"Ser calceteira não é um bicho-de-sete-cabeças"

Paula Sousa é calceteira há mais de 30 anos.

O dia-a-dia de Paula Sousa não é o de uma mulher qualquer. Com 46 anos de idade, casada há 27, dona de casa e mãe de três filhos, com 26, 22 e 14, vive em Arcos de Valdevez, e trabalha de sol a sol de martelo em punho a assentar pedra, construindo passeios de calçada à portuguesa. Já se habituou a lidar com olhares e palavras pasmadas, perante uma mulher, que faz um trabalho tradicionalmente masculino.

Agarrou o ofício do marido calceteiro há mais de 30 anos, quando a pandemia a atirou para o desemprego em 2020. Até ali trabalhava num hotel, a servir pequenos-almoços.

Um dia, o marido António Lima de Sousa, estava a trabalhar em Vieira do Minho e o seu parceiro de obra teve um acidente de trabalho. Paula foi ajudar. "Fui e encarrilhei. Ele só me punha as paletes, orientava e eu ia por ali abaixo. Acertava a terra e havia dias que punha 70 ou 80 metros", recorda.

O patrão gostou do seu desembaraço e da sua mão certeira. Contratou-a. E agora passa agora os dias agachada sobre a calçada. "Nunca pensei que fosse um trabalho assim tão pesado. Quem vê pensa que não é, mas é muito. Uma pessoa, até se habituar, chega ao fim do dia... Agora não, mas antes doía-me as costas. Habituei-me e faço na boa", refere a calceteira, que também já se habituou a espantar quem passa. "Às vezes, as pessoas passam, param, começam na galhofa. Dizem: quem é aquele rapaz? Estou e de chapéu e depois quando ergo a cabeça, ficam surpreendidas", conta, comentando: "As mulheres são iguais aos homens, mas há pessoas que para elas é um bicho-de-sete-cabeças ver uma mulher num trabalho destes. Digo: 'isto é um trabalho como outro qualquer, é digno'".

Antes de ficar desempregada e de se dedicar à arte da calçada portuguesa, Paula Sousa chegou a "servir mais de 200 pequenos-almoços no hotel". Hoje, afirma, não troca a nova profissão por nada, apesar das oito horas de trabalho, a alinhar pedra portuguesa no chão com a ajuda do martelo de calceteiro, a fazer cimento e tudo o que é preciso nas obras. "Gosto de andar ao ar livre. Nem que faça neve, como já andamos, ou chuva, por acaso é uma coisa que eu gosto", garante.

O amor à arte de calceteiro leva-a também a não desligar das obras ao fim de semana. Por vezes, ao domingo leva as filhas - tem duas raparigas e um rapaz - a ver os passeios que constrói ao lado do marido António. "Gostam de ver e têm orgulho. A mais nova fica admirada: 'ó mãe como é que tu fizeste isto?'".

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