Somos, pela dignidade da mulher sem-abrigo. "Há cada vez mais raparigas" na rua

Está a nascer uma associação de apoio às mulheres em situação de sem-abrigo. São "irmãs que estão a sofrer muito na rua", garante quem já viveu a mesma experiência.

Elda Coimbra e Haj Somai conheceram-se na rua. Cruzaram-se no Casal Vistoso, em Lisboa, quando "viviam na prostituição". Uma "agarrada à droga e ao álcool", outra viciada na bebida.

Somai, 50 anos, chegou a Portugal como turista, apaixonou-se pelo homem errado - "o amor da minha vida", recorda, que a explorava e maltratava. Quando ficou sem dinheiro, não conseguiu enfrentar a família. Viveu sete anos na situação de sem-abrigo.

A história de Elda, 52 anos, é "triste e difícil". Vítima de violência doméstica, foi parar à rua. "Meti-me no tráfico, fui correio [de droga], fui presa na Bolívia", conta. Extraditada para Portugal, cumpriu cinco anos na cadeia de Tires, mas voltou à rua, ao tráfico, à droga e ao álcool. De regresso a Tires, esteve presa mais dois anos e meio, apenas para voltar a cair no mesmo ciclo. "Estava num estado degradante e virei-me para a prostituição, (...) senti-me um objecto, não era um ser humano, era uma coisa que estava ali".

Sem-abrigo durante dez anos, foi na rua que Elda pensou em criar um grupo de apoio às mulheres nessa situação. Porque elas estão ainda mais vulneráveis na rua. Há tentativas de violação, "às vezes, acordam com um homem em cima delas", denuncia Luísa Gomes, que também foi sem-abrigo durante quatro a cinco anos. E quando apresentam queixa, não são levadas a sério, porque "são toxicodependentes, prostitutas, vivem na rua". Além disso, a nova associação quer incluir pensos higiénicos ou tampões nos kits que são distribuídos pelas organizações que apoiam os sem-abrigo. Para "uma mulher com o período, é muito difícil estar na rua". Para usar os balneários, "tens de pagar ou eles estão a espreitar por cima da porta", salienta Elda, que ansiava por "um bocadinho de dignidade".

Apoiadas pela associação Crescer, as antigas mulheres sem-abrigo estão a criar a associação Somos. "As nossas irmãs estão a sofrer muito", afirma Haj Somai, que quer tirar as mulheres da rua. "Há cada vez mais raparigas menores, jovens" sem-abrigo, garante Elda. A Somos pode ajudar, porque "já sentimos no pêlo" aquilo por que elas estão a passar.

"Ninguém quer ser sem-abrigo, ninguém quer ser prostituta, drogada. Ninguém quer viver na rua", sublinha Elda, que tinha "medo, pavor" da rua e vergonha da família. "Estava suja, drogada, bêbada. Eu era a primeira a fugir" dos filhos. Depois de várias tentativas de suicídio, aceitou ajuda para se mudar para uma casa, mas os primeiros tempos não foram fáceis. "Eu não sabia o que era uma cama, dormia no chão. A primeira semana nem dormi lá. Dormi na rua. Ia lá tomar o meu banho, mudar de roupa e saía para dormir".

Actualmente, Elda sente-se uma pessoa nova. Já sabe "pegar numa vassoura", mexer num micro-ondas, comer num prato. "Renasci, eu hoje tenho vida, eu hoje sou livre, (posso) fazer o que eu quero, abrir o frigorífico e ter lá a minha comida, tomar banho, ter a minha privacidade". Agora, a trabalhar na associação Crescer, Elda volta todas as tardes para a rua, para apoiar as mulheres sem-abrigo. Distribui panfletos, ouve lamentos, queixas e dá conselhos. Todas as segundas-feiras, o grupo fundador da Somos reúne-se, para partilhar experiências e ultimar os protocolos que vão formalizar a associação. Com a nova missão e uma nova vida, Elda retomou o contacto com a família. "Hoje, tenho relação com os meus filhos. Tenho família, tenho vida, tenho dignidade. Sinto-me realizada", conclui.

A autora não segue as normas do novo acordo ortográfico

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