"Ser bombeiro voluntário é nobre e bonito"

Escolas de recrutas do Alto Minho formam 128 novos elementos. A TSF assistiu a uma instrução no quartel de Ponte de Lima.

Cento e vinte e oito homens e mulheres estão a participar na 4.ª edição da Escola de Recrutas, que está em curso desde outubro de 2021 nas corporações de Bombeiros Voluntários do Alto Minho.

São na sua maioria jovens, com idades entre os 20 e 30 anos, e uma boa parte possui formação académica.

"O facto de estar na universidade a estudar Enfermagem e abordar o doente crítico e aqui ter a parte do socorro, pesou muito na decisão de vir. Ser bombeiro voluntário é nobre e bonito", referiu Raul Silva, de 21 anos, um dos 25 recrutas que fazem formação no quartel de Ponte de Lima. A TSF assistiu à instrução dos 15 homens e 10 mulheres que resistem à dureza do curso. A escola começou com 30 elementos, mas, após o primeiro módulo, cinco desistiram.

"Há falta de voluntariado. Iniciar uma escola com 30 recrutas é excelente. Agora já só estão 25, mas se ficarem 10 ou 15 ficamos imensamente satisfeitos", afirma o Presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros de Ponte de Lima, Américo Fernandes.

Atualmente, existem em Portugal cerca de 30 mil bombeiros para 475 corporações de voluntários, de acordo com números da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC). E a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) já estabeleceu como objetivo para os próximos quatro anos a captação de "mais dez mil jovens" para a carreira de bombeiro voluntário.

Segundo o Chefe Emílio Silva, que lidera a escola de Ponte de Lima, a formação contempla 400 horas, entre teoria e prática, mais um estágio em cada uma das áreas de aprendizagem, o que faz com que para ser bombeiro voluntário seja necessário praticamente um ano. "A recruta é dura. É preciso estar preparado física e psicologicamente para chegar ao final, mas depois saem preparados para enfrentar o mundo real", afirma, referindo que são comuns as desistências.

A formação decorre em horário pós-laboral. Os pesados equipamentos de proteção individual escondem gente de várias idades, sexo e formação. Há cada vez mais elementos do sexo feminino. O Comandante dos Bombeiros de Ponte de Lima, Carlos Lima, afirma que a procura de mulheres para a recruta "tem aumentado cada vez mais", e que estas são bem-vindas. "Tem sido muito saudável tê-las no corpo de bombeiros. Trouxeram outras sensibilidades", refere.

As temperaturas noturnas quase negativas que por estes dias se fazem sentir à hora da instrução não intimidam para já os 25 recrutas. Solange Pereira, de 23 anos, estudante de Psicologia na UTAD (Vila Real), é das que resiste. Ao frio, à dureza da recruta e também à necessidade de adequar as unhas compridas e pintadas de vermelho, à condição de bombeiro. "É compatível. Já estou habituada. Desde que entrei para aqui já coloquei as unhas mais pequenas e vou ter que colocar mais, porque realmente dá mais jeito, mas nada que me faça confusão. Só para pequenos detalhes como desapertar o capacete", conta.

O termómetro marcava 2º C. A sensação térmica era de ossos congelados. A escola iniciou com a ordem-unida, com o Chefe Emílio Silva, a comandar a formatura. "No início de cada instrução eles fazem ordem-unida, praticam a formatura e vários passos. Faz parte. [Nos bombeiros] Temos formaturas para receber entidades, governantes, seja quem for", esclareceu o formador.

Segue-se a parte prática do módulo de incêndios urbanos e industriais, com a montagem de ARICAS (Aparelho Respiratório Isolante de Circuito Aberto) e linhas de mangueira. No fim, os recrutas arrumam todo o equipamento e, após uma pausa de dez minutos, avançam para formação em sala.

O Comandante Carlos Lima garante que ali não tem faltado recrutas, graças a "um trabalho por antecipação feito durante todo o ano nas escolas à procura de jovens para ingressar nas fileiras de bombeiro". Destaca a procura por parte de mulheres e de "elementos com formação académica superior". "Temos um que está a acabar o 6.º ano de Medicina, muita engenharia, doutoramentos, advogados. Por trás de uma farda, nunca se sabe quem lá está", comenta.

Um alpinista industrial de profissão, Luís Duarte, de 40 anos, recruta naquela escola. "Trabalho em acesso por cordas e nessa área faço um bocado de tudo, manutenção de edifícios e pontes, montagem de eventos. De certa foram já sou um bocado bombeiro", descreve.

Helder Danny Pinto, de 24 anos, ex-emigrante em França, onde trabalhava em segurança de incêndios, decidiu continuar na área agora que veio para Portugal viver. "Para já trabalho num call center, mas o meu objetivo é passar a Bombeiro Profissional", diz.

O Presidente da LBP, António Nunes, que tomou posse há dias, considera que "a crise de voluntariado" também já chegou às corporações, embora se faça sentir mais nas zonas menos populosas e afastadas do litoral. E que há "um problema de disponibilidade" dos jovens para o exercício da função. "Há países em que é uma honra ser bombeiro. Mesmo para as empresas. Em Portugal nem sempre é assim", afirmou, referindo que a LBP tem como objetivo para os próximos quatro anos aumentar em 10 mil o número de voluntários em todo o país. "Queríamos crescer para 40 mil em quatro anos. Para isso precisamos trabalhar em campanhas de informação e em melhorar o estatuto de incentivo ao voluntariado, para ajudar a captar jovens que queiram vir para os corpos de bombeiros", afirma António Nunes.

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