, a pessoa tem de estar sempre à frente da Covid."

Para a coordenadora do circuito Covid do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, os doentes são os verdadeiros heróis desta história de pandemia. Mas, caso seja possível avançar com gratificações, Sandra Brás tem uma sugestão a fazer. "Como é que nós podemos ser recompensados? Há uma forma muito simples: as nossas chefias reconhecerem o nosso trabalho. Não é um reconhecimento público, nada disso. Não são palmas. Às vezes passa apenas por cruzarem-se connosco no corredor e perguntarem como estamos."

"Não me estou a queixar, porque tenho isso. Faço questão de me lembrar para o dizer à minha equipa. Já houve fases em que não o tinha e percebi a importância que tem dizer a alguém que fez um bom trabalho." Na missão profissional de curar pessoas, há mais, muito mais do que os pagamentos salariais, defende. "Nós não estamos aqui por dinheiro. Não há nenhum enfermeiro que decida ser enfermeiro nem nenhum médico que eu conheça que tenha escolhido medicina porque ganha muito dinheiro. Alguns provavelmente ganham mas também trabalham muito."

Se for possível pagar, os gestos falam mais alto, e as compensações financeiras que os médicos reivindicam são por vezes mais simples do que possa parecer. "Como recompensa económica, basta pagarem-nos as horas a mais que lá passamos", preconiza.

"Uma Questão de ADN", um programa de Teresa Dias Mendes, com sonorização de Miguel Silva, passa na antena da TSF esta quinta-feira, às 19h00, com repetição à 01h00, e domingo, às 14h00. O programa pode também ser ouvido em permanência em TSF.pt e em podcast.

* e Catarina Maldonado Vasconcelos

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