Transferência foi decidida face à "estabilidade clínica" da grávida por ser "o melhor para este bebé"

O Hospital de Santa Maria adianta que não teve acesso à informação clínica sobre a gravidez devido ao facto de a mulher ter vindo de outro país e não falar nem inglês nem português. O diretor de Neonatologia, André Graça, fala numa situação "totalmente inesperada", adiantando que o bebé "encontra-se bem".

Não entrando em detalhes clínicos, Luísa Pinto, diretora de obstetrícia do Hospital de Santa Maria, esclareceu, esta terça-feira, que a transferência da grávida que morreu durante o transporte para o S. Francisco Xavier foi feita depois de a mulher ter sido estabilizada.

Dado a "estabilidade clínica da senhora", foi "decidido" a transferência por ser "o melhor para este bebé", avançou Luísa Pinto em conferência de imprensa.

A grávida de 31 semanas chegou do estrangeiro "alguns dias antes" e "não falava nem inglês nem português". "Não tivemos acesso à informação clínica sobre a gravidez", explicou, sublinhando que a mulher recorreu ao serviço de urgência do Santa Maria na madrugada de 23 de agosto por "aumento da frequência cardíaca".

"Foi imediatamente internada no bloco de partos e foram tomadas todas as medidas", naquilo que foi parecia ser um quadro de pré-eclâmpsia. A mulher foi estabilizada nas primeiras horas e mantida em vigilância.

Situações de transferência como estas são "frequentes", dado ser "melhor" que o bebé nasça onde vai ser assistido. "Melhora o seu prognóstico de sobrevivência sem sequelas."

"O S. Francisco Xavier tinha uma vaga e a grávida foi acompanhada por um médico e duas enfermeiras. No transporte deu-se uma paragem cardiorrespiratória e foram feitas manobras de suporte básico de vida", referiu Luísa Pinto, acrescentando que foi feita uma cesariana de urgência, mas "o desfecho materno foi fatal".

"As transferências por falta de vagas de neonatologia acontecem em todos os hospitais. A equipa de obstetrícia estava completa", acrescentou Luísa Pinto.

"O que aconteceu foi totalmente inesperado"

André Graça, diretor de Neonatologia do Hospital de Santa Maria adiantou que "felizmente o bebé encontra-se bem".

O médico sublinhou que o procedimento a tomar quando há "a necessidade de transferências in utero" é "evitar que os bebés nasçam num determinado local e depois sejam transferidos de ambulância, embora existam condições mínimas de segurança para o fazer, o melhor meio de transporte é sempre o útero da mãe".

"Não havendo vagas, o bebé poderia nascer e ser transferido, a posteriori, de ambulância, com riscos que são significativos para um prematuro que é transferido nas ambulâncias nas primeiras horas de vida", algo que só acontece "em último caso", explicou.

André Graça fala de picos "que impedem dar resposta em permanência a todas as situações" que chegam ao local e "fazer uma gestão" entre grávidas e os riscos dos bebés.

"Os recursos não são ilimitados e há picos onde não há mesmo possibilidade por não haver vaga e não podemos tratar doentes em segurança" quando não há vagas no Hospital de Santa Maria e, neste caso, foi encontrada uma vaga no Hospital S. Francisco Xavier, e foi feita uma tentativa de fazer a transferência "nas melhores condições possíveis".

"O que aconteceu foi totalmente inesperado e poderemos dar outros exemplos, quase todas as semanas, de situações onde mães são transferidas com os seus fetos e o decurso da situação é perfeitamente normal", considerou.

Ocupação de 110%? Em neonatologia não é possível

André Graça explicou que não é possível "multiplicar as vagas" neste serviço."Existem rácios de equipa, sobretudo da equipa de enfermagem" e a neonatologia tem permanentemente uma taxa de ocupação relativamente alta, que em pico chega perto dos 100%, apontou.

"Não podemos chegar aos 110% - não podemos pegar num recém-nascido e colocá-lo numa maca", como acontece noutros serviços de urgência.

"Capacidade de resposta é suficiente neste momento"

André Graça adiantou que as vagas "são suficientes" na rede. "A capacidade de resposta é suficiente neste momento, mas requer este tipo de acertos, quer por questões de vagas em termos de número de camas, quer por questões de diferenciação. Recebemos grávidas que vêm para cá porque não podem ser tratadas noutros hospitais que têm características diferentes", explicou, sublinhando que "recebemos muitas grávidas porque a idade gestacional é abaixo de um determinado limiar".

Transferência só foi feita quando grávida estabilizou

Luís Pinheiro, diretor clínico do hospital de Santa Maria, condenou o que diz ser uma "lacuna informativa no tratamento mediático que é dado a assuntos específicos da saúde".

"A nossa responsabilidade, o nosso objetivo, aquilo que sabemos e fazemos é prestar cuidados de saúde, não entrar em circuitos de discussão mediático-política."

Questionado sobre a razão pela qual esta mulher foi atendida num hospital onde não havia vagas, Luís Pinheiro esclareceu que esta se deslocou para o hospital pelos seus próprios meios. "A grávida não foi aceite, veio cá. E, portanto, nós estamos abertos e quem vem cá é atendido."

Quando se verificou a gravidade da situação, a grávida foi estabilizada, tratada e "durante mais tempo do que aquele que até seria necessário" manteve-se em vigilância. A transferência só ocorreu quando estavam garantidas todas as condições de segurança e "estabilidade prolongada".

"Estabilizámos a grávida e garantimos que havia condições clínicas de segurança para a transferência"

Luísa Pinto esclareceu que "seria errado transferir uma grávida instável". "Por isso, o que fizemos foi estabilizar a grávida e garantir que havia as condições clínicas de segurança para a transferência", assegurou, sublinhando que se houvesse mais uma vaga, a grávida "teria ficado" no Santa Maria.

Num quadro de pré-eclâmpsia, "não é expectável que haja paragem cardiorrespiratória numa mulher que estava estabilizada do ponto de vista clínico".

Luísa Pinto acrescentou que, por ter vindo de outro país, o Hospital "não tinha os dados clínicos" suficientes para avaliar a grávida.

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