"Tenho tantas saudades": a adolescência virada do avesso. Recomeçar no Porto com o coração em Kiev
Guerra na Ucrânia

"Tenho tantas saudades": a adolescência virada do avesso. Recomeçar no Porto com o coração em Kiev

Illia e Marianna têm 17 e 13 anos. São irmãos e a guerra na Ucrânia forçou-os a sair do país natal, rumo a Portugal. Foram acolhidos na casa de uma prima dos pais, no Porto. É nesta cidade que reaprendem a ser adolescentes. Na Escola Secundária Garcia de Orta sentem-se integrados e bem acolhidos.

"O meu nome é Illia, eu tenho 17 anos, eu gosto de História, de conversar com os meus amigos e jogar jogos."

Na memória de Illia Pastushenko tudo começou, desde há três semanas, a ser novo. Em Portugal, gosta das pessoas e da escola, mas é à Ucrânia que espera um dia voltar e rever os amigos, que também fugiram da guerra.

"Alguns amigos estão na Alemanha, outros estão na Polónia - por ser muito próximo da Ucrânia -, outros estão na República Checa, outros na Eslováquia e um está na Irlanda. Claro que tenho esperança que um dia vamos estar todos novamente juntos e em Kiev, claro."

No 12.º ano, Illia sonha com a entrada na universidade. Com um computador pousado no colo e um documento aberto, conta que vive um dia de cada vez.

"Estou a fazer um trabalho para a escola. Sim já tenho amigos cá, mas só estou com eles na escola, porque tenho este trabalho para fazer sobre a revolução ucraniana no início do século XX, e ainda não está terminado."

No Porto, Illia e a irmã estão ao cuidado de José Mota, que nota as marcas que ambos trouxeram.

"O que viram, o que não trouxeram de lá, como saíram do país e as saudades dos pais, como é lógico."

Illia saiu da Ucrânia com a irmã.

"Olá, eu sou a Marianna, sou ucraniana, sou de Kiev, tenho 13 anos."

Depois de uma viagem de cinco dias, com partida de Kiev, Illia passou a fronteira com a Polónia a pé, de mão dada com Marianna. Ela sorri quando fala sobre a nova etapa da vida, mas o passado está sempre presente.

"Tirei uma fotografia da minha casa e do meu gato. Tenho tantas saudades! Mas eu sei que... Não sei se um dia vou regressar... Mas sinto-me bem em Portugal... É perfeito!"

As emoções são frágeis e oscilam muito. Ganna Mota, prima dos pais de Illia e Marianna, sente-os totalmente integrados e atentos a tudo o que se passa na Ucrânia.

"Eles sempre que chegam da escola ficam parados a ver as notícias da guerra, do banho de sangue, das mortes."

Os dois irmãos são alunos na Escola Secundária Garcia de Orta. A hora de entrada é às 08h15. Illia, que vai começar o dia com uma aula de Sociologia, encontra dois colegas de turma à porta da escola.

Vicente Outeiro garante que o acolhimento foi o melhor.

"Nós estávamos empolgados por o ter na turma e para que ele tivesse amigos."

Gonçalo Vinagre acrescenta que foi fácil.

"Claro que foi. Não tem por que não ser. Ele é boa pessoa. Falamos com ele em inglês e ensinamos-lhe algumas palavras em português. E depois há sempre a língua universal dos cumprimentos e dos olhares, por isso..."

Patrícia Silveira é diretora da turma de 12.º ano, que acolheu Illia e recorda o primeiro dia deste novo aluno.

"Ele estava muito ansioso, notou-se, mas à medida que a manhã foi passando, ele foi-se sentindo mais integrado e bem recebido pela turma e a ansiedade foi-se desvanecendo."

O Agrupamento de Escolas Garcia de Orta, dirigido por Rui Fonseca, já recebeu, desde o início da guerra, doze alunos ucranianos. Os mais velhos carregam mais o peso de um conflito.

"Os mais novos se calhar não notarão tanto. Mas notámos, por exemplo, que o Illia, no início, sentia um bocadinho de revolta. Penso que ele, quando chegou, estava contente por ser acolhido, mas ao mesmo tempo com uma revolta grande pela situação de ter sido posto de fora do seu país. Acho que era essa a sensação que ele tinha."

Três professores ensinam Português língua não materna. A comunicação é fundamental para a integração, mas Rui Fonseca, diretor do Agrupamento de Escolas Garcia de Orta, procura outras formas de tornar o processo mais fácil.

"Tento que, quando é possível, os alunos fiquem na mesma turma e na mesma escola. Até agora tem sido possível."

Marianna Pastushenko gosta do rio Douro, porque lhe lembra as águas do Dnipro, em Kiev. Na turma de 7.º ano, a diretora, Manuela Pinto, fez o trabalho de casa antes da sua chegada.

"Eles todos sabiam que existia uma guerra e eu expliquei-lhes que vinha uma colega, expliquei-lhes as circunstâncias em que isso ia acontecer, porque é que ela tinha viajado e, depois, disse que tinha este 'problema' e que eles tinham que me ajudar a resolvê-lo, e eles imediatamente foram extremamente sensíveis. A primeira coisa que nós fizemos foi pensar no melhor para a Marianna na sala, para ela não ficar isolada, mas também para não ser o centro de todas as atenções. No primeiro dia em que ela chegou, eu vim buscá-la e levei-a à sala e eles todos se apresentaram e combinaram uma coisa entre eles. Combinaram que a Marianna nunca iria ficar sozinha nos intervalos."

Até agora nenhum dos doze alunos teve que recorrer a apoio psicológico, nem por indicação de familiares, nem por indicação dos professores.

A comunidade escolar está mobilizada para amortecer o impacto da guerra. No caso de Marianna, a turma mobilizou-se para pendurar no portão principal fitas azuis e amarelas com mensagens.

"Eu expliquei-lhe qual era o objetivo daquela atividade e pedi-lhe para ela escrever também. Claro que a Marianna escreveu em ucraniano e depois nós perguntámos o que ele tinha escrito. Ela escreveu Glória à Ucrânia."

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