"Senhora dona madame Mizette", a holandesa que salvou a manta alentejana

Mizette Nielsen comprou a Fábrica Alentejana de Lanifícios em 1976 e resgatou teares manuais seculares. Chegou a ter uma equipa de 50 pessoas, enfrentou a concorrência estrangeira com a entrada de Portugal na CEE, mas conseguiu dar a volta. Mais de 40 anos depois de ter chegado a Reguengos de Monsaraz, a holandesa decidiu vender a última fábrica de mantas alentejanas a quem já prometeu continuar a tradição.

Mizette Nielsen é holandesa e vive em Portugal desde 1961. Começa logo por dizer que não pode contar tudo. "Estou em Portugal há 60 anos, é muito tempo."

Mas começa pelo início. Mizette Nielsen estudava em Salamanca quando veio a Cascais para um casamento. "Entre Cascais e Salamanca de verão, é melhor estar em Cascais."

Concordamos. Nada substitui o mar. O mar pode então pode ser o início da história.

Em Salamanca, Mizette estudava literatura espanhola, tentou mudar a bolsa de estudos para Portugal. Não conseguiu, mas decidiu que era ali que ia viver. Mudou-se, casou com um dinamarquês nascido em Portugal e abriu uma agência de modelos.

Manequins e James Bond

Chamava-se Juno e tinha como sócia June Burton, ex-miss África do Sul. Juntas descobriram modelos como Ana Maria Lucas, a eterna miss Portugal.

Depois da Juno, fundou a AIM - Agência Internacional de Modelos e trabalhava sobretudo com publicidade e figuração. "Fizemos o James Bond e trabalhei com Tony Scott e Richard Scott."

O 25 de Abril dita ao fim da agência de modelos. Mizette funda uma cooperativa têxtil e é enviada à Beira por David Mourão Ferreira, na altura a desempenhar funções na Secretaria de Estado da Cultura, para avaliar a situação da indústria têxtil na região, que sofria o impacto da chegada dos teares elétricos. Esteve lá três meses, falou com tecelões, fez vários contactos e recuperou teares que estavam em risco de desaparecer. Começa a ganhar paixão pela arte da lançadeira.

A última fábrica de mantas alentejanas

Ouve falar de uma fábrica em Reguengos de Monsaraz em risco de fechar. Dizem-lhe que é a última a fazer mantas alentejanas e decide ir lá ver.

"Deves salvar isto, isto não pode acabar", pensou e decidiu comprar a fábrica.

Atrás dos teares estavam apenas homens, nada habituados a terem uma chefe mulher. "Em Portugal, temos o hábito de chamar doutor ou engenheiro. Então, ao princípio era senhora doutora. Doutora não, porque não estudei medicina, não sou doutora. Uns dias depois, era senhora engenheira. Também disse, não é preciso chamarem engenheira. Então, ficou senhora dona madame."

A Revolução de Abril trouxe liberdade, mas os costumes levavam mais tempo a mudar. É que Mizette era diferente das mulheres em Reguengos.

Mizette e os alentejanos

"Tive problemas nos restaurantes aqui. Só havia dois restaurantes na praça, os únicos sítios onde se podia comer naquele tempo. Num deles, quando entrava, diziam-me que a minha mesa já estava posta. Era na sala de bilhar. O outro tinha uma mesa redonda na cozinha onde podia comer", recorda.

Não podia partilhar a sala de refeição com os homens? "Nem pensar."

Mas Mizette arranjou solução. Falou com o dono e pediu para comer juntamente com os homens. "Comprei a fábrica sozinha, pago ordenados sozinha, vou ao banco sozinha, agora comer sozinha não pode ser."

A solução apresentada pelo proprietário não se fez esperar: "Costuma andar de saias. A partir de amanhã, venha de calças e come com os outros."

Assim fez. Ao início, tinha uma mesa reservada no canto da sala e, sempre que entrava, fazia-se silêncio, mas foi conquistando espaço em Reguengos. "Mais tarde, era a única mulher que podia ir com eles à caça."

Em menos de uma década, a fábrica aumentou a força de trabalho. Onde antes estavam cinco tecelões, passaram a estar 50. As mulheres começam a substituir os homens no tear. "Havia muito desemprego aqui. Então, tínhamos mulheres a pedir trabalho. Ensinamos muito."

A CEE e a concorrência dos edredons

Tinham muitos clientes estrangeiros e a manta começava a ganhar fama a nível internacional. "Fizemos quilómetros para o Ikea, diretamente para a Suécia."

A produção ia bem, mas a crise chegou em 1986, com a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE) e a concorrência do leve e fofo edredom.

"Mudou completamente. A manta da cama apanhou um susto. E também eu", recorda.

Um susto para Mizette e para a equipa de 50 pessoas que tinha nos teares. "Foi muito duro. Foram dois anos com tanto pessoal, não havia lay-off como agora. Então comecei a alterar os produtos. Primeiro, comecei a fazer mais tapetes. Pensei em cores mais para o interior, mais suaves, e pôr na cabeça das pessoas que a manta tanto pode estar na cama como pode ser tapete."

Teve que despedir, reorganizar a produção, mas manteve a manta como a pérola da fábrica e assim foi continuando até aos dias de hoje.

Com o tempo a passar, Mizette quis certificar-se de que a tecelagem ficaria em boas mãos.

"Tudo tem um fim"

"Eu não quero chegar aos cem anos, mas, se amanhã me dá uma coisa, esta gente depende 200% dos ordenados daqui, não posso deixá-las à deriva. Porque cada uma destas mulheres é chefe de família, é o ordenado delas que conta", afirma.

Recebeu várias propostas mas acabou por vender a três sócios portugueses interessados em manter esta tradição viva. "Custou-me, mas como depois começou a Covid, foi um corte umbilical", diz aliviada.

O negócio passou para os novos donos há cerca de um ano. Mizette continua a viver em Reguengos, mesmo ao lado da fábrica, e de lá quase consegue ouvir o som dos teares a funcionar.

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