Teste de personalidade para detetar extrema-direita na polícia é "discutível e complicado"

Miguel Ricou acredita que "pessoas minimamente informadas poderão até tentar ludibriar" os testes de personalidade.

Os psicólogos dispõem de vários instrumentos para avaliar tendências racistas e comportamentos anti sociais, mas Miguel Ricou, presidente do Colégio de especialidade de Psicologia Clínica da Ordem dos Psicólogos, tem dúvidas quanto à utilização destas ferramentas para avaliar candidatos às forças de segurança.

Miguel Ricou assegura que a psicologia pode ajudar no recrutamento dos futuros polícias, mas defende que os testes de personalidade que a Inspeção-geral da Administração Interna anunciou em dezembro para detetar eventuais ligações à extrema-direita ou comportamentos contrários ao estado de direito devem ser utilizados noutros contextos e além disso podem ser falíveis. "Pessoas minimamente informadas poderão até tentar ludibriar, digamos assim."

Os psicólogos dispõem de várias escalas e inventários que servem para avaliar tendências racistas e comportamentos anti-sociais. Miguel Ricou dá exemplos: "Escala para estudar as atitudes face ao racismo, as atitudes face à colonização, esta é mais específica para Portugal, escalas de diferenças culturais". "São escalas que avaliam estas dimensões", explica o psicólogo clínico para quem "é muito discutível e muito complicado" utilizar estes instrumentos "em termos de avaliação até para recrutamento que é o que está aqui em causa".

"Este tipo de instrumentos e de inventários de avaliação são do domínio das atitudes e servem para ajudar a pessoa a conhecer-se melhor a si própria através do contacto e da avaliação que faz com o psicólogo de forma a ultrapassar essas dificuldades e esses problemas, não tanto para fazer uma avaliação dessas atitudes quase contra a pessoa ou para não a recrutar."

Miguel Ricou defende que para combater o racismo nas forças de segurança é preciso apostar em ações de formação e no acompanhamento das forças de segurança ao longo do tempo, até porque em causa estão profissionais muitas vezes expostos a altos níveis de stress. "Há comportamentos que nos surgem, que aparecem de repente e que nós nem percebemos como é que foi. É preciso conseguir explicar e é preciso que a pessoa consiga compreender", explica.

Mas a psicologia pode ajudar na seleção das forças de segurança? Miguel Ricou assegura que sim. A psicologia pode ajudar "a perceber se existem riscos mais ou menos elevados da pessoa ter comportamentos que possam ser danosos para os outros". "Questões de gestão emocional, questões de personalidade que possam permitir manifestações mais patológicas, mais agressivas, de maior impulsividade e que revelem coisas da personalidade da pessoa, não o que a pessoa vai ou não vai fazer, isso entra no campo da adivinhação", explica Miguel Ricou.

Para o presidente do Colégio de especialidade de Psicologia Clínica da Ordem dos Psicólogos, por muito que seja útil e fundamental, não é numa única avaliação que "vamos conseguir encontrar todas as características e que nunca há enganos".

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